O sertão indomável

CARLOS ARAÚJO (Outro Olhar) – Meu nome é João José da Silva, tenho 50 anos e sou caminhoneiro. Em 30 anos de estradas, conheci todo o Brasil e vi e vivi coisas de arrepiar por esse mundão afora, desde assombrações até o dia em que fui vítima de assalto seguido de sequestro. Mas nada mais extraordinário do que esta noite em que presencio um encontro de Machado de Assis, João Guimarães Rosa e Graciliano Ramos.
Passa da meia-noite. O local é o interior de um bar perdido na curva de um caminho perdido no mapa. Os três grandes escritores brasileiros estão reunidos numa mesa mal iluminada, oculta por uma coluna de sustentação do imóvel. Eu me aproximo e me escondo atrás de um balcão. Contenho o impulso de me aproximar deles. A reunião pode se dissolver se notarem a presença de um intruso. Não há mais ninguém no ambiente. Minha ansiedade é ouvir o que dizem e poder transmitir o assunto da conversa.
— Estou angustiado com o Brasil — dz Machado de Assis. — Sinto as pessoas aflitas com o presente e incertas quanto ao futuro. Na verdade, parece que não saíram do passado. Muita gente continua com a alma no século 19 e até antes, embora o corpo esteja o século 21.
— Na queda, os estragos são sempre proporcionais à profundidade do abismo — filosofa Graciliano Ramos. — Os brasileiros atingiram avanços da modernidade que deram a ilusão de vitória nos campos da ciência, da engenharia, da medicina, da tecnologia, e isso é motivo de grande comemoração. Mas se deram conta de que não conseguem barrar os desastres ambientais, a violência urbana e rural, a polarização que transforma amigos em inimigos e destrói as relações humanas. Não há alegria que consiga resistir a tantas frustrações.
— Todo esse universo atualiza “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, o livro que é uma síntese do Brasil, arcaico e moderno – compartilha Guimarães Rosa. — Eu criei uma obra que amplia “Os Sertões” e identifica o sertão de cada um. E o sertão do indivíduo traduz o Brasil, um país incompleto que marcha no rumo de um destino imprevisível. O sertão está em cada um de nós e ele se descortina como um labirinto com poder de desconcertar os historiadores e surpreender os brasileiros. O Brasil é o reflexo dos brasileiros e não há como querer que o resultado seja outro. Use as tintas que tiver em mãos e você produzirá um quadro específico. Da mesma forma, tome cada brasileiro como composição e matéria da formação de um povo e terá o que vemos hoje.
— Certamente — concorda Machado de Assis. — O problema é que muita gente mede o Brasil pelos signos de projeção de beleza, glória e poder das grandes potências. Não há como querer que tenhamos a torre Eifel, se o nosso símbolo é o Cristo Redentor. E nós também temos as nossas glórias, desde as riquezas minerais até às maravilhas ambientais como a Amazônia e o Pantanal. Os russos têm a taiga, nós temos a caatinga, o pampa, o cerrado. No quesito das grandes cidades, entre Nova Yiork, Londres e Paris, nós temos o Rio de Janeiro.
— E olha que o Brasil não se resume ao Rio — observa Graciliano Ramos. — Outras capitais brasileiras são igualmente fantásticas e entre elas eu cito a minha Maceió e também Fortaleza, Salvador, Recife, Manaus, Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Aracaju e tantas outras cidades. Cada uma com vocação diferente, tradições e culturas populares diversificadas, inspiradoras de poetas e artistas excepcionais, talhadas para encantar os mais exigentes turistas do mundo. E toda essa matéria já produziu tanta coisa boa, desde a bossa nova até ao carnaval, desde o cinema novo até à tropicália, desde a criação de Brasília até à Velhinha de Taubaté do Veríssimo.
— E por que um país magnífico como esse continua mergulhado num clima de tanta angústia? – pergunta Machado de Assis.
— É o sertão, meus caros amigos, o indomável e indescritível sertão — sentencia Guimarães Rosa.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: