Do Estado mafioso em Cuba ao grande cassino Brasil

GERALDO BONADIO – Sessenta e cinco anos após haver integrado o grupo de 80 homens que, zarpando do porto mexicano de Tuxpan, no iate Granma, navegou rumo a Santiago de Cuba, com o objetivo de ali participar de uma insurreição destinada a derrubar o governo ditatorial de Fulgêncio Batista, Raul Castro (89 anos) renunciou ao posto de secretário geral do Partido Comunista, órgão que, em última instância, determina os rumos daquele país.

Raul participou, durante 63 anos, do governo cubano. Derrubou uma ditadura, construiu outra e, no momento em que se retira, nada faz prever a futura instauração, na ilha, de um governo democrático.

Estendendo a análise ao contexto histórico, constata-se duas realidades. Última colônia espanhola da América, Cuba escapou à tutela de Madri, mas caiu, de imediato, sob a de Washington. Os Estados Unidos, inclusive, abocanharam um pedaço de seu território – Guantánamo – em que instalaram um presídio político no qual a tortura de prisioneiros é rotina. Em todo o período anterior a 1959, quando se iniciou a ditadura atual, os cubanos nunca viveram sob um regime democrático, ainda que meramente formal.

O segundo dado a se considerar é que a Revolução Cubana teve o mérito de impedir a consolidação, a bem poucos quilômetros da costa estadunidense, de um Estado governado por mafiosos.

Em seu livro Noturno de Havana (Seoman, 2011) o jornalista estadunidense T. J. English (1957- ) demonstra que tudo aquilo que as pessoas viram em O Poderoso Chefão 2 ocorreu de fato, ainda que dentro de balizas cronológicas diversas daquelas do filme de Francis Ford Copolla.

Resultado da associação de mafiosos americanos com a bandidagem e o governo cubano, a estruturação de um Estado controlado pela Máfia Cubana estava em franco andamento quando, na passagem de 1958 para 1959, as forças comandadas por Fidel Castro invadiram Havana, em meio às festas do réveillon, forçando Batista a deixar o país precipitadamente.

As primeiras ações do novo governo cubano desagradaram os Estados Unidos que, nos meses finais do governo Eisenhower, treinaram e equiparam cubanos contrarrevolucionários para invadir a ilha. A operação foi desfechada em abril de 1961, nos meses iniciais do governo de John Kennedy que, ao tempo de Batista, participara na ilha de uma orgia bancada por Santo Traficantte, um dos pilares da Máfia Cubana.

Isso tem alguma coisa a ver com o Brasil atual? Tem. Crescem as evidências de que o atual governo brasileiro projeta fazer, de nosso país, uma réplica atualizada – e por isso piorada – do que Cuba foi até 1958.

Na constrangedora reunião do ministério Bolsonaro, em abril de 2020, em certo trecho da gravação, tornada pública por decisão do ex-ministro Celso de Melo, do STF, o ministro Paulo Guedes, defendeu a abertura do país para os cassinos, como meio de alavancar a economia. Durante o governo Trump, emissários governamentais estiveram nos Estados Unidos, em reuniões articuladas pelo empresário Mário Garnero, (Brasilinvest), com vistas à transformação do Brasil num grande cassino.

Coadjuvado pelo sinistro do Meio Ambiente, o governo fala em liberar uma enorme e preciosa área de preservação no litoral do Espírito Santo e fazer dela uma Cancun brasileira, com jogo liberado. Também está em andamento o retorno do arquipélago de Fernando de Noronha ao controle federal, para se fazer dele um ancoradouro que daria suporte a cruzeiros de jogadores que permaneceriam ao largo das ilhas.

Estruturas muito semelhantes ao Tropicana – que English descreve nas bem documentadas 400 páginas de seu livro – já existem em nosso país, inclusive uma rede de cafés, misto de casas de show e pontos de aliciamento de prostitutas de luxo. Em duas delas tivemos, em data recente, episódios envolvendo a dopagem e estupro de jovens que, ao acordarem, estavam num local diferente de onde tudo começou. O mais recente desses episódios tem como suspeito um senador filho da também senadora Kátia Abreu.

Como um perverso túnel do tempo, o Brasil de Bolsonaro tenta chegar a um passado do qual Cuba não tem saudade.

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