Famiglia Mancini

Paulo Betti

Lembro do começo do Famiglia Mancini. Fomos assistir uma peça no Teatro Augusta, “Patética”, de João Ribeiro Chaves Neto, direção de Celso Nunes. A peça havia sido proibida pela ditadura, mesmo depois de ganhar o prêmio nacional de melhor texto num concurso promovido pelo governo. Naquele dia da estreia, a viúva de Vladimir Herzog ocupava as manchetes dos jornais: finalmente se admitia publicamente que o jornalista havia sido assassinado, e não cometido suicídio, como tentava provar aquela foto de encenação tosca em que Vlad aparecia enforcado. (Meu Deus! Como a ditadura foi cruel e descarada!)

As manchetes revelando a verdade enfraqueceram a peça que falava do assunto através de parábola.

Quando acabou, um grupo de artistas desceu a Rua Augusta em direção à Rua Avanhandava para comer pizza.

No mesmo lugar havia sido um restaurante mineiro, depois um japonês e agora a cantina Zitereza estava fechada.

A atriz Jandira Martini não se conformou e bateu na porta. Éramos uns 15. Abriu-se uma portinhola e apareceu o rosto bonito do Walter Mancini. Ele disse: “Acabei de comprar esse lugar. Está fechado. Mas como aqui sempre foi uma caveira de burro, nada deu certo aqui, a presença de vocês é um sinal abençoado!” Serendipidade, ele diria hoje.

Abriu a porta e fez o grupo entrar. Mostrou o frigorífico com muitas peças de carne e a farta adega e disse que podíamos usar. Seu restaurante começava a funcionar. Como não havia empregados ou cozinheiros, botamos todos a mão na massa, baixamos o vinho e a comida foi feita como se ali fosse nossa casa.

Lembro que o Francarlos Reis estava, Vicente Tutoilmondo também. Eliane Giardini, Lilian Lemmertz, Antonio Petrin, Regina Braga. Éramos um grupo grande e animado. Walter ficou entusiasmado. Mandou buscar pão no Gigetto, que era o maior restaurante da classe teatral e vizinho, uma espécie de desafio. No final, dona Lélia Abramo foi para o caixa e cada um pagou o que quis. Walter falou que enquanto houvesse estoque poderíamos voltar toda noite.

E assim foi por uma semana. Quando acabou, ele disse para retornarmos dali a dois meses pra inauguração.

Detalhe do cartaz

Quando voltamos, era o Famiglia Mancini, com o cardápio com a foto do Walter e as mammas, o desenho do Ziraldo, as mesas bonitas, as fitinhas coloridas e as fotos de artistas.

Dali pra frente foi a história de sucesso que todos conhecem e que transformou aquele trecho da Avanhandava num dos mais agradáveis da capital paulista. Ah, mais uma coisa: quando fomos encenar Feliz Ano Velho, Adílson Barros, nosso grande ator, foi pedir patrocínio pro Walter. Ele enfiou a mão num tubo de pvc que estava debaixo da mesa do escritório, o que veio de dinheiro entregou pro Adílson sem contar. Ahaha, que lei Rouanet que nada.

Em troca, o nome do Famiglia Mancini apareceu no lindo cartaz da peça feito pelo grande e hoje meio esquecido Wesley Duke Lee. Quem quiser que conte outra.


reprodução/YouTube

Não fecharei as portas

Walter Mancini*

Uma notícia falsa que circulou recentemente na internet dizia que, devido as medidas de isolamento social implementadas em São Paulo, meu restaurante, o Famíglia Mancini, estava falido e iria fechar as portas para sempre. É mentira.

De certa forma o boato foi bom, porque recebi dezenas de ligações, e-mails e até cartas de clientes de todo Brasil me apoiando, isso me deu ainda mais gás para lutar pelo meu negócio.

Há 42 anos, em 10 de maio de 1980, eu fundei o Famíglia Mancini na rua Avanhandava, na capital paulista. Desde então, todos os dias, às 6h30 da manhã, eu sou o primeiro a chegar. E o último a sair, já de madrugada. Tanto trabalho rendeu frutos. De lá para cá, na mesma rua, abri outros quatro restaurantes e uma galeria de arte. Minha filha inaugurou por lá uma loja de roupas e acessórios. Revitalizamos a vizinhança e a transformamos em um ponto turístico, um pólo gastronômico a céu aberto.

Desde o estouro da pandemia, no entanto, as coisas ficaram bastante difíceis. Não só o meu restaurante, como todos os outros, foram obrigados a fechar as portas, atendendo somente por delivery. Nesse abre e fecha, infelizmente voltamos a servir almoço a partir deste sábado, 24. Mas a queda foi tão grande que, se antes eu comprava um caminhão de verduras e legumes no Ceasa, hoje é suficiente ir à feira livre.

Os meses foram passando e meu caixa acabou. Para manter todos os meus estabelecimentos abertos, honrar compromissos com fornecedores e, principalmente, pagar todos os meus funcionários, precisei recorrer ao banco. Desde então, em média, tenho despesas mensais de cerca de R$130.000,00 por restaurante.

Somando tudo, em um ano acumulei 9 milhões de reais em empréstimos. Estou no limite do meu crédito. Mas não estou falido.

Hoje, eu ainda emprego cerca de 300 funcionários. Antes, eram mais, mas muitos foram embora. Acertei as contas com todos eles, com decência e dentro da lei. Sem traumas e numa relação carinhosa e de agradecimento.

Daí, você me pergunta: não seria melhor fechar? Não!

E a razão é simples: a minha vida está naquela rua. Eu quero que aqueles restaurantes durem mais 100 anos. Não sou um investidor. Sou o mantenedor. Cuido com amor.

Eu não sei onde isso tudo vai dar, mas sei que, se os restaurantes morrerem, eu morro junto. Morre o restaurante, morre o Valter.

Mas eu não me entrego fácil. Não posso deixar baixar o moral. Vou lutar para sobreviver porque aquilo ali é a minha história, eu estou defendendo a minha vida. Daqueles restaurantes eu tirei o sustento da minha casa e a criação dos meus filhos. Não existe para mim essa história de “encerrar as atividades”. Isso nem passa pela minha cabeça. Estou falando da herança dos meus filhos, e não dá para pegar um legado e jogar fora. Para mim aquelas casas têm as digitais de Deus. Então, como eu posso fechar um lugar assim? Seria uma ousadia. Eu sou apenas o caseiro Dele.

Mesmo diante de uma situação tão dramática, hoje eu estou tranquilo e sereno. Sabe por quê? Porque eu não persigo dinheiro. Eu persigo um sonho. Eu não quero o lucro ou trocar de carro todo ano. Minha natureza não é a da ganância. Eu quero ver a máquina voltar a andar, quero ver aquela rua toda iluminada novamente e repleta de pessoas felizes, com saúde e com esperança de viver. O que pingar no meu caixa eu vou usar para pagar todas as contas.

Não estou desesperado. Eu estou, sim, agradecido de ter a companhia dos meus colaboradores e funcionários. Sem soberba, devo tudo aos meus funcionários e os meus clientes. Estamos todos abraçados. A rua Avanhandava não morreu. Ela só está adormecida e vai acordar já, já.

Essa crise é como uma batalha para mim. Eu vou defender aquilo que eu criei. Vou lutar e vou vencer.

* Walter Mancini em depoimento dado a Felipe Branco Cruz.

Leia post do escritor Fernando Morais sobre a resistência de Walter Mancini:

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