Rótulo de operação bem planejada oculta massacre indiscriminado

GERALDO BONADIO – A Polícia Civil do Rio de Janeiro vem tentando ocultar a real natureza do que aconteceu, na favela do Jacarezinho, jogando sobre os fatos e a montoeira de cadáveres o manto de uma operação planejada em detalhes. Tem sido apoiada, nessa inglória tarefa, pelo obscurantismo de setores da mídia que, renegando os parâmetros da ética, narram e analisam os fatos adotando os parâmetros dos Datena e dos Sikera Júnior.

Façamos de conta que a real intenção dos policiais fosse cumprir mandados de prisão contra chefes do tráfico que, naquela parte da cidade do Rio de Janeiro, aliciam e preparam – não é de hoje – crianças para movimentação da droga e manejo de armas de fogo, atividades que continuamente se expandem face à ausência tanto de uma política de segurança pública que mereça esse nome quanto por uma ação mais efetiva do Estado para preservar aquelas vidas, ainda em seu nascedouro, de um futuro horrível.

Se houvesse planejamento, a Polícia Civil fluminense teria considerado e definido meios e modos de anular e superar os obstáculos físicos que, na entrada da favela, impedem o acesso e movimentação, pelas suas vielas, de quaisquer veículos, inclusive os blindados da corporação. Teria, ainda, providenciado coletes e capacetes à prova de bala e, desse modo, preservado a vida do policial morto, por um tiro, disparado de uma laje.

Teria, igualmente, obtido resultados bem melhores que os conseguidos, nos quais o número de mortos – muitos dos quais executados a sangue frio – foi inversamente proporcional ao de mandados de prisão cumpridos. Até agora, que se saiba, dos mais de vinte que deveriam ter sido presos, um foi morto e outro capturado.

O armamento apreendido não justifica o banho de sangue. Armas em número maior e com muito mais qualidade foram encontrados, há algum tempo atrás, em depósito pertencente a um dos vizinhos da casa do presidente da República – sem que tivéssemos quaisquer desdobramentos mais efetivos que explicassem os meios e modos pelos quais ele obteve um arsenal de tais dimensões.

O general vice-presidente, apoiado em seus profundos conhecimentos de ciências criminais, inclui, sem exceções, no rol da bandidagem todos os mortos. Deixemos essa discussão de lado e foquemos, preliminarmente, o caso daquela família, sobre a qual não pairavam suspeitas, cuja casa sofreu duas invasões sucessivas: a de supostos bandidos, que se alojaram no quarto da filha do casal, e a dos policiais armados que os perseguiam. Os policiais invasores ordenaram aos moradores que deixassem a casa e, antes mesmo que eles chegassem à rua, fuzilaram os fugitivos.

Isso feito, retiraram os cadáveres – destruindo a cena do crime – e restituíram aos moradores um quarto com sangue por toda parte: em poças, no piso; de mistura com fragmentos de miolos e vísceras nas paredes e no teto e em cada peça de roupa da família. Quanto tempo uma criança ou mesmo um adulto precisará para, sem abalos psicológicos, voltar a dormir num quarto em tais condições?

Bandidos não se combatem com flores. Nem com ações violentas e destituídas de um mínimo de eficiência, como ocorreu no Jacarezinho.

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