Zilá

GERALDO BONADIO – Devo minha carreira de comunicador a Zilá Gonzaga, que aos 87 anos de idade e 71 de atividade radiofônica, acaba de nos deixar.

Responsável, entre mil outras coisas, pelo rádio teatro da velha Rádio Cacique, sua infinita paciência com o mais improvável candidato a uma vaga na afiada equipe de profissionais da novela radiofônica, sua disposição de aplicar sucessivos testes de representação até que eu atingisse a expertise necessária para entrar no estúdio e dizer, ao vivo, as duas frases reservadas ao mensageiro que entregava um telegrama, permitiram que, nos anos seguintes, eu passasse por quase todos os setores da emissora dos Bismara, de onde saí, três anos depois, para o jornalismo impresso. Foi esse o primeiro e único processo seletivo pelo qual passei em ocupações que beiraram o meio século.

Vivi minha infância e início de adolescência na rua Olavo Bilac, na Vila Santana. Ali também residiam, na rua Dom José Gaspar, os Gonzaga.

Sorocaba, entre muitas outras coisas, foi pioneira na radiodifusão. O rádio tornou-se profissional após a Revolução de 1930, quando se inicia a progressiva substituição dos clubes de radiofonia – daí o grande número de emissoras com o título de rádio clube ou rádio sociedade – por empresas sustentadas pela publicidade.A contar de um dado momento, o mercado radiofônico sorocabano foi monopolizado por Orlando da Silva Freitas que conseguiu que a Rádio Sociedade, que lhe fazia concorrência, se transferisse para Itapetininga.

No início da década de 1950 esse panorama se modificou, quando Cirilo Júnior, paranaense que fez carreira política em São Paulo, dentro do velho PSD, chegando a ministro da Justiça no governo de Juscelino Kubitschek, foi agraciado com uma penca de concessões radiofônicas em praças de variável importância comercial no Estado de São Paulo, todas identificadas pelo nome Cacique. A de Sorocaba, foi por ele explorada em sociedade com os Bismara, cujo patriarca, Orlando (Landico) se dedicava, antes, à operação de um serviço móvel de autofalantes, o carro do rádio, como era conhecido. A Cacique sorocabana operava em várias frequências, mas o que contava mesmo era a emissora em AM 1250 quilo ciclos, como se dizia na ocasião.

Zilá, adolescente, inicialmente ocupou-se da tarefa de manter em ordem o prédio da rádio – um casarão da rua Miranda Azevedo, na esquina com a Manoel José da Fonseca -, mas logo chegou aos microfones. Quando lá cheguei, já era estrela da rádio e um de seus mais importantes sustentáculos artísticos.

Em 1958, creio eu, a emissora assinou um contrato para produzir e emitir, com o seu elenco e sob o patrocínio da Gessy, ainda não absorvida pela Lever, uma novela de título enigmático – E se ela voltasse… O roteiro vinha pronto e cabia à rádio ensaiá-la e levá-la ao ar, ao vivo, com os seus radio atores.Surgiu, aí, o primeiro problema. Os personagens importantes ou secundários, mas ainda assim relevantes, eram bem mais numerosos que o elenco da Cacique. Surgiu, assim, a necessidade de, pelo menos, ampliar o cast da emissora que abriu um teste para novos atores.

O rádio se tornara, por essa época, presença obrigatória na maioria das casas. A da minha família não fugia à regra. Minha mãe cuidava da casa e dos filhos com o rádio ligado, alternando-se entre a Cacique, que de pronto se tornara a emissora mais popular da cidade, e a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, cuja audiência se escorava numa programação ao vivo com programas de radio teatro para todos os gostos.

Encorajado por ela e pela minha irmã Virgínia, inscrevi-me para o teste no qual, na enésima repescagem, Zilá Gonzaga, afinal convencida do meu talento ou, mais possivelmente, vencida pelo cansaço, enfim, me liberou.

Estive na Cacique três anos, mas nunca deixei de acompanhar a longa e sempre brilhante trajetória de Zilá Gonzaga. Encerro lembrando mais um episódio ligado ao novelão graças ao qual ingressei na emissora.

Responsável direto pela programação, José Rubens Bismara, homem de decisões terminativas e intempestivas, decidiu, em dado momento, que a novela contratada com a Gessy era longa demais. Determinou, pois, a Zilá que diminuísse o número de capítulos, reunindo cada três deles em um – tarefa da qual ela, como em tudo o que fez, se desincumbiu com eficiência e rapidez. A agência que administrava a conta da patrocinadora, obviamente não aprovou a mudança e, para continuar com o patrocínio exigiu que as emissões de rádio teatro continuassem. Como a novela já havia se encerrado, acertou-se que o horário seria preenchido com histórias de um só capítulo – criadas e ensaiadas, naturalmente, pela própria Zilá.

A ela o meu respeito, a minha gratidão e a minha saudade.

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