Colégios militares são pontos fora da curva

GERALDO BONADIO – Num país que, num momento em que educadores de verdade tinham vez e voz, concebeu e implementou um modelo tão avançado e pertinente de atendimento às aspirações de seus jovens quanto o dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, a proposta de semear colégios militares se caracteriza como um lastimável retrocesso, somente explicável pela estúpida submissão de certos governos estaduais às concepções mais retrógradas de nossas forças armadas. É o que está ocorrendo, por exemplo, no Paraná, Estado em que o governador Ratinho Jr. criou quarenta dessas unidades.

A criação, pela Prefeitura de Sorocaba – cuja participação no ensino médio, segundo o Fundeb, não se alinha entre suas prioridades – de uma escola desse tipo certamente inscreve o nome do atual chefe do Executivo na história, não, porém, nas páginas reservadas aos heróis.

O Brasil, certamente, não anseia granjear no mundo uma posição de destaque através de guerras convencionais ou híbridas, a despeito de possuir hoje um poderio bélico incontrastável na América Latina. “Paz no futuro” – proclama o Hino Nacional. E toda a nossa Constituição se pauta pela busca do entendimento e da resolução pacífica de confrontações.

Isso não nos dispensa de possuirmos uma política de defesa apta a dissuadir eventuais agressores externos. Daí os projetos, hoje desacelerados, de modernização da Marinha, com o desenvolvimento do submarino nuclear; do reequipamento da Aeronáutica com os jatos suecos, cuja aquisição, com transferência de tecnologia, foi negociada nos governos do PT; a adequação do Exército às dimensões de nossas fronteiras. Também devem contemplar a criação de uma Força Nacional permanente, capaz de gerenciar situações críticas sem fuzilar um inocente músico evangélico, no retorno da igreja para casa, com mais de duzentos projéteis disparados por recos que não deveriam estar naquele local nem agir da forma que agiram. Afinal, na caserna, sempre existe um superior que comanda e um subalterno identificado que obedece. Tudo considerado, a verdade é que, mesmo com tantos militares ativos e inativos no governo, vivemos um dos piores momentos da história de nossas forças armadas.

Razões estratégicas de toda ordem determinaram que, ao contrário do que ocorre no Vale do Paraíba ou nos rumos de Campinas, Sorocaba não tenha tido, em momento algum, organização com poderio de fogo. Contamos, sim, com uma importante organização do serviço militar obrigatório, instituição que, importante e moderna, ao tempo em que foi concebida e defendida por um grande líder civil – o poeta Olavo Bilac – carece de urgente revisão, face à constatação de que o universo dos conscritos não reflete a efetiva composição da sociedade.

A construção do Brasil contemporâneo passa pelo descarte de uma flagrante inverdade, aquela segundo a qual os fardados são mais patriotas e competentes de que os civis e, por isso, detém, sobre seus concidadãos, um poder de tutela que lhes faculta decidir coisas como quem pode ou não pode ser candidato; quem, eleito, pode ou não permanecer no governo ou, investido dos poderes de magistratura, pode dizer o que está ou não está em conformidade com a legislação.

Exorcizar essa servidão voluntária é indispensável para que nos livremos de atuais e futuros falsos messias.

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