Rivotril com gelo? Duplo on the rocks por favor!

O blog do Frederico Moriarty tem a honra de apresentar um blogueiro convidado, de verve bukowiskiana. Everson Pires é mais um grande escritor do rock a somar forças com o Terceira Margem. Aproveitem!


Everson Pires
(Blogueiro convidado)

Eu acho que aquilo que nos diferencia mesmo dos animais, para o bem ou para o mal, é a nossa capacidade de sentir saudades. Sabe aquela saudade, principalmente daquilo que nunca vivemos? Sim amiguinhos…

Geralmente, quando fazemos uma viagem, um passeio ou temos um momento de êxtase, alegria ou tesão puro mesmo, passado um tempo, relembramos aquele momento e a busca incessante por repetir aquele momento é tão intensa que a frustação da derrota por não conseguir repetir o momento se transforma em saudade e a posteriori, em tristeza.

E para os tristes e derrotados, a melhor companhia que uma boa dose de Whisky com gelo… ou Rivotril com gelo… Por favor!

E por falar em saudades… lembro do Clodoaldo. Amigão de longa data. Moramos no mesmo apartamento na época de faculdade e bebíamos pra caramba nos mesmos bares, caíamos pelas mesmas calçadas. Inclusive, o termo Rivotril com gelo foi ele quem criou. Era comum isso!

Dois fracassados no amor… e, por que não dizer, em outras circunstâncias, sentávamos a beber no Bar do Paulo Pingaiada, pedíamos uma porção de “minduim” e uma de berinjela no missô, várias ampolas de cervejas estilo “canelinha de pedreiro” e umas doses. E um dia, lembro como se fosse hoje, era uma sexta, por volta de umas 19h, quando o garçom veio tirar pedido, como sempre, o bondoso serviçal apenas confirmou os aperitivos, as ampolas e, na hora dos drinks, Clodô interrompeu e disse: “Rivotril com gelo! On the rocks, por favor!”

E em uma de nossas bebedeiras, Clodô me contou esse “causo” que eu jamais esquecerei. E irei contar aqui.

Clodoaldo morava também no interior… De Minas Gerais! Em Ipatinga, na Região do Vale do Aço em Minas. Sim. Coronel Fabriciano, Ipatinga, Santana do Paraíso, Timóteo e mais um monte de cidade. Lá que ele se “escondeu” a vida toda e depois de reprovar em vários vestibulares, foi trabalhar em São Paulo, lá prestou vestibular na PUC, passou, fez Direito, se formou, e ainda conseguiu ser um excelente professor de Filosofia do Direito e seguiu a vida. Inteligente, nunca se casou. Não teve filhos. Por isso, podia se comprometer a cachaçadas vários dias da semana, sem o compromisso de alguém em casa cobrando horários e obrigações.

Caipira, depois de anos ralando, conseguiu sua tão sonhada viagem internacional. Europa!

Londres, Amsterdã, Dresden, Praga e leste europeu. Tudo alternativo e fora da rota. Os detalhes da viagem, não entro, pois além de não saber, não me lembro. Ele contava tanta coisa, e em uma mesa de bar, apenas 30% você consegue captar.

Em Dresden, segundo ele, em uma cafeteria, conheceu uma moça. Aliás, segundo ele, eles se conheceram pois ele não falava alemão, era ruim pra caramba em inglês e gaguejando, uma brasileira riu e o auxiliou no pedido.

Bom, detalhes à parte. Eles se pegaram. O nome dela era Estela.

Estela Maris de Souza. Médica Veterinária. O que me lembro é que ela estava fazendo um curso não sei do que na Alemanha.

Daqui pra frente, irei relatar apenas o que foi contado em mesas de bares, após o término da relação dos dois. Tem mais colegas boêmios que podem confirmar ou complementar. Eu, assumindo o compromisso que tenho com o leitor desta obra, irei escrever apenas o que me lembro. Se faltar informação ou estiver desconexa, me perdoem!

Eles se envolveram. Por 120 dias, eles se viam todos os dias. Ela faltou muito das aulas (e claro do trabalho que ela fazia na tal faculdade onde estudava) e a viagem dele tornou-se mais interessante.

Eles bebendo uma Pilsen em plena Pilsen, na República Tcheca, cidade onde esse tipo de cerveja foi criado. Beijos e amassos no metrô de Estocolmo. Ambos encontraram uma balada germano-brasileira em Munique, onde os dois cantavam e ensinavam os “lemão” cantar Pavão Miisterioso de Ednardo, enfim, cada fotografia, cada estória, que fazia minhas lombrigas retorcerem a cada relato.

Um dia, ela precisava entrar em sala de aula, em Dresden, às 16h. Ela, recebia um valor da universidade aqui do Brasil para fazer esse curso. Só que os dois “adidos culturais” estavam passeando no Museu na Pinacoteca dos Mestres Antigos, um importante museu de arte da Alemanha, localizado em Dresden e instalado na ala Gottfried Semper do palácio Zwinger.

Passeando o cacete!

Essa foi a desculpa. Eles foram para uma balada na mesma rua, na noite anterior, e totalmente chapados, vide, cannabis, ácido, cervejas e outros objetos, eles alugaram um quarto de hotel ali mesmo e ficaram por ali. No dia seguinte, simplesmente “meteram o loco” e ficaram como um casal apaixonado, desses de novela, andando bebendo, namorando e claro, transando no referido local. E a Estela esqueceu do compromisso. Entre mentiras, desculpas esfarrapadas e mais “amassos”, ela faltou ao compromisso e emendaram dias e dias de baladas e rolês.

Cento e vinte dias passam rápido. Principalmente quando se está apaixonado!

Pronto!

Essa droga novamente! A Paixão!

Tão horrível quanto o vício em crack, essa doença, quando te pega, te destrói. E as cicatrizes posteriores, nunca cicatrizarão e jamais sararão.

Ele veio embora. Grana acabando, compromissos chegando. Era um simples advogado com “meia dúzia de aulinhas” e a licença sabática estava terminando. Ela ia ficar mais um mês e meio.

Despedida.

Noites apaixonadas. Noites alucinantes. Detalhes que não posso trair a confiança e contar. Mas que deixariam Nelson Rodrigues e Cazuza com inveja.

Na última noite juntos, pois ele partiria no voo das 13h do sábado, uma revelação: “Sabe, eu vim pra cá para fugir de uma série de cobranças no Brasil. Meu pai exige que eu me case e siga a vida, embora eu não more mais com ele. Minha mãe, neutra como sempre, fica em cima do muro. Eu tinha um noivo. Nojento, escroto. Amor de criança. Em uma decepção, o primeiro colo que encontrei, me entreguei. Sufocante. Eu só ia nos shows que ele queria, nos ‘churras com a galera’. Eu era um chaveiro. Um manequim para ele publicar nas redes sociais. Amor? Senti sim, com o primeiro namorado que me trocou. Com esse, eu fui deixando. Ele me agravada e eu me escorava nele. O sexo? Quando eu conseguia mentir ou melhor, beber muito a ponto de desmaiar, vomitar, ‘gorfar’, eu escapava. Outras vezes, era na ‘brodagem’. Um lsd ou chocolate com cogumelo uma hora antes, você fica com a pele sensível.

Depois de tudo acabar, eu me sentia um lixo. Um objeto. Mas sabe… Aqui eu estava apenas estudando, visitando lugares históricos. Uma turista reclusa, vivendo um sonho europeu. Mas naquele dia, eu te conheci… e desde o primeiro beijo, eu te amo. Sinto seu cheiro o dia todo, fico igual a uma prostituta viciada em crack na cracolância procurando por você. Não consigo mais ficar um minuto sem você Clodoaldo. Eu te amo e quero passar a vida toda com você.”

Eu abro um parêntese agora. Toda a vez que lembro do Clodô contando isso, eu choro.

Principalmente quando bebo rum! Aí me derreto em prantos. É a mais linda declaração de amor que ouvi na vida.

Clodô, amigo velho de guerra. Boêmio, pinguço e biscateiro, jamais ouviu esse tipo de confissão. Ele nos dizia, quase que toda a semana e, todo o ano, em 17 de fevereiro, independente do dia da semana, da condição do tempo, da condição climática, ele contava essa mesma estória. Com detalhes, com riqueza aliás, de detalhes. A estória dele levava duas, três, quatro horas. Aqui, é a lembrança apenas.

A reação de Clodoaldo de Camargo Ferreira foi ficar gelado. Ele disse que nesse momento sentiu o sangue gelar. Era como se veias, gordura, carne, ossos, pele estivessem se separado.

Como se cada célula do corpo dele estivesse passando por uma explosão de radiação nuclear (exagerei, pois já não estou em meu estado original de consciência), e depois tudo se encaixasse novamente.

Ele abraçou-a e o resto vocês sabem!

Não serei daqueles escritores piegas que descrevem com detalhes uma cena de sexo entre duas pessoas que se amam, se pegam. Isso é coisa de gente com problema de ereção. Vou respeitar sempre o olho de quem lê e a amizade de quem conta.

Correria.

Alegria.

No dia seguinte, com a pouca grana que ainda tinha, comprar uma aliança. Foram até a Catedral da Santíssima Trindade, uma charmosa igreja católica romana localizada em Altstadt, no coração de Dresden, embora ambos ateus confessos, mas nessa hora o que manda é o amor. Entraram. Igreja vazia. Ajoelharam um ao lado do outro. De mãos dadas. Juraram amor eterno. Eterno enquanto dure, que dure para sempre, já dizia o filósofo dos anos 90, Netinho de Paula e a Negritude Junior.

Catedral em Dresden

É preciso dar vazão aos sentimentos.

Hora do voo chegou. Despedida no aeroporto. Juras eternas.

Outra intervenção: eu já tive um amor na vida. Só que eu me despedia na rodoviária ou no metrô. Uma vez foi na porta do camburão. Outra na cama de hospital. Mas conto em outro momento. São os melhores poucos minutos que você pode sentir. Se existe algo além dos céus e terra, é isso.

Despedidas.

Partida.

Foram as 18h30 mais longas para Clodô. Para Estela não sei. Eu nunca a conheci.

Mensagens instantâneas, juras de amor.

Chegou em São Paulo. Um novo homem. Eu, Tilão, Paulinho e o Mostarda (apelido do Francisco Mostard de Oliveira, o único com carreira universitária do nosso grupo de amigos, os brejeiros) fomos recepcioná-lo no aeroporto. Era um novo homem. Geralmente, seria a velha rotina de sempre: Abraços, bar e boêmia.

Não!

Clodoaldo não desgrudava do celular. Áudios e mais áudios dizendo que havia chegado bem, que estava com saudades. Um coração laçado! Menos um solteiro na praça.

Realmente, nos dias e semanas que se arrastaram, um novo colega havia retornado da Europa. Quando ia para o bar conosco, 21h… 21h30 no máximo ele ia embora. Sem contar que, durante o “expediente” no boteco, ele ficava mandando fotos e mensagens para a namorada na Europa.

Trinta dias passaram lentamente. Mais 15 para dar 45 dias. Chegava o dia que a “amada” namorada de Clodoaldo chegaria ao Brasil. Ele havia programado tudo. Comprou móveis de sala novos. Um colchão de casal novo. Contratou uma faxineira que deu “uma garibada” na casa. Flores pela casa. Vinho novo. Variedade de queijos e frios. Seria uma recepção digna de cinema.

Ele estava lá no aeroporto. Dia 17 de fevereiro de 2013. Entre chegadas e partidas, os olhos brilhavam. A ansiedade aumentava. Ninguém chegava.

Mensagens não eram respondidas. Nunca foram. Ele chegou no aeroporto às 17h. Já passava da 1h da manhã do dia 18 de fevereiro. Sexta-feira. Já fazia 20 horas que Clodoaldo estava plantado no aeroporto esperando seu amor de viagem chegar. E ela não chegou.

Fomos chamados. Foi uma luta convencê-lo a ir pra casa. Conseguimos. Nenhuma lágrima caía. Nem precisava. O semblante já mostrava a “face da derrota” dele. Mensagens. E-mails. Ele chegou a viajar até a cidade dos pais dela. Encontrou a família. Conheceu pai, mãe, irmão e irmã de Estela. Conheceu o “noivo” que também esperava a “noiva” chegar. Quase deu “merda” esse encontro. Dois “cornos” apaixonados que levaram um “balão”.

Estavam todos desesperados. Exceto mãe e irmã. Com certeza, elas sabiam algo, mas vocês sabem como são as mulheres; elas são capazes de guardar um segredo no âmago da alma e levar para a sepultura.

Estela nunca retornou ao Brasil.

As notícias nunca chegaram a algumas pessoas.

Clodoaldo pensou em ir até Dresden atrás dela. Foram dias e madrugadas de convencimento para que isso não acontecesse.

Até hoje ele chora essa tristeza. Todo o dia 17 de fevereiro, no mesmo bar, na mesma mesa, a mesma cerveja, a mesma batida de limão, a mesma estória, a mesma lamentação. O mesmo whisky. A mesma dose.

“O que vai tomar, seo Crodoaldo?”

“Rivotril com gelo? Duplo on the rocks por favor!”

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