E, no entanto, meu coração era um jardim

Davi Deamatis
(Blogueiro convidado)

O domingo estava levemente frio e a brisa tocava com afeto o cabelo loiro de I., da universalmente linda I., que caminhava com aqueles passos macios, felizes, preenchendo o vazio do mundo com sua graça e seu perfume.

Comemorei: como é bom este domingo em que não terei mais nada que fazer senão pensar em I. E reviver uma amarga saudade feita de doce lembrança e larga distância.

Meu coração teve vontade de falar ao dela, mas não falou, não sei por quê! E de novo meu fogo me queima o corpo sem aquecer o dela. É nuvem estranha cobrindo o sol, lua morta, ou noite de fantasmas aterradores de afetos.

Um pecado capital também me paralisava: nunca lhe dera uma flor. E, no entanto, meu coração era um jardim; a boca, um oceano. Foi um desatino, um não sei quê que me fechou o peito e me afogou a voz e secou a língua. Por que, às vezes, a paixão se faz de monstro, senhora das tormentas?

Misturo os tempos. Esperanças e lamentos. Eles regam meu jardim (sim, ele não morreu). Quem sabe ainda possa ser feliz se dele eu fizer um paraíso para minha rainha?

Agora, meu coração sabe amar leve como o voo da borboleta. E com o beija-flor aprendi a beijar delicado e doce – e também frenético e prazeroso com o bico no seio da flor.

Enviarei a ela uma mensagem: venha ver a cor e o perfume de meu jardim e conhecer meu beijo em flor. E eu darei a você esse paraíso, com certidão vestida de carinho e escritura de irrevogável e pleno domínio, seladas com a mais singela e linda flor de meu jardim: A Flor do Amor.


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Davi Deamatis, jornalista há 40 anos, agora é um feliz brasileiro aposentado que vive de livros e de ilusões. Por isso escreve, não mais por obrigação, mas por prazer – e exercita-se: é pós-graduado em Língua Portuguesa e em Literatura Brasileira. Nas letras, diz que que está na adolescência (tempos em que sonhava ser poeta). E é feliz por novamente ouvir o canto da sereia, de quem ainda não ganhou o beijo. Nem sabe se ganhará. Mas vai em frente, mesmo diante do espanto de sua mãe que, já anjo, do céu o alerta: “cuidado, menino!”


Ilustração maior: tela de Blanche Hoschedé Monet, “O Jardim de Monet em Giverny” (1907)
Ilustração menor: Reinaldo Camargo

2 comentários em “E, no entanto, meu coração era um jardim

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