O fim está próximo…Soylent Green e o ano de 2022

FREDERICO MORIARTY – Harry Harrison foi um dos mais prolíficos escritores de ficção científica norte-americano. Make room. Make room!! ( Abram espaço, abram espaço!) foi publicado em 1966. Sete anos depois ganhou o Nebula de melhor roteiro adaptado para o cinema. Serviu para o filme Soylent Green de Robert Fleischer. Em Portugal o título virou ” Perto do fim”. Aqui no Brasil “2020, perto do fim”. Preguiça mental, afinal o pôster apresenta letras garrafais com o ano 2022!!

Sol se despede

No livro de 1966, o futuro acontece em 1999, numa inversão de datas semelhante a do clássico de George Orwell ( o livro 1984 foi lançado em 1948). O mundo atingira 7 bilhões de habitantes (número bem perto dos 6,5 bilhões reais), mais que o dobro de 1965. Nova York tem absurdos 30 milhões de pessoas. Na década de 50 a população dos países ricos ainda crescia razoavelmente. Das 10 maiores cidades do mundo, 9 estavam no ” Primeiro Mundo”. Nova York era a segunda, atrás apenas de Tóquio. É a partir dos anos 60 que temos a explosão demográfica nos países africanos, do sudeste asiático e em partes da América Latina. Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos freavam seu crescimento demográfico e Japão e Europa entravam na fase da regressão ou diminuição populacional. Em 2020, apenas Tóquio representava o ” Primeiro Mundo ” entre as 10 cidades mais populosas do mundo.

Reportagem de 2020 sobre o filme

Harris errou? Não! As histórias de ficção científica não são previsões esotêricas do futuro. São projeções de como pode ser nossa sociedade, nossa economia, nossa política, como será a evolução tecnológica e, principalmente, como a humanidade vai lidar com os dois lados de toda tecnologia. Raios X permitiram um grande avanço na medicina, mas possuem efeitos colaterais danosos; pesticidas levaram a produção de alimentos a escalas inimagináveis, entretanto nos deram os agrotóxicos; a energia nuclear ilumina cidades e explode japoneses. Além disso, há a questão do poder e riqueza produzidos pela ciência & tecnologia. Muitos dos novos ditadores usam jaleco branco e microscópios. Eliminam os desejos em nome da razão científica: infalível, incorruptível e inquestionável, como todos os deuses. Ficções científicas são espelhos muitos distorcidos de como poderá ser nosso futuro. Seu objetivo não é acertar o que virá, mas nós alertar de como ele poderá se constituir. São projeções quase sempre sombrias, porque o homem flerta com o apocalipse constantemente. São placas de contramão para que políticos, cientistas e empresas não nos triturem como carne podre e descartável no futuro.

A capa original nos EUA

Dessa forma, quanto menos procurarmos ” ah, ele errou nessa previsão “, mais perceberemos o recado implícito do escritor: com seus apelos ao não nos entregarmos de forma cega, acrítica e dogmática ao futuro algodão doce de políticos e cientistas. Nessa sentido a ficção científica nos brinda com obras maravilhosas como as de Isaac Asimov ( Eu, robô), Philip Dick ( Blade Runner), Arthur Clarke ( 2001), Aldous Huxley ( Admirável mundo novo), H.G.Wells ( Guerra dos mundos), George Orwell ( 1984), Frank Herbert ( Duna), George Lucas ( Star Wars), Ray Bradbury ( Fahrenheit 451) e Harrinson Harris. Ao contrário do que pregam os críticos literários, que a consideram sub-literatura.

sub-literatura ou preconceito?

E como é o futuro de Make room! Make room!! ? (Leia reportagem do Guardian aqui) A superpopulação levou a uma pressão absurda sobre os recursos naturais. Rios, mares e lagos estão contaminados. A água potável é uma raridade e caríssima. As ondas de calor e os solos esgotados levaram ao quase desaparecimento da agricultura e da vegetação na terra. Por consequência, o gado, sem água ou pasto, praticamente acabou. Nova York enfrenta temperaturas acima dos 35° o ano todo, por conta da falta de vegetação e do aquecimento global. A energia elétrica era quase inexistente. Ou seja, Harris imaginou a hecatombe ambiental que os cientistas dizem que pode ocorrer lá por 2066.

Soylent Green, a pastilha

E o que comem? Placas sintéticas a base de alga e plânctons, com cascas de lentilhas e soja. Daí o nome Soy, de soja; Lent de lentilhas e Green, por causa da cor verde dos plânctons. A crise ambiental e energética levou ao desastre econômico. 20 milhões de novaiorquinos vivem desempregados e na miséria. Num mundo assim, só a repressão policial brutal pode manter o mínimo de ordem.

o mundo dos ricos em 2022

Mas como tudo no capitalismo, existe uma elite minoritária que vivem em prédios-bunkers. São apartamentos amplos, luxuosos, com energia elétrica, água potável e aquecida, as tecnologias futuristas estão presentes. Existe ar condicionado para todos os lados. Tudo é mercadoria, basta você possuir muito dinheiro e viver no lado escuro da lua. Jovens e belas mulheres são oferecidas como parte da mobília dos apartamentos. São chamadas de ” forniture”. Temos os mercados do subterrâneos, onde um tomate custa US$ 50. Mas além disso há carne fresca, frutas, legumes, leite, doces de morango ( por US$ 300 o pote). A diferença é que esse paraíso silencioso, rico e higienizado não é conhecido pelos miseráveis. Eles desconhecem a sociedade dos ricos. Acreditam que não há desigualdade, pois todos vivem no caos e miséria.

a bela ” forniture” Leigh Taylor Yong

Vamos agora ao filme Soylent Green, in the year of 2022 de 1973. Um policial interpretado pelo canastrão Charlton Heston ( o ator de extrema direita que morreu presidindo a ” associação de armas dos EUA”) é convocado pelo xerife para desvendar um crime. Um empresário milionário com negócios com o governador de Nova York havia sido brutalmente assassinado. Estranhamente, ninguém viu e nada foi levado. Ao interrogar o gerente do prédio em que morava o morto e a sua forniture ( algo como utensílio doméstico de carne e osso), interpretada pela belíssima Leigh Taylor Yong ( Shirl), o detetive Thorn percebe que o figurão assassinado parecia saber o seu destino, inclusive afastando as duas possíveis testemunhas do local do crime. Na investigação, Thorn é auxiliado por Sol ( papel do veterano Edward G. Robinson). Sol é o depositário do passado, viveu no mundo ante-apocalíptico e por ser professor tem muito conhecimento acumulado, além de uma razoável biblioteca. No mundo do futuro as pessoas não lêem, não estudam. Thorn é um bronco. Aos poucos o policial vai desvendando o crime e conhecendo o outro mundo, o dos ricos. Claro, Thorn e Shirl se apaixonam. Na trama o detetive encontra dois livros de oceanografia e os entrega a Sol que tem uma revelação. Sol procura um conselho de sábias mulheres anciãs. Sua suspeita se confirma. Thorn vai parar num orfanato de centenas de crianças abandonadas. Um padre católico pode ser a chave para se descobrir o assassinato. Quando retorna ao fétido prédio em que mora, Thorn não encontra mais Sol. No mundo de Soylent Green, a eutanásia era estimulada pelo Estado. Sol estava cansado de viver naquele mundo cinza, caótico e de uma violência policial brutal. Além disso, sua descoberta colocara fim em.qualquer esperança. Sol morre assistindo imagens do passado dourado da terra.

detetive Thorn e Sol

Thorn não chega a tempo, revoltado segue as pistas deixadas por Sol. Não havia mais soja nem lentilhasNo estudo oceanográfico Sol encontra os oceanos e mares contaminados e sem vida. Algas, plânctons ,peixes não existem mais. Thorn ainda busca uma explicação ou uma confirmação de sua suspeita. Os caminhões-tratores utilizados para reprimir a população, agora carregavam os corpos para os tanques da Soylent Green Inc. Estava desvendado o assassinato, o milionário era um dos proprietários da empresa de pastilhas alimentares. O governador era seu sócio. Com a morte dos oceanos, a empresa passou a fabricar os tabletes com carne humana. Sentindo-se culpado, ele confessa tudo ao padre do orfanato. Isso era perigoso para os negócios.da empresa. Foi silenciado.O final tem o grito canastrão de Thorn, quase igual ao do Planeta dos Macacos.

A utensílio e o detetive em Soylent Green

A crítica da época detonou o filme. Um dos jornais comentou ” Que futuro horroroso. Inverossímel. E a democracia ?”. A democracia que perto de 2022 teve Trump, Netanyahu e Bolsonaro no poder. Canibalismo não seria estranho nos dias atuais. Outra crítica foi ao personagem Sol e a polêmica eutanásia. Num mundo em caos social e econômico, seria tão estranho autorizarmos o desejo de morrer? A eutanásia em Soylent Green seria uma dádiva. Falta só 1 ano para aquele futuro chegar e sabemos que o futuro previsto não estará nem perto daquilo. Mas a data próxima das ficções científicas é um artifício para prender o leitor. O futuro tem de ser tão próximo que nos atemoriza. 2001, uma odisseia colocava o futuro 33 anos depois. Blade Runner, 35 anos. Soylent Green colocou nosso desespero para 49 anos depois. Tão longe e tão perto. A hecatombe ambiental, as desigualdades crescentes, a violência cotidiana e o desalento com a vida, estão presentes. Não na dimensão do filme e do romance, mas no campo de visão de 2022.

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