Como destruir um relacionamento quase perfeito com uma pergunta

José Carlos Fineis

Raíssa era tão linda quanto insegura. Vivia a testar André, o namorado, com dúvidas que haviam se tornado como que um joguinho para o casal.

– E se eu fosse atropelada e tivesse que amputar as pernas, bem aqui, no alto das coxas: você ainda me amaria?

André Rodrigues, funcionário do serviço de água e esgoto, já estava acostumado com perguntas como essa. No começo, estranhou muito, mas depois percebeu que eram apenas perguntas, ainda que se referissem a possibilidades remotas – não de todo improváveis, porém remotas.

A resposta era sim, sempre sim. Ele ainda a amaria, com a mesma intensidade e dedicação, mesmo que fosse um tronco sem pernas.

Esqueci de dizer que a pergunta era feita sempre quando já estavam na cama, nus ou quase, nas preliminares. Raíssa se afastava de André, prendia-o pelos braços, fixava seus olhos nos dele e desferia a pergunta.

A resposta, em tom efusivo e apaixonado – nem preciso dizer –, era como que uma senha para que se agarrassem e se amassem com furor, e chegassem ao orgasmo e daí às estrelas.

Mas, no outro dia:

– E se eu ficasse doente, com alguma espécie de vírus contagioso, e você não pudesse nunca mais chegar perto de mim, muito menos transar? Você ainda me amaria?

– Sim. Fazer sexo com você é muito bom, mas não é tudo! Poderíamos conversar. Veríamos TV, ouviríamos música. Seríamos felizes do mesmo jeito.

E rolavam na cama.

– E se eu batesse o carro e ficasse só com a metade do rosto intacta; a outra metade sem carne, apenas osso? Você ainda me amaria, mesmo assim?

– Sim! Eu aprenderia a ver seu rosto por um novo ângulo e, com o tempo, o amor que sinto por você me ensinaria a enxergar sua beleza com outros olhos.

E assim por meses, sem falhar um dia.

– E se eu, sei lá, passasse a gostar de mulheres e obrigasse você a botar peruca, um vestido tubinho, meia-calça e desfilar de salto alto pra mim, você ainda me amaria?

– Sim, eu amaria! Eu me tornaria a namorada mais linda que você poderia ter, e passearíamos juntos pelo bairro, de mãos dadas, se você quisesse!

– E se eu proibisse você de beber café, cachaça, cerveja e obrigasse você a tomar só suco de cupuaçu com leite que você odeia, você ainda me amaria?

– Sim, sim! Por você, eu tomaria cupuaçu de manhã, à tarde, à noite, todos os dias de minha vida!

– E se…?

– Sim!

– E…?

– Sempre!

Amplificada – ao que tudo indica – pela experiência de muitos anos em uma cabine de telemarketing, a imaginação de Raíssa era incrivelmente fértil. Ela aprimorara um dom natural de inventar situações que seriam impensáveis para a maior parte das pessoas.

Um dia, porém, sem que esperasse, seu repertório se esgotou. Passou a manhã e a tarde a pensar em uma situação que colocasse à prova o amor de André, mas nada lhe ocorreu.

À noite, na cama, já envolvida pelos beijos e carícias do namorado, afligia-se porque não conseguia atinar em algo para testar-lhe a devoção. E André, sem perceber o drama da parceira, seguia tranquilo no ataque, pois dispunha de um estoque inesgotável de “sim”, habilidade para inventar declarações bonitas e, a bem da verdade, encarava aquilo como algo protocolar, uma mania sem maiores consequências de Raíssa. Não levava a sério as perguntas. Elas eram, para ele, algo assim como um ritual, um “abre-te, sésamo” que precisava pronunciar toda noite para fazer sexo com a namorada.

O casal já estava nu e Raíssa se desesperava. Mas, quando tudo parecia perdido, seu rosto se iluminou. Desvencilhou-se de André com dificuldade, sentou-se na cama de frente para ele e, com o ar triunfante de quem teve uma ideia verdadeiramente única e genial, perguntou:

– Digamos que eu e minha irmã Renata sofrêssemos um acidente, mas eu estava sem o cinto de segurança e ela com o cinto. Meu corpo foi destruído mas, por milagre, meu cérebro ficou intacto. Já a Rê, coitada, teve o corpo preservado, mas, com a batida, sacudiu a cabeça violentamente, sofreu uma hemorragia cerebral e seu cérebro apagou. No hospital, os médicos transplantaram meu cérebro para o corpo dela e…

– Mas, amor, não existe transplante de cérebro! – ousou um André impaciente.

– Não importa! É a hipótese que vale. André, responda com toda a sinceridade: se o meu cérebro, a minha consciência fosse transplantada para o corpo da minha irmã, você me amaria ainda assim?

André pressentiu um certo perigo, mas foi sincero:

– Sim, meu amor. Afinal, seria você em outro corpo, mas, ainda assim, seria você, que eu adoro.

– E você transaria comigo, mesmo não sendo mais o meu corpo, e sim o corpo da minha irmã?

Ele pensou um segundo.

– Acho que sim. Porque daí o corpo seria seu, não dela. E, de toda forma, se nós transássemos, seríamos eu e você, e não eu e a Renatinha.

Algo murchou em Raíssa. André também havia murchado.

Não fizeram amor naquela noite. Ele dormiu virado para a parede. Ela ficou até tarde absorta em pensamentos, os olhos perdidos na luz que um abajur pequeno projetava no teto. No dia seguinte, André saiu cedo, enquanto Raíssa dormia. Já na porta, ele ainda olhou com uma ponta de angústia para a namorada.

À noite, o rapaz foi recebido na sala. Raíssa estava contida. Gestos lentos e solenes. Palavras pronunciadas com certa teatralidade. Chamou-o para o quintal. Tinha um comunicado a fazer. E a má notícia era de que não havia a menor possibilidade de continuarem juntos, agora que ela sabia que ele desejava sua irmã.

André tentou argumentar, porém sem convicção. Algo também havia mudado dentro dele. A pergunta da noite anterior o fez pensar em Renata como nunca havia pensado – ao menos, não de forma consciente. Na verdade, o sorriso de Renatinha, seu jeito de olhar, sua voz, a leveza com que lidava com as situações mais difíceis sem perder o bom humor, não lhe saíram da cabeça durante o dia todo.

Depois daquela noite, tudo se precipitou e o que deveria ser apenas um fim se tornou um começo. Por um desses acasos incríveis que acontecem a todo instante, André e Renata se esbarraram no supermercado – ou na feira, não sei bem. Conversaram. Marcaram um encontro secreto. Raíssa não podia saber de nada. Trocaram um beijo num dos bancos da pracinha, protegidos dos olhares por arbustos de camélias. Apenas algumas semanas depois, foram morar juntos, numa casa antiga com jardim, em um bairro bem longe de tudo.

Passados alguns meses, já era possível perceber uma barriguinha proeminente sob os vestidos floridos que Renata costumava usar.

O bebê nasceu saudável, moreno e comprido como o pai. Os olhos meigos e alegres eram da mãe.

No cartório, o escrevente perguntou:

– Senhor André, qual o nome da criança?

– É este.

E passou para o funcionário um papel que trouxera na carteira, com o nome que Renata escrevera à mão.

– Só isso? Que curioso. É um nome bem antigo.

– É o nome do pai da minha mulher, já falecido. Resolvemos fazer uma homenagem pra ele.

– Não vai ter nome do meio?

– Não, é só esse mesmo. E o meu sobrenome, claro.

O escrevente colocou o papel sobre a mesa.

– Tem certeza de que leva acento?

– Minha mulher perguntou a uma amiga que é professora. Ela disse que sim.

O escrevente então digitou, com cuidado para não errar, o nome do filho de Renata e André Rodrigues: Nélson.


Ilustração:
Imagem de Jo-B do Pixabay

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