Somos feitos da mesma substância dos sonhos

FREDERICO MORIARTY 🗝 – Saíra de Limeira aos 15 anos. Cidade pequena na época, pouco maisde 90mil habitantes, 4 cinemas, 1 time de futebol, muitas ruas de terra e paralelepípedo, nenhuma biblioteca. Nada a fazer, senão esperar. Dali, meses depois de ser debutante, dei um salto para uma metrópole de quase 11 milhões de habitantes, muito asfalto, muita fumaça, muito medo, mas com 147 cinemas, 5 times de futebol e muitas, muitas bibliotecas.

SP em 1985

Era o ocaso da ditadura militar, ano de saques em supermercados.Mudamos eu e minha irmã em casa de meus tios na Aclimação. Eu viera jogar basquete no Sírio, então o mais tradicional time do país, campeão mundial em 79 e base da seleção brasileira. Dois meses antes dera meu primeiro beijo e logo depois o segundo, vindos de uma moça que era a melhor amiga da primeira. Esta, ao descobrir tudo pela boca de outra amiga, descobriu o perigo da traição, devidamente reafirmada pelo terceiro beijo de minha vida, recebido da segunda amiga. Beijos no quarteirão de baixo numa cidade pequena são muito arriscados.Terminei sem nenhum beijo e com três amigas que deixaram de lado as aparências e o bom comportamento e socaram-se em meio à calçada. O certo é que não me esqueço desses primeiros beijos. Intensos em minha imaginação. Voltei pra casa excitadíssimo, em cada uma das 3 experiências, com um gosto gostoso na boca. Enfurnei-me no quarto de baixo e escondido da casa dos meus pais, peguei uma grande almofada, suja e velha, e comecei e beijá-la ardentemente na ânsia de repetir o desejo da boca alheia. A lascívia de sentir os lábios em movimento como se fossem outras bocas. Pouco depois quebraram meu nariz em uma briga e passei dias sem beijar. Foi um vazio, uma solidão sem fim. O almofada velha sentiu-se rejeitada.

Voltemos a São Paulo. Adorava ir ao cinema, duas ou três vezes por semana, e a capital oferecia uma profusão de salas e filmes que a província me negava. Estava no Top Center ( existe até hoje) na Avenida Paulista. O filme era ” A tempestade” baseado na última peça de Shakespeare. Sentei-me sozinho como sempre e percebi um movimento estranho na sala. Soldados e bombeiros correndo por entre as cadeiras. Até que um senhor engravatado dirigiu-se à frente da tela e falou calmamente: “Gostaria que vocês saíssem devagar, pois recebemos uma ligação informando que tem uma bomba nesta sala”. Assim, em plena ditadura, pouco tempo após o atentado da Riocentro, na era da Guerra Fria; um primor de responsabilidade e formas corretas de expressão e informação. A sorte é que a sala estava meio vazia, pois a correria começou como uma boiada desgovernada. Quase todo mundo foi embora. Eu permaneci do lado de fora do shopping, esperando o prédio explodir.

Na história de Shakespeare, Próspero e sua filha Miranda são exilados numa ilha e contam com a ajuda de Calibã, o escravo torto e Ariel, o espírito dos ventos, águas e fogo, Ariel era um ser assexuado. E havia uma Ariel que estudava na mesma escola em que eu estava em São Paulo. Nem um pouco assexuada. A minha Ariel era de uma beleza rara. Possuía os cabelos loiros e encaracolados, daqueles que a gente tem vontade de se enforcar de tanto desejo. Eu era desengonçado. Conheci-a no dia em que pisei fortemente em seus pés.Quando fui pedir desculpas, vi aquele rosto assombrosamente terno à minha frente e nada falei. Engasguei-me com o espírito dos ventos. Ariel era branca, muito branca. Feita de um tecido fino, suave e mansos.Olhos castanhos bem escuros, fundos e distantes, como a vida. E o odor daquela divindade tropical era único. Ariel exalava um gosto de manhã, um pouco orvalho sobre as plantas adormecidas. Perdi-me apaixonado naquela moça, naquele sorriso que me perdoaria o pisão desastrado, certamente.Comecei a frequentar o corredor errado da escola, pois era o que levava até Ariel. Cruzava intencionalmente com seus passos, acreditando que ela nem perceberia a coincidência. às vezes ela sorria pra mim, às vezes me ignorava. Nara, uma grande amiga, morena sardenta e de olhos verdes, dava as indicações e regras: “Fala com ela, Voicek”. Um dia criei coragem. Recebi um sorriso, alguns segundos de atenção e um número de telefone que ela me deu não papelzinho cheiroso. Passei a ligar todos os dias para Ariel. Estava apaixonado. Ariel era paciente, me ouvia por horas.

Ah, o beijo em Ariel – quando viesse -, valeria, pois os três primeiros foram sem amor, sem paixão, só a carne vibrante e excitada. Daria em Ariel o beijo libertador que me livraria de qualquer praga da existência infeliz. Nara insistia: ” Para de ficar ligando e dá o beijo logo”. Um dia resolvi seguir os conselhos da amiga. Sentamos numa arquibancada. Era o intervalo.Não havia muito gente. Eu ali, encostado naquele cheiro de manhã, friccionando sorrateiramente minhas pernas à dela. Uma conversa que não progredia, uma insegurança tremenda, um frio na barriga, na espinha, uma mão gelada e um olhar calado para aqueles olhos fundos e castanhos de Ariel. Não sei o que dá na gente, a coragem veio, peguei em suas mãos, fuzilei-a com o olhar apaixonado e fui aproximando minha boca à de Ariel. Que gosto teria aquela boca? Seria divino. Cada vez mais perto, o calor tomando conta de meu corpo, o cheiro se aproximando e pronto, ela virou o rosto propositalmente e beijei-lhe a face. O amor me foi negado. Nara me consolou ao sair da aula. ” É Assim mesmo Voicek, a vida é absurda. Ela te falou alguma coisa? “. Não, respondi a Nara. Foi só o silêncio. O mudo silêncio do desprezo. Depois daquele dia não tiveram mais os sorrisos, não houveram mais os telefonemas, pois ela sempre se dizia ocupada. Ariel era assexuada não para o mundo, mas para mim. Meu desejo foi tratado como lixo. Ariel sorria pra mim, mas agora de sarcasmo. Ariel virou cinzas no ar e dilacerou meu coração.

Ariel and Caliban.” pintura de William Bell Scott

Voltemos ao cinema. Esperei cerca de uma hora em frente a sala de cinema. Nenhuma bomba, era alarme falso. A vida é como o sonho de Ariel que fala em certa altura da peça e do filme ” somos feitos da mesma substância dos sonhos”. Minha Ariel era da mesma substância da morte. O ano passou, deixei São Paulo, voltei à província derrotado em tudo, sem a ajuda de Nara e sem nunca conhecer os beijos de Ariel.Virar à esquerda

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