Carta à M.

Davi Deamatis
(Blogueiro convidado)

Vou confessar, M.: sobrevivi ao inverno.

E eu, que já me achava à porta do céu, fui salvo pelo meu anjo da guarda. Em vez de me pôr em órbita celeste, arrancou ele o brilho de duas estrelas e o deu aos meus olhos para que eu tornasse a ver o brilho dos seus; e abriu os meus ouvidos para que eu voltasse a escutar o sopro harmônico de sua voz. E mais: as lágrimas me irrigaram o corpo, umedeceram-me o coração e a língua. É um milagre acontecendo em mim, a flor de novo enfeitado o galho da planta cuja vida andava se ressacando.

M., eu queria lhe dizer tudo isso com palavras cheias de formosura, dotadas de beleza e brilho como de uma rara joia. Joia – palavra tão pequenininha e tão cheia de riquezas! Mas, para escrever desse modo, eu teria de ter sido ungido pelo engenho e arte de Camões; entretanto, devo reconhecer, M., que se de um lado não recebi essa unção, de outro ganhei um coração mágico, louco, capaz de voar nas nuvens da paixão e de escrever pedra em vez de joia. Pedra – palavra dura, mas cheia de poções minerais que sustentam o Palácio onde reina o Amor.

Esse sentimento é um bem de raiz, de tempos vividos, vivos, vívidos e redivivos! Vida que se renova como folhas que depois da queda outonal, novamente se alçam à luz na primavera. Leis da natureza, ciclos de vida que, no momento certo, aproximam nossas almas.

São forças mutantes que, como valsa, nos convidam a bailar no Palácio.

Dá-me a honra, M.?


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Davi Deamatis, jornalista há 40 anos, agora é um feliz brasileiro aposentado que vive de livros e de ilusões. Por isso escreve, não mais por obrigação, mas por prazer – e exercita-se: é pós-graduado em Língua Portuguesa e em Literatura Brasileira. Nas letras, diz que que está na adolescência (tempos em que sonhava ser poeta). E é feliz por novamente ouvir o canto da sereia, de quem ainda não ganhou o beijo. Nem sabe se ganhará. Mas vai em frente, mesmo diante do espanto de sua mãe que, já anjo, do céu o alerta: “cuidado, menino!”


Ilustração maior: “A Leitura”, de Julius Leblanc (1884)
Ilustração menor: Reinaldo Camargo

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