Ano 1000, Ano 2020

FREDERICO MORIARTY

” O primeiro anjo tocou. Saraiva e fogo, misturados com sangue, foram lançados à terra; e queimou-se uma terça parte da terra, uma terça parte das árvores e toda erva verde… O segundo anjo tocou. Caiu então no mar como que grande montanha, ardendo em fogo, e transformou-se em fogo uma terça parte das criaturas que estavam no mar e pereceu uma terça parte dos navios.”

(Apocalipse 8, 7-9)

Com a Pandemia e a Crise Ambiental, para a sociedade cristã, o milenarismo volta à ativa. Será que há mil anos o mundo também esperava temeroso o cabalístico ano 1000, ou o ano de 999 teria sido um ano como outro qualquer? A História deve ser escrita para ajudar os contemporâneos a entender seus medos, ou para provar-nos que o fim está próximo? Entender um pouco mais sobre a Idade Média é fundamental para percebermos quais os medos que afligiam nossos antepassados e encontrar, nestes, não as semelhanças, mas aquilo que nos distingue. Ao apreender o passado, aprendemos sobre o presente.

O Ano Mil situa-se na transição da Alta Idade Média para a Idade Média Central, ou seja, no meio das profundas transformações que darão origem à crise do feudalismo clássico e à permanência do predomínio da igreja cristã. Aparentemente, essa data viria associada ao fortalecimento do milenarismo, entendido aqui como: a espera de um paraíso terrestre reencontrado, estritamente ligado, portanto, à ideia de uma Idade de Ouro perdida. Cabe comentar duas coisas: primeiro, a de que o milenarismo é universal, ou seja, diversas culturas em períodos distintos tiveram seus mitos e crenças milenaristas; segundo, a de que o Ano Mil não encerrou um período de calamidades ao qual se seguiria a Idade de Ouro reencontrada; e por último, relacionado aos anteriores: o milenarismo passa também pelos mil anos de destruição para chegarmos aos mil anos de felicidade.

Para a maioria dos historiadores, a Idade Média vai do século IV até o XV. Esse longo período pode ser dividido em quatro fases: 1ª) Primeira Idade Média (final do século IV até meados do séc. VIII): é a fase da transição da Idade Antiga para os tempos medievais. Nela encontramos os três elementos primordiais da época, os romanos e suas instituições; os germanos e as suas relações hierárquicas e de obediência mútua e a Igreja cristã e seu universalismo; 2ª) Alta Idade Média (sécs. VIII a X): trata-se da fase em que ocorreu a unidade ilusória do Império carolíngio e o apogeu do Feudalismo clássico, também em que nasceram as futuras transformações da fase seguinte; 3ª) Idade Média Central (sécs. X a XIII): é o auge da Cristandade ocidental e suas três ordens sociais, os oratore (clero), os bellatore (nobreza) e os laboratore (servos). Tempos do renascimento urbano e comercial e das Cruzadas; 4ª) Baixa Idade Média (sécs. XIV e XV): a transição feudo-burguesa e o predomínio capitalista.

No período próximo ao Ano Mil, e no posterior também, a miséria e a fome eram comuns na sociedade. A baixa produção agropecuária (só ocorreria uma revolução produtiva a partir do século XI), associada à incapacidade e à ignorância de se preparar materialmente para enfrentar os grandes fenômenos meteorológicos e às diversas pragas que atingem o campo, faziam a maior parte das pessoas viverem de forma precária, a ponto de relatos de época falarem de “homens comendo excrementos uns dos outros”.

Esses acontecimentos eram naturais ao período, não havendo nada de anormal ou que prenunciasse o “fim dos tempos”. Comparando-se à fome e à miséria, à peste e à destruição ambiental dos tempos atuais, percebemos uma clara distinção na questão da solidariedade. A sociedade feudal, apesar de extremamente hierárquica e rígida, possuía uma imensa teia de relações solidárias. A nossa sociedade capitalista incentiva o individualismo, impelindo as pessoas à solidão ativa (o “duíte iórsélfi”, ou faça você mesmo) ou passiva. A pandemia da Covid 19 parece ter reafirmado esse isolamento e solidão, disfarçados na necessidade de isolamento e distanciamento social.

Interessante notar, que no século XIX, o filósofo e historiador Alexis de Tocqueville ressaltava, em seu livro A democracia na América, que um dos fatores que levariam os Estados Unidos à hegemonia mundial, seriam as suas democráticas redes de auxílio e solidariedade.

O mundo fechado medieval assistiu a uma expansão demográfica a partir do final século X. Uma grande massa de homens jovens ficou sem terras. Migrando pelas ruas e vilarejos, esses jovens reuniam-se em grupos e praticavam toda espécie de crime. Entre eles estava o estupro das moças (numa sociedade de homens, isso era tratado como normal). Ao contrário do que vemos nos filmes adocicados ou nos romances de cavalaria, os combates medievais eram verdadeiras batalhas campais, onde a carnificina era a regra. As guerras também repetiam-se, longas (como a da Guerra dos Cem Anos no século XIV) ou não. O cidadão medieval, como nós, sentia-se numa sociedade profundamente violenta. As diferenças estariam na dimensão numérica das vítimas (hoje contamos em milhares e milhões de mortos, desnudando uma banalização maior da vida) e na sofisticação das armas de extermínio (ver apêndice sobre a Guerra do Kosovo). As grandes nações formaram-se no contato com outros povos, com a diferença. Assim, o apogeu do Império Romano deu-se quando todo o mundo mediterrãneo estava em suas mãos e “todas as estradas desembocavam em Roma”. O mesmo aconteceu com a Idade Média, sua formação ocorreu do contato entre romanos e germanos e o auge do feudalismo aconteceu após as invasões normandas dos séculos VIII, quando o contato entre diversas civilizações e o intercâmbio entre elas deram origem às novas ideias e instituições. Mas o outro também atemorizava e as palavras denunciavam isto: a palavra gótico, o símbolo da arte medieval, vem de mesmo radical de bárbaro. Devemos nos preocupar então com a separação e a segregação que as sociedades contemporâneas vêm fazendo com o outro, o diferente. Seja esta separação feita pelas barreiras policiais, as quais impedem a entrada de imigrantes latinos nos Estados Unidos; ou com o recrudescimento do xenofobismo e do neonazismo na Europa, ou ainda com os condomínios fechados e os bairros isolados das grandes cidades brasileiras, verdadeiras fortalezas medievais.

Os imperadores Oto II (973-983) e Oto III, seu filho (995-1002), tentaram resgatar a unidade do Império Romano. Por meio do Santo Império Romano-Germânico, selou-se uma breve aliança entre os poderes político e eclesiástico, terminada no século seguinte, quando a Cristandade ocidental passou a exercer, solitariamente, o poder. O jovem Oto III (tornou-se imperador aos 15 anos) colocou seu mestre no Vaticano, o sábio e matemático Gerberto. Adotando o nome de Silvestre II, em homenagem ao Papa santo do século IV (cujo pontificado ocorreu durante o período de Constantino, quando o Império Romano declara o cristianismo como religião oficial do Estado), Gerberto era aficcionado por números (como boa parte dos homens medievais), escrevendo livros como Regras e cálculos para ábaco, ou ainda desenvolvendo relógios de água, a clepsidra. A Europa medieval era assolada por doenças, epidemias e endemias. Nenhuma novidade então, em uma peste que atingisse o Ano Mil (não houve nenhuma nesse ano ou no anterior). Muitos têm associado a Covid 19 com a grande “Peste Negra” que atingiu a Europa no século XIV (e não no Ano Mil), matando cerca de um terço da população europeia.

Num continente sem condições mínimas de higiene e precário atendimento sanitário, além de dominado pelas crendices e, quase ignorante a respeito da ciência e a mil anos de distância das vacinas e antibióticos, qualquer doença virava uma praga, ou mesmo uma “mão punitiva” de Deus aos pecados dos homens. Porém, o isolamento, o preconceito e a demonização eram muito mais fortes e comuns na época em relação à hanseníase (com seu doente, pejorativamente conhecido como leproso ou lazarento, assim como tratar um doente como aidético, é uma forma atual de menosprezar uma pessoa contaminada pelo HIV).

Hoje, temos a ciência bem desenvolvida e condições sanitárias bem mais adequadas que na época (a expectativa de vida dobrou na Europa nos últimos 90 anos, passando de 38 anos em 1900 para 78 anos em 2020; em alguns países como a Alemanha a expectativa de vida média já se aproxima de 86 anos), porém não democratizamos o acesso a essas vantagens, pois a maioria da população mundial ainda convive com epidemias, endemias e doenças desaparecidas há muitos anos das nações desenvolvidas. A evolução das vacinas foi tremenda. Entre a sua descoberta nos fins do século XVIII por Jensen, sua massificação com os estudos de Koch e Pasteur e as atuais vacinas para a Covid 19, desenvolvidas em menos de um ano, o mundo assistiu rapidamente ao desaparecimento de diversas doenças e pragas. Mas a desigualdade persiste: na Pandemia atual temos Estados Unidos, Japão e Europa Ocidental imunizando mais de 70% da população em 6 meses de vacina contra a Covid 19. Países pequenos como Austrália, Nova Zelândia e Canadá passam de 90% dos cidadãos vacinados. Enquanto isso a América Latina corre para atingir imunização de 30% de seus habitantes. No continente africano a imunização não atingiu 2% dos moradores. Alguns países pobres sequer iniciaram a aplicação das vacinas.

Para muitos historiadores, a distinção entre os tempos medievais e os nosso dias está na percepção do invisível. Para aqueles, o invisível e o transcendente estão presentes e regem a vida dos homens. O “dedo de Deus” controla todos os atos humanos, sendo a morte muito menos temerosa do que o que viria depois: o céu ou o inferno? Assim, para o homem medieval, assitíamos aqui na Terra a uma luta constante entre o Bem e o Mal, numa clara oposição maniqueísta (Maniqueu foi um herege que elaborou o pensamento de que o Diabo era um Deus do Mal; portanto, os homens eram disputados por dois Deuses, o Bom contra o Mau). As visões apocalípticas ( literalmente, apocalipse quer dizer revelação) são repletas de sinais, milagres e fenômenos meteorológicos, geológicos e siderais, demonstrando a presença do invisível no mundo, mas também da ignorância científica dessa sociedade.

Caso você nascesse no dia 25 de dezembro, quando faria um ano? Seu centésimo aniversário aconteceria na mesma data, não é? Suponhamos que você tenha sido um mito da História e todos irão celebrar seu milésimo aniversário, que dia iríamos comemorar seu primeiro milênio de existência? Então seu segundo milênio se daria no dia 25 de dezembro, exatos 2000 anos após. A Igreja Católica, preocupada com a perfeição celeste e também com o cálculo exato da Páscoa sagrada, possuiu uma fixação e muita intransigência por números e datas. A pedido do papa João I, o matemático Dionísio, o pequeno, definiu em 525 d.C., a data da circuncisão de Cristo como o primeiro dia do ano. Como esta ocorreu oito dias após o nascimento, o Primeiro dia do mês de Janeiro passou a ser contabilizado como o início do ano (o que demorou muitos séculos para ser aceito em todo o mundo cristão). Para a Igreja Católica, o ano do nascimento de Cristo também foi definido como Ano Domini e não Ano Domini Zero, ou seja, nunca houve ano zero para a terminologia cristã (até porque, ao contrário dos sábios e matemáticos árabes que conheciam o zero e os padrões decimais e sexagemais, os romanos não possuíam zero em seus algarismos). Isto quer dizer que, você deveria ter comprado três garrafas de champanha para comemorar a virada do 2º milênio do nascimento de Cristo. A primeira ao final do ano de 1999 (e comemoraria os dois mil anos, um ano antes de Cristo os ter); a segunda deixe para 25 de dezembro de 2000 (na data do nascimento) e a última na data correta, ou seja, às 24h do dia 31 de dezembro de 2000 (lembrando-se também que até o século XIX, o dia terminava ao meio-dia e não à meia-noite).

Percebemos então que o mundo medieval não enxergava o Ano Mil como um ano especial, ou “o ́fim dos tempos “, muito menos como o início dos “Mil anos de prosperidade “.

Existiram movimentos milenaristas próximos ao ano Mil ou logo a seguir, a Europa foi atacada por Pestes, Fomes, Guerras e invasões, mas a maior parte delas foi causada pela completa falta de meios, pela total ignorância das soluções, ou ainda pelo erro dos homens. Mais do que isso, vimos também que esses acontecimentos faziam parte das estruturas e do contexto histórico medieval. Assim, ao refletir sobre o Ano Dois Mil e Vinte, devemos estar atentos para isso e perceber que o homem, com sua imaturidade e ignorância, além de suas tecnologias de destruição em massa (ou vocês acreditam que a “paz armada” irá durar para sempre?), com a destruição crescente da natureza, além do Aquecimento Global ser considerado hoje como inexorável, é que podem pôr tudo a perder. Muitos cientistas consideram que a Pandemia da Covid 19, mais letal desde a Gripe Espanhola de 1918, não é a primeira nem será a última que a humanidade terá de enfrentar. Apocalípticos à parte, ainda estamos longe de atingir os ideias de 1789. Precisaremos de mais igualdade, muita liberdade e algo quase extinto, a solidariedade. Do contrário, arderemos em nossas próprias chamas.

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