A caneta perdida

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – Eram os tempos do AI-5, quando a situação não era nada fácil no Brasil para os comunistas.
Saulo Aurélio morava numa rua do centro de Sorocaba. Um dia, na esquina, veio morar um homem com jeito de agente da polícia e Saulo Aurélio ficou com medo. Não tinha feito nada errado, não cometera nenhum crime, não era militante político. Era funcionário público de bem com a vida, gente boa, cumpria as suas obrigações em dia e frequentava a missa todos os domingos. O problema era que tinha amigos comunistas e isso podia ser extraordinário fator de complicação naqueles tempos sombrios.
Ele tinha tanto medo do homem da esquina que perdia o sono nas madrugadas só de imaginar que ele teria a missão de vigiá-lo. Quando passava por ele na rua, mudava de calçada. A sensação de que o homem se instalara ali para persegui-lo era horrorosa. Vejam o nível da paranoia. Podia ter esclarecido a dúvida com uma rápida investigação, mas cadê coragem? Achava que qualquer pergunta que fizesse poderia expor uma culpa imaginária.
A situação se agravou no dia em que Vitor Trigo, um dos amigos comunistas, chegou em sua casa com caixas de livros de Marx, Lênin, Engels, os pais do comunismo. Em meio aos volumes também havia obras anarquistas de Proudhon, Malatesta, Bakunin. Saulo Aurélio ficou gelado. Tentou recusar o pedido, mas o que não se faz por um amigo?
Muitos desses livros eram remanescentes de uma livraria que teve o estoque danificado pela água durante o combate ao incêndio do edifício Andraus, em São Paulo. Um sorocabano chamado Álvaro Vale, que na época era estudante na capital e morava próximo ao local do incêndio, aproveitou uma liquidação feita pela livraria após o incêndio e trazia bolsas cheias desses livros para Sorocaba. E os distribuía aos comunistas.
Imaginem o risco que Álvaro Vale corria com o transporte desse material subversivo. E a maioria dos livros era destinada à biblioteca do amigo Vitor Trigo. Os volumes eram usados em estudos de marxismo, anarquismo e outros ismos dos tempos das utopias.
Acontece que Vitor Trigo foi preso dias depois de deixar as caixas de livros aos cuidados de Saulo Aurélio. A partir dessa prisão estavam em risco ele, Saulo Aurélio, que ficou responsável pela guarda dos livros; Álvaro Vale, que transportou o material de São Paulo para Sorocaba; além do grupo que queimava as pestanas nos estudos de marxismo. E o que era preocupação virou desespero.
Imediatamente, Saulo Aurélio pegou todos os livros, lotou o seu Fusca com todo o material e enveredou pelo caminho da avenida Itavuvu para descartar os “perigosos” livros às margens do rio Sorocaba. E fez isso à noite, protegido pelo escuro e tendo só a Lua como testemunha.
Ao retornar para casa, no mesmo instante em que comemorava a sensação de alívio, teve um sobressalto quando notou a falta da caneta que tinha o hábito de levar no bolso da camisa. Era um presente da avó, que marcara a formatura no curso de biologia. E era uma caneta personalizada com seu nome gravado. E ele a deixou cair do bolso na hora de descartar os livros.
Entrou em pânico. Estava perdido. Imaginou-se preso, torturado, condenado a vários anos de cadeia por subversão.
Trêmulo, correu com o Fusca de volta às margens do rio Sorocaba, a mil por hora, na busca desesperada pela caneta perdida.
Essa história foi contada muitos anos depois por Álvaro Vale.
Um dia desses, por força do acaso, reencontrei Saulo Aurélio numa festa de casamento comunitário. Aos risos, recordamos a trapalhada que o levou a perder a caneta. E perguntei se a encontrou.
— Com certeza — ele disse. — Senão, apavorado, eu nem conseguiria dormir depois.

• Assim como “O Churrasco Milionário”, esta crônica também foi inspirada nas histórias contadas verbalmente pelo saudoso Adalberto Vieira, o Pardal, que nos deixou em maio deste ano.

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