Tu és um Bocó de Molas Cuspido e Escarrado

FREDERICO MORIARTY – Provérbios existem desde que há o verbo. Quase sempre vemos o provérbio constituído de uma frase com metáforas e a conclusão meio didática, meio imperativa. Como tudo na língua o provérbio é vivo. Muta-se, transmuta-se ao gosto do tempo e lugar. “Cuspido e escarrado”, além de famoso, sempre é citado como um provérbio com erro na sua constituição. Cuspido já soa estranho. Imagina só a gente virar pra mamãe ou o papai ( fitando o bebê do casal) e afirmar que o rebento é a cara dos pais comparando-o a uma sonora cusparada. No mínimo é nojento. Mas a coisa piora, ganha um sinal de escatologia. Além de cuspido, a semelhança é tão grande, que parece um escarro. Sim, amigos, aquela gosma podre, doentia, de cor desprezível, é uma prova da filiação sem necessitar de DNA. Não tem como não lembrar dos dois tercetos do soneto “Versos Íntimos” de Augusto dos Anjos.

(…)Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!”


Me perdoem os belos versos, mas nem cuspido, muito menos escarrado. Outra tradição diz que o provérbio é ” Esculpido em Carrara “. Esculpir é o ato de transformar o concreto ( uma rocha, um cobre) em abstrato ( a arte). A rocha bruta vira serpente, sinuosa e ágil. Michelangelo esculpiu uma pedra de quase 6m. Foi modelando o grosso material numa cópia de verossimilhança e beleza de David.

Existe também a Catedral de Santo André na região da Toscana ( que por aqui dá nome a uma saborosa pizza). Inteirinha trabalhada e esculpida em mármore. Branco como a neve, leve como uma pluma. Reproduzindo talvez a sublimação divina. Tanto a escultura – encomendada por Florença a Michelangelo – , quanto a Igreja buscaram seu mármore no morro de São Sagro, na pequena cidade de Carrara, que há mais de 2000 anos fornece o mais puro e resistente material branco das divinas obras humanas.

Então, seria isso: uma filha (o) que é tão parecido e de uma beleza tão divina que só pode ter sido Esculpido com o mármore de Carrara. Uma herdeira tão bela quanto a obra do renascentista. Bonito, mas não é essa a versão aceita pelos estudiosos do assunto. O correto seria ” Cuspido e Encarnado”. O líquido saído da saliva tem sua simbologia ligada aos fluidos corporais. Dizem que para os antigos é algo que alude ao sêmen. Mas daí eu me pergunto: o que o cuspe tem de semelhante ao sêmen? Duvido que um antigo ancião olhou para o chão numa tarde fria e apontou para um cuspe e disse: nossa, é igual ao sêmen! Talvez porque o homem antigo acreditasse que no liquido reprodutivo havia um hóminho ou uma mulherzinha em miniatura. Até aí, ver o mesmo homúnculo no cuspe é impensável. A ideia ainda completa com o Encarnado. Coisa mais terrível. O líquido ficou vermelho e cheio de carne. Parece, em verdade, saído daqueles filmes de terror ” o cuspe encarnado: o massacre dos deuses”.

Em resumo, esse provérbio é inútil, nem ensinamento tem. Ah, o filho é a cara do pai. E nos perguntamos: E daí? Temos até um presidente que por falta de verbo e decência denomina os descendentes por números !zero um, zero dois…”. Intragável, com ou sem escarro. Fico mais com as frases populares: filho de peixe, peixinho é; tal pai, tal filho; xeróquis e chaveirinho. A língua é viva e não precisa ser chata.

Como no caso da frase popular e não provérbio “bocó de molas”. Resolvi pesquisar a origem em algo muito ultrapassado, um tal de livro. Câmara Cascudo, potiguar da gema, homem feliz que passou a vida escrevendo – deitado em sua rede -, sobre folclore e cultura popular (rejeitado pelas academias por ter sido “de direita”), nos dá conta das origens do bocó. Nas caçadas, os homens levavam uma bolsa a tiracolo para carregar pequenas coisas. Era feita de tripa de bode ou couro de tatu. A questão era: a boceta de viagem não tinha tampa, de modos que vivia aberta. Perdia-se muita coisa pelo caminho, por conta da boceta aberta. Surgiu o bocó. Pessoa apalermada, infantil, meio abestalhada, que diz o que pensa, em geral baboseiras.

Mas e as molas? Nos anos 40 o engenheiro Richard James e sua esposa Betty James inventaram um brinquedo de mola helicoidal ( eu nunca tive). Slinky em inglês. Ficaram ricos. Diz a lenda popular que Richard trabalhava na marinha e um dia ao ver a mola cair e ficar pulando de lado a lado, sem parar, teve a ideia. Completou o dito popular: bocó é o infantil; de molas pq o apalermado não para jamais de dizer estultices. Chamar alguém de bocó de molas podia terminar em morte. Richard ficou doido, virou evangélico, não tornou-se pastor nem deputado, foi é morar na selva boliviana e morreu numa seita esotérica. Betty tocou o negócio, criou o cachorro de molas, o olho saltado que fez ponta no Toy Story. Agora só não me perguntem sobre “Afogar o ganso”, a história faria corar nossos deputados pastores e tornaria Damares uma paladina da moral e dos bons costumes, devidamente vestida de rosa.

(Imagem de Capa: sisters of charity raffaelle monti)

2 comentários em “Tu és um Bocó de Molas Cuspido e Escarrado

Adicione o seu

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: