Queimem Borba Gato, Anhanguera e asseclas

FREDERICO MORIARTY – “A história é um velho museu abandonado, todavia vivo e pulsante. As janelas estão quebradas e há frestas por todos os cantos, vítimas da passagem inexorável dos dias e estações. Então, vez ou outra, o vento — gélido ou cálido —, as chuvas — torrenciais ou intermitentes —, penetram nos aposentos e nos confundem a mente com as notícias do presente. Adentramos a este museu e passaremos acelerados por seus corredores. Estes nos levam a imensos salões de bailes em que apenas poderemos observar as danças de época e não entender corretamente os pretéritos jogos de cena, as disputas de honrarias. Subiremos as escadas e entraremos nos quartos proibidos, nas alcovas de outrora, perdendo detalhes e sussurros pela imensidão de imagens e a confusão produzida pelos ausentes. Entretanto, encontraremos nessa estrutura carcomida, nas descascadas pinturas de paredes, a vida que existiu um dia, as necessidades pertences daqueles atores. Nunca exatamente como a encenaram, mas por dentro de suas personas, como nem eles mesmos a viam ou aceitavam.” (MILANI, Martinho C., Percival Farqhuar, um homem sem nenhum caráter. Tese de Doutorado. USP. 2017)

Uma das fontes que nos permitem reconstruir a História são os patrimônios. Patrimônio vem do latim patrimonium, que nada mais era do que a discriminação dos bens imóveis deixados pelo pater-familias, o aristocrata e líder da sociedade romana antiga. A palavra “patrimônio histórico” ganhou contornos maiores, passando a significar todo o legado deixado por um líder político ou religioso do passado. De fato, o interesse pela preservação de bens valiosos ou antigos é imemorial. O cuidado preservacionista de edificações importantes como templos e palácios, a cunhagem de medalhas e moedas comemorativas, a ereção de monumentos, a criação de pinturas e estátuas de governantes e personagens notáveis, a formação de bibliotecas e coleções de objetos preciosos ou raros, todas essas atividades de uma maneira ou outra tinham entre seus objetivos, desde a Antiguidade, legitimar e perenizar ações, conhecimentos, acontecimentos, lugares ou coisas, bem como a memória de pessoas, considerados relevantes para uma sociedade ou para determinados grupos sociais. Os imperadores romanos possuíam o direito ao Apoteose, qual seja, o de tornaram-se Deus após a morte, com direito a templo e adoração. Prefeitos, vereadores, governadores, deputados e presidentes adoram levantar bustos em sua própria homenagem para que pombos da posteridade possam desnudar o verdadeiro valor daqueles. Entretanto, museus, palácios, catedrais e alguns monumentos são fontes inesgotáveis de estudo.

Jardins Suspensos da Babilônia. Fonte: aventuras na história

O conceito de Patrimônio Histórico evoluiu, assim como a história é constantemente reescrita. Hoje, aceita-se a ideia de Patrimônio Social, Estético, Arquitetônico, Ambiental e mesmo o conceito de Patrimônio Imaterial. Assim, tanto as medalhas do Cruzeiro do Sul, passando pela estátua de Ayrton Senna e terminando com o reconhecimento da capoeira como patrimônio imaterial da cultura brasileira, todos podem ser tratados como exemplos do Patrimônio. Por meio do Patrimônio, nos apropriamos de uma parte da história.

Os faraós erguiam pirâmides, estátuas e templos para serem adorados. Os cristãos, catedrais. O Egito helenístico criou os museus. Os Europeus e depois os norte-americanos pilharam o patrimônio artístico, cultural e histórico de diversos povos para abarrotar os museus do “1° mundo” da riqueza que não lhes pertence. Entre os estudiosos, há duas formas de se estudar um patrimônio: a primeira seria, quem a produziu? A segunda, em qual época foi produzida? Em geral, na Antiguidade, esses dois elementos se confundiam: os Jardins Suspensos da Babilônia foram erguidos entre os sécs. IX a VI a.C., ostentavam a riqueza e o poder dos povos mesopotâmicos, além, é claro, de os proteger de invasões estrangeiras. Monumentos, como a Estátua da Liberdade em Nova York, remetem a um passado, supostamente grandioso de uma civilização. Assim, os franceses presentearam os norte-americanos no final do séc. XIX com o símbolo iluminista e ao mesmo tempo para valorizar os ideais da independência dos Estados Unidos. Como se a Estátua da Liberdade dissesse: “1776 é o Iluminismo em ação.” Nesse último exemplo, cabe ao historiador estudar três temas: o Iluminismo, a independência dos EUA e o porquê do presente francês no fim do séc. XIX.

Estátua da Liberdade (Wikipédia)

Muitos desses monumentos, estátuas, palácios, foram erigidos em homenagem a feitos históricos desprezíveis, ou em elogio a personalidades perversas, ou mesmo para valorizar atrocidades numa tentativa de apagar o passado. Nos Estados Unidos, ano passado, diversas estátuas de escravagistas ou comerciantes de escravos foram retiradas sumariamente de seu pedestal. De lá também veio a notícia de que artistas colocaram em frente ao Tribunal de Justiça de Nova York uma estátua que “recriou” a história de Medusa. A personagem mitológica que foi brutalmente estuprada (coletivamente, inclusive) e depois, injustamente acusada, mesmo sendo a vítima, era retratada como uma mulher com os cabelos formados por pequenas serpentes e que teve a cabeça decepada por Perseu. É a Medusa contemporânea quem decepa a cabeça de seu algoz. Fez-se justiça simbólica por meio de um monumento.

“Medusa com a cabeça”, de Luciano Garbati (reprodução YouTube)

Por aqui, nos anos 1920, a elite cafeicultora e detentora do poder político no Brasil desde 1894 decidiu inventar um passado glorioso para seus ancestrais. A “locomotiva do Brasil”, como adoram se denominar os paulistas, construiu um passado glorioso, incluindo aí o dar-se ao ridículo de copiar a bandeira norte-americana e suas 13 listras (representando os 13 estados que fizeram a independência dos EUA). A capitania pobre e periférica de São Paulo virou uma “terra de gigantes”.

O símbolo máximo desse poder era o descendente de português aqui na colônia, o endeusado Bandeirante. Alguns poucos paulistas eram grandes latifundiários e senhores de escravos como o fundador de Sorocaba, Baltasar Fernandes. A grande maioria dos bandeirantes viviam na pobreza, analfabetos que precisavam de índios para tudo (incluindo ensinar a língua portuguesa), avessos ao trabalho e à lavoura. Buscavam o enriquecimento fácil do ouro e pedras preciosas. Serviam a senhores e governos ao caçar, matar, estuprar e dizimar índios, negros e suas aldeias e quilombos. Facínoras por natureza, transmutaram-se em desbravadores do Brasil, em conquistadores de território, almas livres e aventureiras. Colocaram-lhes roupas garbosas, armas portentosas, chapéus de grosso calibre. Nós, paulistas brancos e ricos, temos o mesmo sangue desses “heróis”.

Domingos Jorge Velho, o exterminador de quilombos

A História serve a interesses. O Estado está tomado de homenagens a esses assassinos por natureza. A estrada que nos leva a Campinas é a Anhanguera. Chamado pelos índios de “diabo velho”. Certa vez, Anhanguera mandou queimar até a morte centenas de índios em óleo quente. Um primor de crueldade. Fernão Dias, Bandeirantes… Adoramos nossos algozes. São Paulo jamais refletiu sobre seu passado. São Paulo nunca fez a crítica do que foi o bandeirantismo. Tanto que em 1963 ergueram um monumento de 10 m de altura, constituído de trilhos de bonde, mármore e concreto, a horrorosa, em todos os sentidos, estátua de Borba Gato. Chamada de “símbolo ” do bairro de Santo Amaro. Símbolo de atrocidades? Há tempos, a estátua em si desapareceu em meio aos prédios, fumaça e automóveis que lá circulam. Era apenas um trambolho, feio para danar. Nesse fim de semana, a estátua foi atacada. Meteram-lhe fogo. Ardeu em fogo e feia fumaça. O material da estátua não permitirá que ela caia. Com certeza os políticos e empresários paulistas se juntarão para revitalizá-la. Mas as chamas trouxeram esperanças.

Borba Gato

Estudei o Estado Livre do Congo (1885-1908) em profundidade. Nesse período, o rei belga Leopoldo II foi responsável por todo tipo, direto e indireto, de atrocidades no país africano. O Congo virou propriedade privada do rei. O Congo foi escravizado, mutilado e viu 10 milhões de pessoas morrerem em 23 anos (35% da população do país). Ano passado, “vândalos” belgas obrigaram a retirada da estátua do rei genocida em Bruxelas. Um alento. A Bélgica havia apagado seu passado. Quando me dediquei a conhecer o passado do Congo, não encontrei nenhum historiador belga que falava do assunto. Exato: nenhum historiador belga refletira sobre o genocídio perpetrado pelo seu próprio país. Muitos defenderam Borba Gato alegando isso, que ele.seria uma fonte e inspiração para estudos sobre o bandeirantismo. Ninguém sabe quem ele foi. Poucos sabem, em verdade, o que faziam os bandeirantes. Não é um monumento à reflexão. É uma elegia, uma homenagem, um véu escuro a obscurecer nosso passado. Ao contrário de Auschwitz. O local tornou-se um Patrimônio Histórico da Humanidade. Como um simbolo da maior atrocidade da História. O monumento de Auschwitz é um centro de estudo e reflexão e um alerta para nos indicar onde pode chegar a sandice humana. Todo estudante alemão é obrigado a visitar uma vez por ano, dos 1 aos 100 anos, Auschwitz. Visitar, estudar e aprender sobre as atrocidades nazistas. Eu me lembro que trabalhei numa escola alemã no Brasil. Os professores alemães que trabalhavam no Brasil por quatro anos me procuraram para organizar uma semana de reflexão sobre o nazismo com todas as classes. Levamos a ideia para a diretoria e a resposta foi um sonoro não e uma advertência: “melhor não mexer com temas polêmicos”. Repito, a iniciativa partira dos alemães!

Auschwitz (Wikipedia)

Por isso, Borba Gato deve arder em chamas. Por isso, Anhanguera deve ser varrido da estrada. Pois não se homenageiam assassinos.

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