Já vi o filme e não gostei do enredo

GERALDO BONADIO (Blog do Bonadio) – A delirante iniciativa do nano grupo de ativistas que, a pretexto de combater políticas genocidas, incentivadas pelo atual governo, botou fogo na estátua de Borba Gato, em nada atenua as ações que, no campo e na cidade, roubam a vida de negros, indígenas e agricultores sem-terra. Pior: legitima, aos olhos de considerável parcela da nossa população as ações da banda podre do agronegócio que veem no holocausto dos silvícolas uma medida “necessária” a ampliar as áreas de desmatamento, contrabando de madeiras e mineração predatória.

Neste momento é fundamental que se construa a máxima unidade possível entre as forças democráticas, a fim de barrar os malfeitos promovidos ou acobertados pelo governo Bolsonaro, preservar as instituições democráticas e viabilizar uma transferência pacífica do poder – pelo impeachment, ainda este ano, ou em 2022 pela via eleitoral. Tudo o mais, inclusive as múltiplas e, em grande parte, justas pautas identitárias, exige um feixe de medidas somente possíveis de efetivação na vigência do Estado Democrático de Direito, ameaçado a cada dia pelo nosso mandatário máximo e pelos que, em coro, rosnam com ele. Vandalismos só nos afastam de tais objetivos.

Assisti esse filme nos meses iniciais de 1964 e não gostei das cenas que vieram a seguir. Exemplifico com uma história local.

Naquele momento, o Partido Comunista, que aqui controlava alguns sindicatos, embora formalmente na ilegalidade, era um tigre desdentado. Sua sede “clandestina”, no casarão da esquina das ruas da Penha e Padre Luiz, o mesmo no qual, em 1869, fora fundada a Loja Maçônica Perseverança III, era conhecida de todos.

Nas eleições municipais de 1962, pela primeira vez, desde 1945, fora amplamente derrotado, sequer conseguindo eleger um vereador simpático ao seu ideário. O camarista mais à esquerda, eleito na legenda do MTR, o advogado Santana Guimarães, era um democrata convicto; o vice-prefeito Agrário Antunes somava nacionalismo e militância católica.

No plano nacional, o PC estava em crise desde que o relatório Krushev, num congresso do Partido Comunista da União Soviética, explodira a imagem de Stalin, antes cultuado pelos comunas do mundo inteiro como “guia genial dos povos”.

Nos Estados Unidos, o presidente Kennedy, decidira que João Goulart não continuaria sendo presidente do Brasil. Não ficou nas palavras: através do escroque Ivan Hasslocher e do então coronel Golbery do Couto e Silva, passou a bombear recursos enormes para fortalecer a direita brasileira.

No campo da política real, o país se preparava para a eleição presidencial de 1965. Tudo indicava que ela teria como principais candidatos o centrista Juscelino Kubitschek, que deixara o Palácio do Planalto com a firme disposição de voltar a ele no quinquênio imediato, e o direitista Carlos Lacerda.

Goulart, que conseguira reaver os poderes presidenciais, do qual o despojaram em 1961, sonhava com uma reeleição, sem nenhuma chance de disputá-la, seja pelo impedimento constitucional vigente seja pela rejeição de que era objeto nos quartéis. Leonel Brizola, no momento mais radical de sua trajetória política, também queria chegar à Presidência e tentava estruturar, para isso uma milícia armada – os Grupos de 11 – mas também não tinha chances de concorrer ou sublevar. Ou seja, não havia risco algum de que a nossa bandeira viesse a se tornar vermelha.

Em 1963, as eleições para os governos estaduais – à época, elas nem sempre coincidiam entre si – levara o país para a direita. A divisão das forças democráticas entre partidários de Jânio Quadros e Carvalho Pinto, reconduzira ao governo paulista Ademar de Barros que, naquele momento, descartara sua roupagem populista e assumira a governança falando, a todo momento, nos seus 30 mil homens armados – soma da Força Pública e da Guarda Civil – que esperavam o momento de agir contra Goulart.

Com a Guanabara governada por Lacerda e Minas pelo camuflado Magalhães Pinto – que fingia sintonia com a esquerda e tramava à direita – qualquer possibilidade de o Brasil escapar ao domínio desta ou, no máximo, ao do centrão da época, era inferior a zero.

Um golpe de esquerda comando por João Goulart tinha, na personalidade deste, o obstáculo mais forte. Oriundo da região missioneira sul-rio-grandense, Jango ostentava, em sua personalidade, traços em tudo destoantes dos estereótipos de violência e machismo associados ao gaúcho da campanha. Rejeitava, de forma absoluta, qualquer luta pelo poder alicerçada no conflito armado e geradora no derramamento de sangue entre irmãos brasileiros. Foi, também, desde seu casamento com a jovem Maria Teresa, o mais fiel dos presidentes da República.

Seu horror às confrontações fratricidas o levou a aceitar, em 1961, a usurpação dos poderes de presidente que, se quisesse, poderia ter mantido, pois o III Exército, então comandado pelo general Machado Lopes, que somava três quartos do poderio militar terrestre do Brasil, formara ao lado da legalidade, confrontando o veto à sua posse, emanado dos ministros militares do ex-presidente Jânio Quadros. Do mesmo modo, quando, nos primeiros momentos do 31 de março, poderia conter o avanço das forças militares comandadas pelo general Mourão Filho, metralhando os recrutas em marcha sobre o Rio de Janeiro, com o uso dos caças da Força Aérea, até aquele momento alinhada com o governo, sua recusa ao fratricídio impediu que o golpe fosse morto no ninho.

Em meio a esse campo minado, uma contribuição decisiva aos golpistas veio de ninguém menos que Luiz Carlos Prestes. Saído há pouco dos esconderijos em que havia sido obrigado a viver, informando-se da realidade através de terceiros, o antigo Cavaleiro da Esperança, anuncia, afoitamente, que os comunistas já estavam no governo, embora ainda não no poder. Isso num momento em que Goulart – forçado a conviver com comunistas em parte da estrutura sindical – tentava, através de lideranças como o ferroviário Otávio Maria e o metalúrgico Domingos Alvarez, costurar, em São Paulo, uma força operária não subordinada aos comunistas nem à direita, controladora do Movimento Sindical Democrático e do Movimento Renovador Sindical.

A fala de Prestes, dessintonizada da realidade objetiva, animou os grupos afoitos do Partidão e dos setores à esquerda deste, a se jogarem em provocações inconcebíveis. Em Sorocaba, difundiu-se uma lenda urbana: os comunistas tinham, pronta, uma lista de cem adversários a serem por eles fuzilados sumariamente assim que chegassem ao poder. Numa reação compreensível, os supostamente condenados a uma versão sorocabense do paredão cubano cuidaram de adquirir armas de fogo, para defenderem a si mesmos e a suas famílias – como me confirmou, mais tarde, em entrevista publicada no Cruzeiro do Sul, uma das possíveis vítimas: o pacato médico udenista Vitor Pedroso, avô do atual deputado federal Vitor Lippi.

A ameaça era irreal. Isso ficou evidente quando, em 31 de março daquele ano, a polícia civil de Sorocaba, às ordens do delegado Francisco Severino Duarte, invadiu a sede “secreta” do PCB que ali funcionava há, pelo menos, vinte anos.

Em 1945, como se vê da foto pertencente à coleção do saudoso dirigente comunista ferroviário Brasil Mirim, Luiz Carlos Prestes (sem paletó e de camisa branca, com gravata), candidato a senador por São Paulo, ali se reuniu com os dirigentes locais. O primeiro à esquerda, em primeiro plano, é João Sanchez Segura, que em 1947, com 6.267 votos, se elegeu deputado à Constituinte estadual.

Na sede “secreta” foi apreendido o que a polícia definiu como “farto material de propaganda subversiva”. Este consistia, quase totalmente, em material doutrinário – inclusive vasta coleção de exemplares de Problemas da Paz e do Socialismo, uma revista tipo Seleções destinada à militância vermelha, que o Partidão recebia e não conseguia distribuir.

Duarte permitiu ao jornalista Vitor Cioffi de Luca que levasse para o Diário de Sorocaba, do qual, então, eu era redator, parte daquelas publicações. Foi ali que tomei conhecimento delas e do seu conteúdo, nada sensacional.

Provocações ainda mais sérias vinham sendo desenvolvidas por grupos recém-convertidos ao comunismo, como a dos ex militantes universitários da Ação Católica que, após transitar pela Ação Popular, terminaram filiando-se ao PCdoB.

O preço desses desvarios acabou sendo pago, nos 21 anos que se seguiram ao golpe de 1964, pelos que apenas sonhavam com a construção, dentro das balizas da democracia, de um Brasil moderno, autodeterminado e menos injusto.

Essa lembrança me assusta. Ações tresloucadas, como a dos incendiários da estátua de Borba Gato, me levam a rever, com os olhos da lembrança, um filme cujo desdobramento não me agradou e cuja projeção, talvez, ainda não tenha acabado. Melhor continuar lutando, através do sereno e firme exercício das prerrogativas constitucionais, para que amanhã seja outro dia.

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