Cuba na geopolítica contemporânea

GERALDO BONADIO (Blog do Bonadio) – Em apoio às manifestações contra o governo cubano, há pouco ocorridas naquele país, o atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, optou por assumir e ampliar, em todos os seus termos, as ações contra o governo de Havana levadas a cabo por seu antecessor e rival Donald Trump, em vez de retomar a política de distensão, desenvolvida, com resultados positivos, inclusive no tocante à possível abertura do regime vigente na ilha, pelo seu antecessor democrata Barak Obama.

Isso parece surpreendente, mas não é.

Os objetivos do bloqueio econômico de Cuba, sob Biden, são os mesmos definidos no final da década de 1950, tão logo Fidel Castro, assumindo o governo daquele país, começou a desapropriar sem indenização as empresas americanas na ilha. Na ocasião, o presidente norte-americano, o republicano Dwight Eisenhower, ex-comandante supremo das Forças Aliadas na Segunda Guerra Mundial, deixou claro o que pretendia: levar os cubanos ao desespero, pela falta de tudo, inclusive comida, e, assim, encorajá-los a insurgir-se contra o governo e, enfim, derrubá-lo.

Dos nove sucessores de Eisenhower – John Kennedy, Lyndon Johnson, Richard Nixon, Gerald Ford, Jimmy Carter, George Bush, Bill Clinton, George W. Bush, Barak Obama, Donald Trump e Joe Biden, seis democratas, cinco republicanos – todos, exceto Obama, mantiveram e, quanto possível, tornaram o bloqueio contra Cuba mais e mais rigoroso.

Se levarmos em conta os indicadores puramente geográficos essa conduta é surpreendente.

Cuba é um país minúsculo. No Estado de São Paulo, uma das menores unidades da federação brasileira pode-se acomodar, folgadamente, duas Cubas e sua população não chega a uma quarta parte da paulista. Tampouco sua economia, baseada na monocultura canavieira e na produção de açúcar, explica a dureza que o governo de Washington vem empregando contra o país caribenho desde 1959.

Em contrapartida, é fácil entender a situação à luz da geopolítica.

Cuba está incomodamente perto da costa estadunidense. Um voo comercial que parta de algum aeroporto da Flórida chega a Havana em 40 minutos.

Não é só.

Se dispuser de poderio naval, próprio ou suprido por algum país aliado, Cuba tem condições de levar ao colapso, num vapt vupt, a movimentação de navios americanos, mercantes e militares, em dois pontos essenciais: o mar do Caribe e o golfo do México. Neste, é bom lembrar, desaguada a mais importante bacia fluvial estadunidense, a dos rios Mississipi e Missouri.

Biden tem maior chance que seus antecessores de derrubar o governo cubano, mediante a combinação das “primaveras” coloridas que prometiam democratizar o Oriente Médio, mas não o fizeram, e das guerras híbridas. Sem alianças externas como aquelas das quais se valeu em momentos outros – União Soviética, Venezuela sob o governo Chávez – Cuba está mais vulnerável que nunca.

Não menos verdadeiro é que as disputas geopolíticas contemporâneas, de altíssimas temperaturas, vêm gerando parcerias táticas, entre Estados que competem ou sentem-se ameaçados pelo governo norte-americano – China, Rússia, Iran – que podem deslocar, para aquele ponto do globo, algumas das contendas definidoras do controle geopolítico da Eurásia, o que, para nós brasileiros, será tão saudável quanto viver aos pés de um vulcão. É bom, portanto, tentar entender a origem próxima do embate entre os Estados Unidos e Cuba.

O começo da trama está na virada do século XIX para o século XX, momento em que os norte-americanos, a pretexto de libertar Cuba do domínio espanhol, usaram a mão dos cubanos para retirar do fogo várias castanhas que lhes interessavam: as sobras do antigo império espanhol no Pacífico, como as Filipinas e até uma parcela do território cubano, no qual instalaram a base naval de Guantánamo e, em data mais recente, um presídio político famoso pelas técnicas de tortura ali aplicadas aos prisioneiros. Em seguida, instalaram, na ilha, sucessivos governos títeres, o último dos quais foi o de Fulgêncio Batista.

Em “O Irlandês” – biografia cinematográfica do sindicalista Jimmy Hoffa -, Martin Scorsese constrói uma longa narrativa cujo marco inicial é a ascensão da família Kennedy, dentro do Partido Democrata, por obra e graça da fortuna que seu patriarca, Joseph, obteve na vigência da lei seca, contrabandeando álcool do Canadá para as destilarias clandestinas da máfia estadunidense.

Por conta dos velhos tempos – e dos futuros interesses – a máfia trabalhou pela eleição de John Kennedy como presidente, em 1960. Este, empossado, fugiu ao pactuado, designou seu irmão mais novo, Robert, como procurador geral. Bobby perseguiu Hoffa e o levou à cadeia, mas a máfia, mesmo decepcionada, costurou um acordo por cima com o velho Kennedy.

A compensação que deveria reequilibrar a balança seria o apoio americano à invasão, por cubanos anticastristas, da Baia do Porcos. A operação, cuja montagem fora iniciada ainda no governo Eisenhower, derrubaria Castro e restituiria os negócios mais lucrativos da ilha – cassinos, hotéis, prostituição, tráfico – à máfia cubana.

No filme, de Niro, cujo personagem originalmente fora um caminhoneiro, transporta armamento pesado a ser usado pelos invasores, mas o ataque, ao fim e ao cabo, torna-se um fiasco. Kennedy, no momento decisivo, negou apoio aéreo aos invasores, treinados e equipados em solo americano, e eles foram liquidados na praia, pelos soldados de Fidel. Nesse meio tempo, o velho Joseph sofrera um AVC do qual não se recobrou e não foi possível negociar um novo entendimento.

Com o insucesso da invasão, o inconformismo dos mafiosos americanos e de seus associados em Cuba não teve limites. Isso os levou a executar John Kennedy, durante uma visita a Dallas. Numa típica ação de quadrilheiros, o autor do assassinato foi eliminado a seguir, quando um inexpressivo soldado da máfia americana, Jack Ruby, conseguiu, nunca se soube como, furar a vigilância e matar Lee Harvey Oswald com um disparo a queima roupa, inviabilizando qualquer investigação capaz de esclarecer que fora o mandante do crime.

Resumo da ópera: o que se assiste hoje, em Cuba, é mais um round da interminável briga do mar contra os rochedos, na qual sofrem sempre os cubanos que apanham dos dois lados.

Em meio a contenda, também fica nítido que quem mais fortemente contribuiu para uma possível abertura do regime cubano foi Barak Obama. Negociando com Raul Castro, tido como muito mais duro e inflexível que Fidel, ele conseguiu facilitar o acesso dos cubanos à internet que, como se viu, foi essencial para organizar e distribuir, por vários pontos da ilha, os inéditos protestos contra o governo de partido único ali vigorante.

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