Meu pai contava histórias

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – A figura paterna se impõe com força nas nossas vidas e ganha atenção especial nesses tempos que antecedem o Dia dos Pais. Como habitualmente, os pais são inspirações para os filhos. Quanto a mim, entre as influências que herdei de meu pai, destaco o gosto pelas histórias contadas em verso e prosa, fictícias e reais, divertidas umas, trágicas outras.
Meu pai era um contador de histórias. Daquele tipo que, quando menos se espera, tira da memória conjuntos de narrativas que sequestram a curiosidade de crianças e adultos.
Ele tinha um jeito espontâneo de atrair o público de filhos, mulher, vizinhos, amigos. Suas narrativas eram acompanhadas de gestos, marcações de voz, contrações da face.
Esses movimentos anunciavam os instantes de suspense e traduziam as emoções dos personagens. Davam os tons de ritmo tão necessários para manter a plateia atenta, curiosa, ávida por finais surpreendentes.
Eram histórias de “Trancoso”, nome dado às narrativas inventadas. Outras eram baseadas em fatos verdadeiros, ainda que falassem de coisas sobrenaturais.
Eu apreciava as histórias de assombrações. Os cenários eram de arrepiar, compostos por antigas casas de farinha, caminhos desertos, casas abandonadas. E muitas vezes fui dormir com medo, um pavor que experimentei mais tarde com os contos de Poe.
E não era para menos. Meu pai vinha de uma família de contadores de histórias. Os parentes do lado de minha mãe também tinham esse perfil. Eram todos da Paraíba e de Pernambuco, avós, tios, primos, aderentes e agregados.
A literatura de cordel exercia grande influência nas histórias, ao ponto de muitas serem contadas em versos. E eu ficava admirado com a capacidade de esses narradores guardarem de memória os muitos versos que descreviam grandes jornadas de acontecimentos.
Meu pai contava histórias que celebravam a coragem, a aventura, a fantasia. Como exemplos de coragem, citava constantemente as figuras dos cangaceiros. Os destaques eram Lampião e Antonio Silvino. Eram apresentados como heróis do sertão nordestino e justiceiros do povo sofrido da caatinga.
Sem modéstia, meu pai procurava se incluir entre os seres dignos de coragem e dizia que essa era uma herança do pai dele, meu avô. Recordava episódios de brigas na escola como solução para divergências miúdas. E garantia que meu avô acumulava registros de contatos com fantasmas e outros mistérios do outro mundo.
A vida da família era uma aventura por natureza. Eram os anos da década de 1930. Naquele tempo, meu avô se mudava constantemente. Percorrendo destinos de retirantes nordestinos, a família morou em várias cidades entre Recife e Maceió. Viajavam a pé, com trouxas de roupas na cabeça, crianças de colo, animais domésticos. Chegavam numa vila isolada e, quando tinham sorte e recebiam graças do santo Padre Cícero, de quem meu avô era devoto, permaneciam algum tempo no lugar. Nessas ocasiões, construíam uma pequena casa de madeira e cobertura de palha. Demarcavam espaços para plantios de milho e mandioca,, criação de galinhas, cabras, porcos. A maior parte da produção era para consumo próprio.
Para completar o sustento da família, meu avô produzia os tamancos que antecederam os populares chinelos de hoje e tinham mercado naquela época. A fabricação de tamancos requeria temporadas em matas próximas. Eram nessas matas que ele obtinha a madeira apropriada ao processo de produção. E meu pai, embora criança, participava dessas atividades de meu avô como ajudante dele.
Nessa rotina, meu avô às vezes tinha que passar noites na mata. Certa vez, numa dessas ocasiões, ele e meu pai trabalhavam num lugar que tinha fama de assombrado. O local era o cenário de uma antiga briga que terminara com a morte de um pistoleiro de aluguel.
Alta noite, depois que meu avô apagou o lampião e tudo estava escuro no interior da barraca, ele ouviu o ruído de galhos e folhas que indicavam a passagem de gente ou de animal. Por precaução, armou-se com a foice — que também era ferramenta de trabalho — e abriu uma fresta na barraca para sondar lá fora.
Foi quando ele viu, numa distância bem próxima, o vulto do temido pistoleiro à espreita. Todos diziam que o fantasma aparecia para assustar os que se atreviam a passar a noite ali.
Meu avô se arrepiou todo. Acordou meu pai, que estava dormindo. Na mesma hora, os dois se retiraram daquele lugar. Abandonaram a barraca e foram embora dentro da noite.
As lendas do lugar diziam que, como o fantasma tinha sido um assassino em vida, podia trazer perigo se alguém insistisse em ocupar aquele pedaço de chão no meio da mata. E era prudente não desafiar o sobrenatural.
Meu pai contava essas histórias.

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