Muito além de Hiroxima e Nagasaki: as Olimpíadas de Tóquio em 1964

FREDERICO MORIARTY – Na ensolarada tarde de 2 de setembro de 1964, a tocha olímpica chega ao arquipélago de Okinawa, no Japão. Era o primeiro ato das Olimpíadas da Bondade. As escolhas olímpicas foram simbólicas. Okinawa foi palco de batalhas cruentas da Segunda Guerra. A data, 2 de setembro, foi a do armistício japonês com os aliados. A tocha percorreu Hiroxima, Nagasaki e diversas cidades que foram bombardeadas em 1945. Vingança? Não, o governo japonês queria mostrar ao mundo que agora vivíamos numa era de paz, prosperidade e companheirismo. Tudo bem que a poucas milhas náuticas dali os Estados Unidos começavam sua escala genocida no Vietnã. A tocha passou de cidade por cidade, atletas e pessoas sem tanta importância até chegar a Tóquio, com o estádio Nacional do Japão tomado de bandeiras de 93 países, a famosa bandeira olímpica dos 5 anéis entrelaçados e muitas bandeiras do Japão Novo, abandonada a insígnia imperialista do sol nascente. No estádio, defronte a 100 mil espectadores e na TV, ao vivo para milhões de pessoas na primeira transmissão via satélite da história, o jovem esportista Yoshinori Sakai correu triunfante para acender a pira olímpica.

G1

Sakai nascera às 7h da manhã de 6 de agosto de 1945, na cidade de Hiroxima. Cerca de uma hora a cidade ardeu nas chamas da Big Fat, a primeira bomba atômica despejada sobre uma cidade. Em poucas horas, perto de 78% dos habitantes da pacata e civil cidade do sul japonês viraram literalmente pó. Sakai ficou conhecido como o “bebê da bomba”, um sobrevivente do apocalipse que foi repetido 3 dias depois em Nagasaki. Outro alvo civil. Aliás, entre abril e agosto de 1945 o Japão sofreu o mais intenso, devastador e assassino ataque de toda a Segunda Guerra Mundial. As 50 maiores cidades do país foram bombardeadas com armas incendiárias. Mais da metade dos prédios dessas urbes desapareceram. Em torno de 1,5 milhão de japoneses, a maioria civis, morreram nesses ataques. Hiroxima e Nagasaki foram apenas a tortura final da estratégia militar norte-americana de destruir o inimigo para não dividi-lo com a União Soviética. A Guerra Fria começava antes da Guerra Fria. A reconstrução do Japão, nos 19 anos que separam Hiroxima do ato desportivo de Sakai, passou por uma submissão completa do país aos ditames impostos pelo Tratado de São Francisco. Alicerçados por uma ocupação militar e um governo fantoche comandado pelo general Marshall entre 1945 e 1952. Uma imposição norte-americana para enfraquecer o Imperador. O Japão passa a ser uma monarquia parlamentar, com senadores, deputados , presidentes e um sistema político teoricamente bipartidário. O Japão era agora um Estados Unidos de olho puxado. Mas a humilhação não parou aí. Ocorreu um forte processo de ocidentalização da cultura japonesa, um eufemismo para a invasão cultural e econômica estadunidense. Nada comparado ao tratamento dado á Alemanha no mesmo período. O Japão tornara-se uma República das Bananas no Pacífico.

Foram duas décadas difíceis, mas, com pesados investimentos em educação, ciência e tecnologia, além de uma abertura para as novas tecnologias. Um dos símbolos dessa liberdade tecnológica são os robôs, inventados por um engenheiro americano. Após anos tentando vender sua novidade para o país natal, sem sucesso, ele leva a novidade para o Japão. Em 1 mês, três grandes indústrias compraram a tecnologia e até hoje o Japão é o país com maior número de robôs industriais do mundo. E essa abertura para as inovações era regra.

Toquio 1964 foi uma demonstração ao mundo e aos Estados Unidos de que o país era forte novamente e que em poucos anos poderia competir e até suplantar seu antigo algoz. Os tempos do “fordismo” estavam no fim; agora viria a era do “toyotismo”. O Japão aos poucos iria orientalizar o mundo. Godzila, Mangás, Hello Kitty, Ultraseven, sushis, sashimis, mais os carros da Honda e Toyota, as supermotos Yamaha e Honda, os eletrônicos da Sony e Mitsubishi. Produtos japoneses passaram a trazer embutidos neles a alta tecnologia, a qualidade e o design inovador. Quem aprende com o passado e transforma ruínas em criatividade pode se dar ao luxo de determinar o próprio futuro. Nos jogos de 1964, os japoneses trouxeram dois novos esportes a que somos muito gratos: o judô e o voleibol. O Japão era a prova viva de que não é preciso ser uma máquina de guerra para ter uma economia pujante e independente.

Word press

Nas competições tivemos Abebe Bikila ganhando o bicampeonato na Maratona. Dessa vez, ao contrário dos Jogos de Roma em 1960, quando correu os mais de 42 km descalços, Bikila correu com os pés calçados. No basquete masculino os Estados Unidos chegavam ao 7° ouro seguido e completavam 36 anos de invencibilidade. No futebol havia uma disputa de seleções “amadoras “. Assim, países como Brasil, Itália, França e Alemanha mandavam jogadores do sub 20 ou mesmo times do exército. Como o profissionalismo era proibido no leste europeu, os países da cortina de ferro mandavam seus times principais. Era um massacre comunista. De 1948 até 1980, os times do leste europeu ganharam as 9 medalhas de ouro e 15 das 18 medalhas de prata e bronze em disputa. A Hungria de Puskas venceu no Japão. No quadro geral de medalhas, tivemos os Estados Unidos em primeiro, União Soviética em segundo e o anfitrião em terceiro com 16 medalhas de ouro, 5 de prata e 8 de bronze (por curiosidade, vemos algo parecido nas olimpíadas de 2020 em Tóquio; a China, oficialmente comunista, será a primeira colocada, os Estados Unidos ficarão em segundo e o Japão terminará em terceiro, mas com um rendimento bem melhor pois conquistou 24 ouros e 51 medalhas no total).

Na ginástica, a russa Larisa Latynina ganhou sua 9° medalha de ouro e a 18° no total em três edições, consagrando-se como a mais vitoriosa mulher em todos os tempos. Don Schollander foi o primeiro nadador a ganhar 4 ouros numa mesma edição. As “soviet Press sisters” — Tamara Press, que venceu o arremesso do peso, como em Roma, e o disco, no qual havia sido prata em 1960, e sua irmã Irina Press — tiveram uma carreira de medalhas nos anos 60, mas desapareceram das competições, de forma suspeita, quando os controles sexuais começaram a ser feitos pelo COI (Comitê Olímpico Internacional). Há uma luta hoje para o reconhecimento das irmãs como possíveis atletas trans e não frutos da ciência dos anabolizantes comunistas ou mesmo “Press Brothers”, como pejorativamente eram tratadas..

IIrina e Tamara Press. Science Photo Gallery

Tóquio parece ser uma cidade marcada pela superação das tragédias. Foi assim em 1923, com o terremoto que matou 300 mil moradores da capital japonesa. Repetiu-se em 1945, com os cerca de 1 milhão de mortos na Segunda Guerra, além dos 3 milhões de habitantes com tifo em decorrência da infestação por piolhos, originada pela pobreza, fome e destruição deixadas pelos aliados. Cidade marcada por 3 Olimpíadas e 3 tragédias. A de 1940 que acabou não acontecendo por conta da Guerra. A de 1964 e sua memória das bombas atômicas. E esta de 2020, sendo disputada em 2021, por conta da Peste da Covid que tirou a vida de 4,5 milhões de pessoas e parou o mundo desde fevereiro do ano passado.

Talvez a resiliência, a vontade cega em se reerguer, a capacidade de se entregar e lutar pelo amanhã, mesmo em meio a tragédias, sejam o grande legado do Japão. Um legado de paz, união e da importância decompetir e não apenas vencer, como queria o idealizador dos Jogos Modernos, o barão de Coubertin. E foi em Tóquio 2020 que vimos uma das cenas mais bonitas da história do esporte, uma imagem que nos dá esperança e mostra que ainda há um pingo de humanidade espalhada pelo mundo. Falo da desistência do atleta italiano e do atleta do Catar em realizar mais um salto e decidir quem era o melhor. Ali naquele abraço repleto de paradoxos, um loiro e um negro, um europeu e um asiático, uma potência e um país periférico se sublimaram. Colocaram a amizade, o humanismo, o respeito ao outro, acima de qualquer vitória. Foi um dos mais belos gestos do esporte. Que os sonhos de Akira Kurosawa nos retomem.

Gianmarco Tamberi e Mutaz Essa Barshim dividem o ouro. Fonte: o Globo

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