Paulo José me contou

Paulo Betti

Quando Paulo José e eu fomos gravar “Luna caliente” (1999) no Rio Grande do Sul, um dia ele me contou esta história da estreia de “Julio Cesar”. Eu fiquei encantado e, como já mantinha uma coluna no jornal, tomei nota. Aí chegou um outro colega e eu pedi que ele contasse a história novamente, e acintosamente tomei nota de novo. E assim fiz por uma terceira vez. Chegou uma outra pessoa e eu falei: “Paulo, conta de novo a história da estreia do Júlio César.”

A cada vez que ele contava, surgia um detalhe novo, e a história ficava ainda mais interessante. Escrevi o artigo e, na primeira oportunidade, publiquei. É claro que mostrei para ele, e ele gostou muito. Então, em memória desse grande ator e amigo, republico aqui o artigo que foi publicado originalmente na “Coluna Paulo Betti” do jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba (SP), em 30 de agosto de 1998, e republicado pela Folha de S. Paulo em sua edição de 7 de agosto de 2020, com o título “Uma metáfora do Brasil”.


Outro dia falei da estreia de Júlio César, de Shakespeare, no Teatro Municipal de São Paulo e agora volto ao assunto.

O ano era 1965 ou 66, logo depois do golpe militar. A empresária teatral Ruth Escobar resolveu encenar a tradução de Carlos Lacerda, na época governador do Estado da Guanabara.

Odiado por muitos, principalmente pelos artistas e pessoal da chamada “classe teatral”, que se opunham ao regime recém-instalado, o “Corvo” – como o chamavam –, um dos principais conspiradores do regime, precisava de uma imagem mais intelectual, humana. Precisava uma ponte com a cultura que lhe desenhasse um perfil mais favorável. Ruth conseguiu muito dinheiro oficial para encenar a peça do bardo inglês. Contratou um elenco excepcional, regiamente pago, e um diretor criativo. O cenógrafo era Wladimir Carvalho, que construiu uma grande escadaria e um pórtico no alto. Os figurinos eram de Maria Bonomi, expressiva artista plástica, mas com pouca experiência teatral.

Antunes Filho, talvez numa espécie de autopunição por estar fazendo aquela produção tão politicamente incorreta, empregou uma estratégia suicida para dirigir a peça.

Ensaiou o elenco separadamente, utilizando uma planta baixa, onde as marcações eram desenhadas no chão. O elenco completo só se encontrou na véspera da estreia, no ensaio geral.

Não sabiam quanto tempo durava o espetáculo, e transferir as marcações para a escadaria não foi nada fácil.

Alguns atores tentaram argumentar que não era possível estrear, mas foram demovidos pela produção que tinha já convidado as autoridades interessadas no espetáculo: políticos, militares, empresários. Toda a divulgação já estava feita. O pano tinha que abrir.

Argumentando com a tradição de que o mau ensaio geral prevê uma grande estreia, baseado na teoria de Antonin Artaud, “o risco da catástrofe iminente”, o brilhante diretor conseguiu convencer o elenco de que a estreia devia sair. Acreditava-se no milagre.

Na plateia os convidados se dividiam entre os patrocinadores, os políticos, os generais do primeiro e segundo escalão do exército e o pessoal da classe que torcia, compreensivelmente, contra a peça.

Foi um dos maiores fracassos do teatro brasileiro.

Tudo deu errado.

Logo no começo, Juca de Oliveira, aparecendo no alto da escadaria, disse alto: “Que se abram de par em par os portais de Ro…” Quando foi completar Roma, abrindo os braços no gesto, a alça de couro se rompeu e o escudo foi caindo escada abaixo, rolando. E, depois de girar como um pião, parou na boca do palco, para o estrondo debochado da plateia.

Logo depois entra em cena Raul Cortez, que fazia o papel de Cássio, vestindo uma saia curta, plissada. Dos camarotes, o anarquista diretor italiano Alberto D’aversa gritou: “Maria Esther Bueno”, referindo-se à nossa mais famosa tenista. A plateia veio abaixo mais uma vez, no segundo aplauso.

Morto, Júlio César entra em cena numa espécie de carroça romanizada pela cenografia. Deitado de bruços, o falecido ator Sadi Cabral entrava nu. Apenas coberto por uma manta, mostrando toda a crueza da solidão da morte. A carroça posicionou-se erradamente, de tal modo que o ator constrangido percebeu que estava descoberto e com a bunda virada pra plateia.

Alberto D’Aversa bradou:

– “Popô arte!”

Outro gargalheiro.

No intervalo, as autoridades foram embora e o espetáculo ficou literalmente entregue à classe teatral.

Os erros e as descontinuidades decorrentes da falta de ensaios em conjunto se sucediam. No fundo se ouvia a voz do diretor tentando segurar o espetáculo: “Segue! Segue!”, gritava Antunes.

Sadi Cabral aparece novamente no alto, numa espécie de rampa, agora como o fantasma de Júlio César: – “Cuidado com os idos de março”, e vai recuando. “Os idos de março.” A rampa se acaba e Sadi não percebe. Agarra-se no pano lateral e o último marçoooooo é seguido de um estrondo no palco. No fundo, a voz do diretor continua estimulando: “Não para. Segue!”

Ouvem-se sirenes, ambulâncias. O espetáculo continua e, quando o pano fecha, a plateia aplaude de pé, rindo do fracasso desejado. O elenco não volta para agradecer.

Sadi sofre fratura na bacia e no outro dia deve ser substituído. O ator que entra vai ler o texto num pergaminho, porque não tem tempo de decorar as falas. Um pouco antes do espetáculo, descobre que não poderia ler sem óculos. Naquela segunda noite, Júlio César tinha um par de lentes grossas. O público foi abandonando a peça, que saiu de cartaz.

O tempo faz tudo parecer engraçado. Até esse tipo de tragédia. Com o tempo, aprendemos a rir do fracasso.


Foto: Divulgação Rede Globo

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