Crítica: espetáculo Entre

CENA METROPOLITANA/ JOSÉ SIMÕES- O espetáculo teatral Entre se apresenta ao espectador como a união da tecnologia e a instalação artística, para investigar as relações do corpo humano com o ambiente, com a história, com as emoções pessoais e as lembranças.

Homi Bhabha (O Local da Cultura) propõe que as culturas surgem como resultado, não mais da singularidade (de classe, gênero, etc) e, sim, pela existência nas fronteiras – pelos entre-lugares – afirma que:

O que é teoricamente inovador e politicamente crucial é a necessidade de passar além das narrativas de subjetividades originárias e iniciais e de focalizar aqueles momentos ou processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. Esses “entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular ou coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria ideia de sociedade.” (O local da Cultura)

A discussão de fronteira e entre-lugar é um dos elementos presentes no espetáculo Entre. As quatro narrativas apresentadas em Realidade Virtual (VR) promovem um mergulho no universo particular de cada personagem e, ao mesmo tempo, amplificam as formulações das subjetividades culturais, que cada um dos percursos narrativos propõem ao espectador. Desse modo, criam um campo propício para o espaço de fricção, necessário para fazer emergir reflexões acerca das diferenças culturais e os signos de identidade. Muito próximo do que propõe o filosofo Bhabha.

Deixando ao lado a abordagem filosófica e tornando o olhar ao espetáculo teatral. As narrativas apresentadas sequencialmente aos espectadores como dramaturgia, vez ou outra, são sustentadas por estruturas e estratégias próximas do melodrama e não da perfomance. O que de modo algum interfere na proposta cênica. Tal situação remete fortemente o espectador à noção de teatralidade. Talvez seja este um dos elementos mobilizadores da cena, associado às outras questões da montagem e da experiência do espectador.

A experiência do ponto de vista do espectador teatral ao utilizar a Realidade Virtual (VR) possibilita um conjunto de leituras. Dentre elas se reafirma a questão da autonomia do olhar do espectador, ao lado, da discussão da expansão da noção de caixa cênica, por intermédio da utilização da VR. Nesse contexto, se reitera que nada (absolutamente nada) que se encontre no campo da cena/lugar cênico, pode ser inconsequente e sem relação com a própria narrativa da cena. Não existe objeto que possa estar presente no espaço cênico, que não lhe seja atribuído um sentido. Isto porque todos os objetos (naturais ou não) que se encontrem no campo cênico se tornam carregados de significados para o espectador. A pedra, a cor da terra, a cor do céu, o pixo da cidade, os figurinos, etc. Tudo isso se torna estímulo e propicia a ampliação da experiência do espectador.

Na proposta cênica a inovação tecnológica não rouba a cena do fazer teatral, nem a sobrepõe. A VR se abre como espaço instrumental ou mesmo um media para a fruição estética. Explora e traz consigo a dialética do aqui/agora. A ação cênica acontece para todos os espectadores no mesmo lugar cênico e teatral. Mesmo as cenas tendo sido realizadas noutro tempo e espaço.

A direção de Robson Catalunha se destaca pelo desenho da montagem das cenas, desenvolvendo nas narrativas dos artistas transbordamentos da realidade, que terminam por se tornar “atrações”, exacerbando a teatralidade (no sentido proposto por Eisenstein e Meyerhold). O resultado é singular e potente. Um marco no teatro sorocabano contemporâneo.

A realização do espetáculo Entre, neste tempo e situação histórica, renova e reitera a força da produção local sorocabana, que se soma a outros incansáveis produtores/criadores da cidade.

Os atores do espetáculo e o diretor, com trajetórias distintas, seus repertórios, se consolidam no cenário cultural teatral da cidade (como alguns outros). O espetáculo revela que, metaforicamente, outra geração já assume, de fato, o protagonismo cênico na cidade. O tempo irá comprovar. Teatro é (e sempre será) movimento.

Não deixe de assistir.

É preciso (é necessário) que este espetáculo ganhe o mundo. Que siga ate onde a vista alcança.

“é no surgimento dos entre-lugares – a sobreposição e o deslocamento de esferas da diferença – que as experiências intersubjetivas e coletivas de nacionalidade, interesse comunitário, e valor cultural são negociados. ” (Homi Bhabha)

INFORMAÇÕES

Com o auxílio de óculos de realidade virtual, o espetáculo Entre une a tecnologia a uma instalação artística para investigar as relações do corpo humano com o ambiente, com a história, com as emoções pessoais e as lembranças.

Todos os cuidados estão sendo tomados para oferecer a você uma experiência segura:
➡ 15 pessoas por sessão
➡ Distanciamento
➡ Higienização de todos os equipamentos, assentos e espaços
➡ É obrigatório uso de máscaras e higiene das mãos

De 3 a 26 de Setembro, confira mais informações e agende pelo link na bio! ✨

FICHA TÉCNICA
Diretor artístico: Robson Catalunha – @robsoncatalunha
Performers: Daia Moura, Douglas Emilio, Felipe Alduina e Hércules Soares – @mouradaia, @douglasemilioo, @herculessoares
Participações: Tania Soares, Helen Soares e Nilson Madureira de Almeida – @helenssoares Provocadora artística: Cleide Riva Campelo – @cleiderivacampelo Consultoria de luz: Roberto Gill Camargo – @robertogillcamargo Diretor de arte: Felipe Cruz – @felipecruz.cruz.7 Equipe de arte: Ketlyn Azevedo e Marcelo Simões – @ketlyn__azevedo e @tchelosimoes Maquiagem: Be Hemp – @be.hemp Trilha sonora original: Henrique Ravelli – @henriqueravelli Coordenadora geral e diretora de produção: Andressa Moreira – @dremoreira
Produtor: Rafael Ferraz – @rafaelferrazopa
Fotógrafos: Tiago Macambira, Thiago Roma e Adriano Sobral – @tiago.macambira, @thiagoroma47 e @adrianosobralfotografia
Consultor de realidade virtual e captação de vídeo: André Stefano
Design 3D: Bruno Ducatti – @brunoducatti
Editor de vídeo: Rodrigo Rímoli – @rodrigorimoli
Assessoria de imprensa: JF Gestão de Conteúdo – @jfgestaodeconteudo
Design gráfico: Laerte Kessimos – @laerte_kessimos
Social media: Tiani Gava Zilli – @tianizilli
Assessoria contábil: Amorim consultoria contábil- @carlos8amorim e @karencamposamorim

APOIO
MACS – Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba – @macsmuseu
Secretaria da Cultura – Prefeitura Municipal de Sorocaba
UNISO – Universidade de Sorocaba – @uniso_oficial
HolyShit! – @holyshitsorocaba
Grupo XIX de Teatro – @grupoxixdeteatro

Foto: Tiago Macambira

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