De todas as paixões da minha vida, Ana Maria foi a mais dolorida, a mais sentida. Doce como a tangerina, amarga como a existência

FREDERICO MORIARTY – Por que algumas mulheres têm um odor inconfundível? Umas cheiram como as manhãs do mato, outras um trem sem destino, muitas apenas um perfume barato, mas que penetra pelas narinas, agrada aos olhos e não deixa que passem despercebidas. Ana Maria não era assim. Aquela mulher alta, de pernas grossas e uma bunda maravilhosa olhou pra mim e perguntou:

-Você dá aulas aqui?

Aqueles olhos claros, a boca carnuda e os cabelos pretos, quase noturnos, enrolados, cacheados, cobrindo uma parte da nuca, a outra anunciava-se à minha frente, de cor branca e convidativa. Fiquei olhando para aquela perfeição e ela falando. Não ouvia, só sentia aquele perfume único, um sabor de tangerina, uma fruta madura, ácida e doce, firme e líquida, um anzol de alma.

-Quero fazer cursinho, mas como não tenho grana, preciso trabalhar.

Éramos uma cooperativa de professores. Estávamos precisando de uma secretária para a noite. Aquele odor foi me inebriando, as bochechas rosadas que davam vontade de morder abriram minha guarda. Estava contratada. Foi paixão imediata. Ouvir uma voz meio rasgada, um risco sensual e único foi certeiro. Assim era Ana Maria. Simples como só ela. Parecia meiga, outras vezes decidida, noutras solitária. Ficaria anos observando seu andar. Jogava handebol, ela me disse. Deveria ir assisti-la. Deveria ter ido ver aquelas pernas firmes e longilíneas correndo pela quadra. Claro, não fui o único. A cada professor que a conhecia tinha de ouvir os comentários: românticos, apaixonados, tarados em sua maioria, sempre com a certeza de que o cheiro de tangerina estaria em mãos alheias, nunca nas minhas. Esse foi o primeiro problema. Havia um carrilhão de homens, novos e velhos, querendo comê-la. Sim, eu também a queria e como queria. Porém havia outro problema: namorava havia três anos com uma paixão perversa. Uma mulher com ciúme obsessivo. Uma futura psiquiatra que um dia meteu a faca no próprio braço para se matar de amor. Eu ali, vendo o sangue jorrar pelo braço e um talho de 10 centímetros na pele. Agora não é hora de falar de Roberta. Hora é de Ana Maria. Adotei a velha estratégia masculina. A sacanagem sem fim.

“Sou um cara legal, carente e romântico. Namoro com uma doida que só me maltrata.”

Deve então mostrar-se indefeso e desprotegido, mas com toda a fé do mundo num amor verdadeiro que virá. Nunca se deve culpar em excessivo a mulher anterior. Elenco meus feitos, minhas formas naturais de fazer a outra se sentir amada. Esqueço das pisadas na bola, das vezes em que errei, mas não todas. Sempre é bom guardar um defeito e comentar em autocrítica que não fui um bom namorado. Impressiona. Parece que estamos abertos à mudança. Sutilmente então, temos de despejar elementos de tragédia. Mostrar-se surpreso e incompreendido com as atitudes da outra. Sentir-se impotente perante os fatos. E, sempre com cara de “quero colo”, com falas de esperança no relacionamento voltar ao que era antes, de se entregar para tentar dar certo uma última vez. Normalmente funciona. Muitas mulheres querem ser mães. Olham pra mim com uma pena danada. Sentem raiva da outra que não sabe ou não valoriza um homem sério, de boas intenções e compreensivo. Sim, somos filhos da puta. Alguns irracionalmente, outros dissimulados. Os que não são não existem. Os livros de autoajuda denominam isso de “conquista”. Mas o homem é simples, burro e pernicioso. Seu interesse é apenas um só: sexo. Alguns sublimaram esse desejo, mas é por medo de não exercer fascínio sobre mulher alguma. São mansos e dóceis, como um pequeno hamster, servem para acariciar, elogiar, sentir a pureza e só.

Ana Maria foi se tornando confidente (falei que a estratégia daria certo). A cada porrada que Roberta me dava (muitas delas literalmente, nas ruas, no carro, na casa dela), eu corria para o cheiro de tangerina e escancarava meu ser. Sempre dizendo: eu a amo, mas está cada vez mais difícil aguentar essa pressão. Morava perto da escola. Em frente ao prédio havia uma praça. Ana Maria parava o carro ali e sempre que dava, voltávamos juntos da escola. Às vezes era um toque sem querer. Noutras um olhar que não era pra ter sido visto. Mas vem aquele calor, um arrepio na pele, um pau se avolumando.

– Quer subir bater papo?

Tá frio… Subimos. Três andares. O coração batendo forte. Comia ela a cada degrau. Beijava a boca carnuda em cada lance de escada. Chegamos.

– Nossa, quanto CDs você tem… E assim começou a conversa. Olhamos juntos as estantes de CDs. Pedi para que ela escolhesse algo. Põe Ramones que eu gosto, saiu uma voz rasgante, sexy, destruidora de famílias. Coloquei. Ela sentou-se no sofá. Sentei próximo. Fomos falando da vida. Veio aquele calor. Comecei a olhar bem firme para os olhos de Ana Maria. Ela sorriu. Fui pra cima. Um beijo longo e carnudo. Um deslizar de línguas. Uma boca molhada e aquele cheiro de tangerina (que não sai mais de mim, mas que também nunca mais senti em outra boca). E continuou a cena. Foram beijos mais quentes. Foi um desafogo duplo. Uma sensação de desfalecimento naquele torso tão alvo. Eram mãos que se apertavam. Carreguei-a para meu colo. Acariciei suas costas tão deliciosas. Passei levemente as mãos pelos seios. Seios que iriam me dar tanto prazer e tanta dor. Ela movimentava o corpo como num ensaio do sexo. Parecia uma cobra pegajosa, insinuando-se em “esses”, úmida, tensa e saborosa. Apertei as coxas. Coxas de atleta, repletas de músculos e carne por baixo do jeans. Escutava os gemidos que não existiam. Joguei minhas mãos nas nádegas voluptuosas. Era uma delícia sentir aquela mulher por inteiro. Um beijo que não acabava mais. Uma parada apenas para respirar. Uma necessidade de não mais respirar. Abri a calça dela, coloquei as mãos sobre a buceta, estava molhada demais. Sentir aquele caldo sobre as mãos era quase terminal. O pau estourava pela calça. Ana Maria segurou com força. Quase gozei ali. Fomos ficando mais excitados, menos vestidos. As mãos, as línguas, os corpos se encontrando.

-Pára! Levantei correndo. – Não posso fazer isso. Eu estou comprometido. Não é justo com Roberta.

Ana Maria ficou estática, de calcinha e sutiã. Desprotegida, fragilizada, revoltada, desprezada, irada a me fitar. O corpo se cobriu rapidamente, envergonhada pela morte. Silêncio. Um sepulcral silêncio das bocas e olhos. Restava só o cheiro da tangerina misturado ao caldo em meus dedos.

– Vou embora.

Com um olhar de ódio e de que nunca mais iria me ver.

– Eu desço com você, argumentei.

Levei-a até o carro. Dei um beijo no rosto. Tudo era frio. A rua, Ana Maria, o olhar, o despedir. No dia seguinte fui a São Paulo. Encontrei Roberta no apartamento que eu alugara para ela poder fazer a Faculdade de Veterinária. Chegou seca. Fomos ao programa tradicional de irmos até um shopping qualquer, jantar e assistir algum filme. Víamos pelo menos dois por semana. Fizemos um diário crítico dos filmes. Passou dos 200 anotados. Virou pó, como Fernanda. Como o amor. Naquele dia senti um vazio ao lado dela. Primeiro porque Ana Maria estava em minhas entranhas, segundo pelo motivo de que Roberta parecia não gostar mais de mim. Não me lembro mais o nome do filme. Era uma comédia romântica. Como sempre um triângulo amoroso. Um cara casado dá carona pra uma mulher irritante. Nem preciso falar, eles foram feitos um para o outro. O cara separa da esposa e no final fica com a irritante. Fiquei branco no começo do filme. A moça da carona chamava Anne. Puta que o pariu, é castigo divino. Ainda bem que nessa época Roberta, afastada, tinha parado de pôr a mão no meu pau quando aparecia mulher gostosa e seminua em filmes, apenas para saber se eu ficava excitado. Depois de uns tapas no rosto em meio às sessões de cinema, aprendi a olhar para os cenários nas extremidades da tela e não fitar na beldade.

Foi uma noite mais fria do que a anterior, da despedida com Ana Maria. Estava assim há tempos. Os sinais estavam colocados. O fim estava próximo. Fui embora na manhã seguinte, pensando em tangerinas. Procurei Ana Maria. O desprezo foi total. Bosta, pensei, perdi a oportunidade. Tinha que ser fiel? O que ganharia com isso? A vida eterna? Anjinhos cantando amém nas noites solitárias? Nada, apenas a frustração e o arrependimento.

O frio passou, era setembro. Aos poucos Ana Maria foi cedendo. Um dia voltamos juntos novamente. Não toquei no assunto. Ela entrou no carrinho (um Fiat 147) e me convidou:

-Vamos conversar mais um pouco.

Pouca conversa, o calor voltou. Foram beijos quentes como da outra vez. No carro pequeno o aroma de tangerina ocupou todos os cantos. Ah, que paixão doida. Dessa vez foi ela quem pediu pra ir embora.

-Você ainda gosta da Roberta?

– Serei sincero com você, gosto sim. Mas estou gostando cada vez mais de você.

– Não dá, Frederico. Eu estou apaixonada por você. Não vou dividi-lo com ninguém. Prefiro me afastar.

Dessa vez doeu bastante. Um relacionamento de três anos e pouco caminhando para o fim, um amor que insistia em não me deixar e bem ali defronte dos meus olhos uma paixão sem fim. Um gosto que se desfaz. Ana Maria se foi mais uma vez. Pensei que precisava encerrar as coisas com Roberta, mas o coração não estava pronto ainda. Foram semanas de conversas com Ana Maria, olhares, pedidos silenciosos, mas sempre com respostas evasivas. Um amor sem sentido de um lado, uma paixão pronta pra escancarar o peito do outro.

Certa noite, estava em casa descansando. Um filme terrível na televisão. Nada a pensar. Começa a chuva. Primeiro veio fina. Depois foi engrossando. Os ventos ficaram mais e mais fortes, os raios caíam perto, o barulho era ensurdecedor. Morava no último andar. Fui à sacada e vi a tempestade. Crescendo, assustando, derrubando árvores. A luz se foi, agora era apenas a escuridão em toda a cidade (foi uma pane no país todo aquele dia, 9h sem energia em São Paulo). Acendi velas e fiquei vendo a destruição pela janela da sala. As ruas estavam alagadas. O caos de sempre nas cidades. Escutei batidas na porta. Assustei.

-Quem está aí?

– Sou eu, Ana Maria. O porteiro me reconheceu e me deixou entrar.

Abri a porta. Ana estava encharcada dos pés a cabeça. Uma blusa branca, os seios duros sob o tecido, os cabelos totalmente molhados, uma cara de desespero. Sim, era o filme de Hitchcok, “Vertigo”. Um corpo que cai no Brasil. James Stewart segue uma mulher maravilhosa pelas ruas de São Francisco e a vê se atirando na baía. Mergulha na água, resgata Kim Novak e a leva para sua casa. Ali os dois têm uma cena tórrida de paixão, sem sexo, só as sutilezas do gênio Hitchcock. Uma roupa que seca na lareira. Um conhaque que aquece. Olhares e a certeza da femme fatale inesquecível, mesmo que ela morresse. Ana Maria ali era a minha Kim Novak, morena, cheirando a tangerina, com um olhar sedento.

-Espera que eu vou pegar uma toalha. E fui ao quarto comendo-a em meus pensamentos. A mulher dos sonhos, os lábios deliciosos. Voltei, Ana Maria ainda estava na porta. Fui até ela, entreguei a toalha, ela me olhou. O silêncio mais imbecil de minha vida. Nada falei. Medo? Desespero? Dúvida? Não sei. Sei que apenas fiquei ali por instantes, eternos em minha vida, quieto, esperando não sei o quê. Ela me olhou pela última vez e falou:

– Posso levar a toalha?

– Sim.

Nada, nem um convite para ela entrar, nem uma puxada leve pelos braços e uma fala de “venha tomar um banho enquanto eu te faço um café quente”. Só o mundo estático. O fim de tudo. Ana Maria foi se virando e dizendo até amanhã. Olhei e a vi descendo as escadas. Não gritei, não corri. Sufoquei o desejo por fidelidade sem sentido, por um amor que já não dava mais sentido à vida. Fechei a porta da casa e ao ouvir o barulho do trinco sabia que havia trancado Ana Maria pra sempre do lado de fora. Não tive coragem de ir pra sacada e observar ela desaparecendo nas ruas escuras e úmidas da cidade. Sentei na sala e fiquei olhando para a vela acesa por horas.

Alguns dias depois Ana Maria continuou conversando comigo. Devolveu-me a toalha com um suave odor de tangerina. E a esperança. Triste sonho, pois a tempestade se fora. Nunca mais aquele sorriso, nunca mais aquela boca, nunca mais o odor de tangerina. Uns poucos meses depois subi as escadas da escola e vi Ana Maria agarrada com um aluno, beijos cruéis e carnais à minha vista. Dilacerou. Ela se apaixonara por alguém que estava só. Na mesma época, descobri que Roberta estava apaixonada por outra mulher. Era uma paixão de meses, antes até de eu beijar Ana Maria pela primeira vez.

Um dia, consegui me separar dela. Corri até a escola contar tudo para Ana Maria. Ela estava com uma blusa branca, com umas presilhas coloridas no cabelo negro como a noite e todo cacheado, na sala um cheiro de tangerina. Descrevi a história de como fui traído. Ela olhou pra mim e disse:

-Nossa, coitado hein.

Abaixou os olhos e voltou a trabalhar. Silenciosa, distante, fria e desinteressada. O tempo da tangerina se fora, restara o amargo gosto de não ter vivido.

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