Visões do Paraíso: a obra única de Sérgio Buarque de Holanda

FREDERICO MORIARTY

Cultura material e cultura: a análise fundadora de Sérgio Buarque de Holanda Edição: HOLANDA, Sérgio Buarque. Visão do paraíso. 6ªed. São Paulo, Brasiliense.1994.

O texto de Sérgio Buarque de Holanda em sua época

O período histórico em que o livro veio à tona é de grandes transformações no Brasil e no mundo. Num certo sentido, o autor vivia numa época de transição, o velho sendo substituído pelo novo. Mas, seguindo seu entendimento dialético, um período onde as contradições estão se opondo com maior intensidade, sem desaparecer o passado, nem se fixar como totalidade o presente. O outono da sociedade rural brasileira e a primavera do mundo urbano, numa brincadeira com Huizinga. O final dos anos 50 é o outono, na esfera global, do pós-guerra (generalização inconcebível dentro duma conceituação de longa duração). Assim nasciam movimentos culturais como a “geração beat”, a música negra e country norte-americana (conhecida como rock’n’roll), a luta pelos direitos civis (a questão dos negros), o movimento feminista e o “baby boom” populacional, fruto de uma nova ‘era dourada’ do capitalismo. Paralelamente a isso, nosso país também atravessava um período de descobertas e transformações econômicas, culturais e ambientais. Trata-se da ascensão de Juscelino Kubistcheck e seu lema ‘cinquenta anos em cinco’. Período onde a internacionalização da economia brasileira se acelera. Novos ‘caminhos e fronteiras’ são abertos com a construção de Brasília. Um país que começa a se imaginar como uma terra de possibilidades, mental e economicamente falando. O homem com complexo de inferioridade tão grande ‘ques eria capaz de ser atropelado por um carrinho de Chicabon’, na famosa frase criada numa crônica de Nelson Rodrigues, começa a se desfazer para dar lugar às mudanças (sintomático que no esporte, o país consiga vitórias importantes). Porém, ainda não é um homem pronto para a modernidade dos tempos. O brasileiro patina em passos inseguros de quem ainda não sabe para aonde vai. Sérgio Buarque de Holanda nos faz olhar para além-mar, para um Portugal com um ranço colonizador, autoritário e atrasado economicamente, governado pelo ditador Eliseo Salazar. Um pé que não desgruda do passado.

O livro Visão do Paraíso foi publicado pela primeira vez como tese para o concurso de cátedra na Faculdade de Filosofia da USP em 1959. Obra engendrada com extrema erudição e fluidez verbal, empurra-nos a descortinar passo a passo o caminho intelectual percorrido por Sérgio Buarque de Holanda, tarefa árdua, porém gratificante. Com nítida clareza nos resta um desconsolo: quão distante se encontra nosso entendimento dessa obra completa, uma das mais importante de toda a História brasileira ( e quiçá uma das mais importantes do pensamento cultural do país). Sérgio Buarque de Holanda constrói com perfeição um “processo histórico que envolve a interação assídua e alternativa de fatores sociais, econômicos, políticos, culturais, ora preponderando um, ora outro, conforme as vicissitudes de uma conjuntura histórica específica”.[1]

Fugindo das esquematizações e das generalizações tradicionais em história, ele procura compreender o passado interligando os nós dessa rede com o presente, sem cair na tentação de resolver as agruras deste pela demonstração daquele. Ao contrário, Sérgio Buarque de Holanda, procura exorcizar os demônios do passado e do presente (pois é um homem aferrado a seu tempo e dele não pretendeu se afastar, como bem atesta sua biografia), aproximando-o da Psicologia freudiana ao libertar os “escorpiões encalacrados”(parafraseando Davi Arrigucci Jr.) de nossa História.

Análise geral da obra

Prefácio de Sérgio Buarque de Holanda à segunda edição(1968)

No prefácio à segunda edição, o próprio autor vai delinear as motivações centrais de seu texto. Tenta levantar as distinções entre o processo de ocupação da América inglesa da América espanhola e a partir destas, a da colonização portuguesa, para melhor entender a formação brasileira. Segundo ele, na inglesa foi se construindo a ideia de “selva e deserto”(wilderness), ou seja, um horto fechado a ser “propriamente colonizada” (p.XXIV). A ideia de uma fronteira móvel, pois o Paraíso deve ser construído pelos homens, um pensamento que empurra a ação, ao trabalho, a filosofia calvinista de um trabalho que purificasse os homens. Ao contrário, na América espanhola e portuguesa, o Paraíso estava dado, esperando generosamente sua conquista. A história da conquista deste mundo edênico, cujo: “(…)tema (…) é a biografia de uma dessas idéias migratórias, tal como se desenvolveu a partir das origens religiosas ou míticas(…), até vir implantar-se no espaço latino-americano, mormente no Brasil…” (p.XVIII). Nesse sentido, “os topoi, inseparáveis das descrições medievais do Éden” (p.XVIII), são essenciais para o entendimento do caminhar em direção à conquista. Sérgio Buarque de Holanda, abre uma reserva para um dos temas recorrentes em toda a obra, “as atenuações plausíveis”, ou seja, um certo desbotamento do caráter maravilhoso por parte do homem português, muito mais aferrado ao passado do que a tradicional historiografia costuma admitir. O espanhol deslumbrara-se com o que vira; o português, pragmaticamente, utilizara-se dos ‘bons ares e boas terras’. Aquele, dialeticamente, superou o pensamento medieval, este, ao contrário, aferrou-se nele.

Capítulo 1 – Experiência e fantasia

Este capítulo trata da dubiedade entre a razão e o ideal. O português, antes de ser um homem moderno, racional é repleto de um universo mental arcaico. A motivação que o leva a preponderância marítima no período colonial está muito mais no pragmatismo (no adaptar-se com facilidade às novas situações, por sobrevivência e não racionalização):

“Muito mais do que as especulações ou os desvairados sonhos é a experiência imediata o que tende a reger a noção do mundo desses escritores e marinheiros, e é como se as coisas só existissem verdadeiramente a partir dela…”(p.5).

É a experiência prática e não a obsessão pelo maravilhoso, condutora da colonização espanhola, que empurrava o português para a conquista. Estes:

“Podiam admitir o maravilhoso, e admitiam-no até debom grado, mas só enquanto se achassem na órbita de seu saber empírico.”(p.5)

Apesar desse “tosco realismo”, os portugueses foram capazes de “(…)inaugurar novos caminhos ao pensamento científico, no alvorecer dos tempos modernos, pelo simples fato de terem desterrado alguns velhos estorvos ao seu progresso.”(p.11). Foi essa possibilidade de acesso a verdade, talvez a maior contribuição portuguesa aos descobrimentos.

Capítulo 2 – Terras incógnitas

A tópica da Visão do Paraíso dentro da América espanhola é tratada neste capítulo. Paulatinamente, Sérgio Buarque de Holanda vai demonstrando o quanto as motivações existiam antes e foram fortalecidas no pós-descobrimento. Toda essa mitologia (fonte da juventude, as amazonas, as ilhas femininas), se filia aos motivos edênicos. Essa nomeação dos mitos permitiam aos espanhóis que pudessem prosseguir em sua conquista, pois:

“Graças a tais informações, que lisonjeavam de uma parte a imaginação destemperada dos conquistadores, e de outra, a sua cobiça dos bons terrenos, achava firmado sobre fundamentos duradouro o mito das amazonas.(…)”(p.29).

Outra tese importante do capítulo é acerca da longevidade e da mobilidade dos mitos edênicos, confirmado pelo relato da permanência e da variedade de lugares onde eram encontrados os mitos do Eldorado e das Amazonas, filiando, desta forma, o texto a perspectiva da longa duração de Fernand Braudel.

Capítulo 3 – Peças e pedras

O capítulo trata das peças da terra (os índios) e das pedras (ouro e a prata). A existência de grandes jazidas minerais no Potosí peruano, por si só, seriam suficientes para empurrar o colonizador para o interior, porém essas fantásticas descrições não ocorriam do lado português. Ficava apenas, o maravilhoso e o imaginário de uma terra dourada e reluzente. O caminho buscado pela Coroa portuguesa era o dos entrepostos comerciais litorâneos. A maior mobilidade dos paulistas teria sido fundamental para um desenvolvimento ‘a posteriori’ da província. Nesse sentido, adiantando os estudos de John Manuel Monteiro ( Negros da Terra. 1993), Sérgio Buarque de Holanda relata o papel essencial dos ‘negros da terra’:

“Nem a existência de minas de ouro verdadeiras, ainda que de pouco haver, nem as suspeitas ou esperanças de prata e esmeraldas, pareciam prometer tão bom sucesso quanto que alcançavam as correrias dos preadores de índios.(…)”(p57).

O paulista, teve uma maior abertura para o lado fantástico da colonização e isto  foi facilitado pelo contato e a mestiçagem com o indígena (a verdadeira mina de riquezas do Brasil). Procurou mais o sertão do que o litoral. Aí, o autor de aproxima de Capistrano de Abreu (mais ainda do que em sua obra anterior sobre os paulistas, “Caminhos e fronteiras”, de 1957), ao buscar os tortuosos caminhos dos rios e do interior do país.

Capítulo 4 – O “outro Peru”

O imaginário dos conquistadores estava impregnado da Geografia fantástica do Peru. Essa “exagerada inflação do território do Peru”(p.93), permite aos navegantes e conquistadores a elaboração do pensamento analógico, fundamental para o processo da conquista da América lusitana, ou seja, foi somente pelas alegorias criadas em torno dos diamantes, das esmeraldas, do ouro e da prata e por meio das explicações ‘racionais’ de como na mesma latitude geográfica encontramos a região do rio São Francisco a das minas do Peru (não deixando de lado as explicações mitológicas, como a do rio do Paraíso). A preação de índios, por sua vez, seria o principal motor da conquista e nesse sentido, o paulista, o mais amoldado ao universo mental da colonização, seja por explorar essa mão-de-obra, seja pela sua capacidade de se maravilhar mais com o mito dourado (a busca do ‘outro Peru’), ou ainda pela sua grande facilidade em penetrar pelo interior do país (colonizando e não conquistando, e dessa forma, assemelhando-se ao colono da Nova Inglaterra). Foi somente a partir da descoberta das Minas Gerais que a Coroa portuguesa se volta mais para a Colônia. Até então, os portugueses permaneciam a “arranhar a costa como caranguejos, sem se alargarem sertão adentro mais que dez léguas(…)”(p.104). Mesmo o paulista, buscava aqui não o Brasil, mas sim o ‘outro Peru’. Essa rápida adesão à realidade, pode parecer num primeiro momento, uma característica moderna do português, desnuda muito mais:

“(…) seu realismo é, de fato, tributário de sua credulidade, que constitui propriamente uma forma de radical docilidade ou passividade ante o real. Não há verdadeiramente nesse realismo uma negação dos infinitos possíveis da Natureza, nem evidentemente, do sobrenatural, por mais que o afetem de preferência as formas mais visíveis, palpáveis ou apenas serviçais que oferece o mundo. O sobrenatural preserva, para eles, seus eternos direitos. Não chega, por isso, a ser um verdadeiro e excitante problema, como o for a para o humanismo do seu tempo, e nem era um problema falso, como o é hoje para os positivismos.”(p.105)

Esse fatalismo, alheio a curiosidade, pelo verdadeiro ‘fastio de portentos e prodígios’, essa incapacidade em olhar além do mito é que conduziu a conquista lusitana, um ideal pragmático e de pilhagem da costa brasileira.

Capítulo 5 – Um mito luso-brasileiro

O mito de São Tomé é o único mito originalmente lusitano. Sérgio Buarque de Holanda vai buscar as similaridades desse mito no Oriente. Ao mostrar o quanto ele foi alterado e transformado dentro da colônia e associá-lo ao Sumé nativo, os portugueses podiam apresentar uma solução concreta para a escravização dos gentios, a apostasia. Um mito que aprendia e apreendia com a conquista, na inversão sutil que o conquistador vai fazendo com o mito de São Tomé, o português consegue uma explicação moral para a servidão e diferencia-se, profundamente, da colonização espanhola:

“ (…) o próprio resgate e escravidão dos índios americanos, assim como o de negros africanos, que os portugueses, mesmo os jesuítas portugueses, foram naturalmente menos solícitos em combater com razões teológicas do que os numerosos autores castelhanos, a começar por Vitória e Las Casas, poderiam ser praticados, nessas condições, sem excessivo escrúpulo. Pois uma vez admitida a pregação universal do Evangelho, tenderiam por força a alargar-se as possibilidades de guerra justa contra os povos primitivos, equiparados, agora, não a simples gentios, ignorantes da verdade revelada, mas aos apóstatas.”(p.129)

Como esse mito se apresenta muito mais simples e menos elaborado que os mitos espanhóis, o autor tece um paralelo entre as distinções entre os universos mentais dos dois povos ibéricos: dando clara desvantagem para o primeiro.

Capítulo 6 – As atenuações plausíveis

Este é talvez um dos capítulos centrais do texto. O autor busca “(…) que todo o mundo lendário busca (…) antes o adelgaçar-se, descolorir-se, ofuscar-se, desde que se penetra na América lusitana.”(p.130). Levanta que a Coroa absorve e disciplina as vontades individuais, deixando pouco lugar para a fantasia. O amadurecimento rápido de Portugal, deixaram o país não à frente do seu tempo, mas exatamente por isso, com os pés içados no passado. O maravilhoso depende muito mais das descrições alheias, que dos frutos da imaginação portuguesa, fato bem relatado na comparação dos textos de Acuña e Vasconcelos feita por Sérgio Buarque de Holanda. O português não se sentia animado a:

“(…)fabricar espectros e visões, mas porque um consenso universal e imemorial, que dava a esses fantasmas a força das evidências, já os acostumara a contar com eles.”(p.144).

A imagem do real para o português só se faz visível, por meio da fantasia, de um espírito barroco, mais literário que literal. O que queria o português era, em verdade, a construção de ‘um outro Portugal’. Interessante notar que Chico Buarque, um dos maiores letristas de nossa música popular escreve uma música nos anos 70 de título “Fado tropical”. O cantador-personagem declara-se à amada em forma de um lamento triste, utilizando as belezas naturais do Brasil como metáforas. No estribilho dialoga inconscientemente talvez com o pai historiador: “ Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal. Ainda vai se tornar um imenso Portugal…”. O universo mental dos Seiscentos estava repleto do cortejo mágico e do resplendor das minas preciosas, tornando natural e inevitável essa transformação do Brasil num outro Portugal, ou mesmo num outro Peru (trechos alterados da página 147).

“Se o prodígio pode, assim, implantar-se no espetáculo quotidiano, se até os atos e fatos mais comezinhos chegam a converter-se em signos ou parábolas, impregnando-se de significações sobrenaturais, que dizer das coisas ocultas ou invisíveis, que apenas se deixam anunciar por misteriosos indícios?”(p.147).

Capítulo 7 – Paraíso perdido

O mito da realidade física do Éden, também foi retratado por navegadores, cartógrafos e escritores. Ao Éden bíblico correspondia um “Paraíso pagão”. As explicações ‘científicas’ para a localização do Paraíso (como a discussão sobre a cadeia do Atlas no norte da África). Assim como a harmonia entre todos os viventes no Éden, se perde pelo pecado, o Novo Mundo será também aos poucos era consumido pelo pecado: “Deste colhiam-se a princípio sessenta por um, mas como a terra se fosse deteriorando com o contínuo uso…”(p.153). Relata a resistência dos portugueses em aceitar “qualquer assimilação entre um mito do paganismo e a verdade revelada.”(p.159). A mitologia cristã vai se deixando, aos poucos, impregnar pelo mundo maravilhoso que vai surgindo, e o português deixa de ser um homem de sua época para se apegar ao passado. A ideia da paisagem amena, da terra sem frio nem calor, de uma terra sem mal, essa:

“(…) transladação para o Atlântico de tão miríficos cenários, já prenunciadas com as tradições pagãs das Ilhas Afortunadas, ou do jardim das Hespérides, e por elas de algum modo fertilizadas, já ganham alento por sua vez quando passaram a engastar-se na mitologia céltica(…) dando como resultado várias obras que alcançaram vasta popularidade durante a Idade Média(…)”(p.172).

Segue mostrando a importância dos topônimos para o entendimento dos mitos e por extensão de todo o universo mental impregnado por eles. Mostra a relativização das culturas (citando inclusive o estudo de Joseph Campbell, o maior especialista em Mitos nos Estados Unidos, autor do Heroi das mila faces), difereniando-se da visão ainda hierarquizada encontrada em “Casa grande & senzala”, de Gilberto Freyre. Revela que mesmo quando a novelística descreve a alegria dos pícaros, a utiliza para relativizar esse mundo do maravilhoso, preserva o cenário estereotipado da mesma. Muitos vão também encontrar dificuldades em superar esse universo mental, simplesmente por ver, num certo sentido, realizada as imagens paradisíacas no além-mar (como nos casos das folhas sempre verdes, do canto dos rouxinóis e das plantas frutíferas). Chegam a adotar até mesmo discurso da negação para confirmar aquele espetáculo que os olhos insistiam em ver (p.183). O espírito dos Seiscentos é enfim impregnado dessa:

“(…) psicose do maravilhoso não se impunha só a singeleza e credulidade da gente popular. A ideia de que o outro lado do Mar Oceano se acharia, se não o verdadeiro Paraíso Terreal, sem dúvida um símile em tudo digno dele, perseguia, com pequenas diferenças , a todos os espíritos.”(p.184)

Capítulo 8 – Visão do paraíso

O Paraíso terrestre é uma terra sem corrupção, deixando os homens repletos de um imaginário nostálgico de uma idade do ouro perdida. Sérgio Buarque de Holanda procura neste capítulo as respostas para as motivações (dos homens dos Seiscentos) que levaram a essa queda. O Paraíso, segundo eles, seria inatingível para os homens, ou somente possível a custa de esforços sobre-humanos e heroicos (aproximando-se dos mitos clássicos). O renascimento traduzia essa condição num Humanismo, ou seja, “Não é num futuro póstumo, ou fora do mundo, mas na própria vida de todos os dias que a condição humana há de encontrar sua razão de ser…”(p.188). Porém, Sérgio Buarque apresenta suas atenuações:

“É nesses momentos situados na infância, tanto quanto na agonia, de uma era de otimismo, que iremos deparar com expressões indecisas entre a do abatimento da criatura e da sua exaltação. O velho sentimento da miséria do homem e de decrepitude da natureza pode agora aliar-se ao de um mundo quase independente das potências celestiais ou a de um Céu quase indiferente às contingências terrenas.”(pp.188-189)

Ou seja, no momento de transição encontramos uma diversidade de explicações para a nova realidade que se apresenta, ainda carregada nas pegadas do passado (ou exorcizamos este ou nos deixamos levar pelo saudosismo, como talvez teriam feito os portugueses no entender do autor). Existe agora a necessidade de se descobrir um ‘como se deveria viver’ e não mais ‘um como se vive’. É o ‘dever ser’ do homem, viver os seus paraísos, dentro daqueles mundos irreais para a realidade ainda nublada que lhes oferecem as terras incógnitas e remotas’(p.190). O universo mental começa a retratar a senilidade, a degradação, o declínio do gênero humano. Entre o libertar-se do mundo medieval e adaptar-se ao mundo mais humano do Renascimento, o espírito português se aferra mais àquele, aprisionando-se no temor e no pessimismo (e não no ceticismo, essencial para o pensamento científico). O mito da serpente serve bem para ilustrar a longevidade e o caráter multívoco português. A valorização humana da Reforma faz Portugal acirrar o:

 “… culto íntimo, individual, desadornado, que nunca cessaria de impor-se desde então, ainda quando por vias travessas e subterrâneas, e que, sem embargo da Contrarreforma, acabaria por influir apreciavelmente sobre a própria vida católica, nasce a desconfiança e a incompreensão com que os homens de hoje tendemos a encarar um aparente aviltamento do espiritual, que, para vencer, precisaria baixar a planície humana.”(p.203)

A terra necessitava desses mitos e monstros, mesmo que se fosse impossível e crível sua existência, pois:

“… Desaparecendo esses monstros, a Terra, obra incomparável de Deus, empobrecia-se, por outro lado, da infinita variedade de formas que eram um instrumento de sua força e sabedoria”(p.207).

A motivação dos navegantes nestas terras era muito mais uma defesa contra a incredulidade, o despeito e a maledicência. A imagem de um Novo Mundo, imaculado e, portanto, livre de perigos foi se construindo aos poucos dentro do imaginário europeu e , no caso específico português, objetivava um : “…articular-se um misto de cobiça, de piedosa devoção e imaginação desvairada, que domina quase sempre o ânimo dos conquistadores…”(p.211).

Nesse sentido, o autor demonstra como toda a natureza americana foi se impregnando dessa atmosfera dourada e imaculada ao relatar as associações entre os mitos edênicos e a natureza da terra descoberta, como foram os casos do papagaio, da jiboia, do maracujá, da flor-da-paixão, do louva-a-deus, do camaleão e aí importa o caráter ambíguo dos signos e significados (os hieróglifos, como ele chama), as coisas são metáforas e signos, que possuem vários significados, desde a explicação mítica ou poética ( das alegorias e metáforas barrocas), até as coisas retratando o próprio objeto. O pensamento renascentista ainda permanece ligado ao passado, no sentido em que não vai além do objeto, explica-o de formas diversas, nem sempre superando o universo mental do maravilhoso de que é depositário, somente no século XVIII, o homem irá além do mito. Para os portugueses, o mito faz parte da realidade, enquanto que para os espíritos modernos ela apenas é uma ferramenta para se explicar a mesma. Ou como diria Roberto da Matta: “o português via, mas não enxergava”. O capítulo continua a descrição de bichos e plantas que permitem a associação entre esta terra e o Paraíso. Relata a importância das formigas (metáfora do burguês), do elefante(fidelidade), ou seja, começa a deixar mais claro o que ele entende por enxergar as coisas por trás e além do mito. Ao contrário, o português insiste nas metáforas visíveis, para reforçar o temor, o aquilo que se pode ver, um enevoar-se dos sentidos, bem claros nas citações de Padre Antônio Vieira, usando os exemplos da figura do Ecce Homo e da fruta do ananás, o ver é mais importante que o ouvir. Os nomes voltam a ser destacados ( Ananás viria de Anna nascitur), e sempre também lembrando que o autor persiste nas atenuações plausíveis ( o descolorimento dessas crenças). Não bastava somente apresentar o Velho numa nova roupagem, mas sim de opô-lo ao Novo. Dessa forma, os motivos edênicos foram lentamente sendo refratados pelos portugueses como bem ilustra o texto a seguir:

“Não eram, em verdade, as frutas, era o que a simples aparência delas pudesse dissimular: seus secretos significados e seu hieróglifo misterioso(…) não lhe importava tanto o vê-las com os olhos ou o apalpá-las com a mão, queria, sim, ver e sentir apesar dos olhos e as mãos.”(p.243).

Capítulo 9 – Voltando a Matusalém

Encontramos na nota 2 deste capítulo uma das chaves do pensamento que norteou boa parte do trabalho de Sérgio Buarque de Holanda: “De qualquer modo, esse problema da autenticidade não nos interessa aqui, mas apenas o da repercussão das ideias …”. Verdadeiros ou não, críveis ou não, o essencial era perceber que as ideias e mitos estavam impregnando os homens de colônia. Relata o mito da longevidade dos naturais de uma forma sutil e elegante. Conclui que apesar de se tratarem de erros de interpretações, demonstrando exemplos para todos os historiadores de como se deve portar diante de uma fonte histórica, filtrando sua origem mas percebendo a permanência de suas ideias dentro do imaginário da época, ou seja, as coisas são como os homens de sua época as descrevem e não cabe a nós corrigi-las a posteriori. Mostra que um dos fatores desta inexatidão seriam as diferenças culturais entre os povos e as mais variadas épocas históricas, obrigando-nos a relativizar o tema, sem deixarmo-nos, entretanto, de revelar os equívocos.

Capítulo 10 – O mundo sem mal e Capítulo 11 – Non ibi aestus

Discutem o mito de que estas terras eram um lugar de clima ‘nem quente, nem frio’, ressaltando a importância do clima e, por consequência de toda a Geografia para os estudos históricos. Essa terra de clima ameno se torna um elemento importante para a purificação do mal, pois é um locus amoenus, e puro. Os navegantes europeus que aqui aportavam eram curados de toda a moléstia. Assim, depois de explicar em várias páginas as relações entre o escorbuto, a alimentação não saudável e a mitologia da laranja e do limão para a cura, o que era um ponto de início para o futuro desenvolvimento das ciências médicas, demonstra que para o português, ao contrário, tinha pouco significado esse maravilhoso como forma de se explicar instrumentalmente as doenças ( o mítico e o mágico são o pano de fundo para a evolução científica) e significava muito mais o maravilhoso da Terra amena, pura e imaculada, portanto inacessível ao conhecimento do homem, que “Esse desmoronar-se de uma sabedoria tradicional, reduzida agora à proporção de ‘muitas ignorâncias’…”(p.288)

Capítulo 12 – América Portuguesa e Índias de Castela

Esse é o capítulo que conclui e amarra o estudo de Sérgio Buarque de Holanda. A primeira conclusão é que o navegador, o descobridor e o aventureiro vem buscar aqui e não raro encontra um cenário ideal para suas crenças e mitologias ou mesmo, saus nostalgias ancestrais.

O “estar à frente” do povo português, longe de significar um avanço, foi um retrocesso para esse povo deixar o espírito arcaizante de lado. Portugal construiu na América um Estado de entrepostos comerciais, uma rota para o enriquecimento da Coroa, o imaginário edênico foi apenas parte limitadora dessa conquista, por outro lado, a Espanha procurou edificar na América espanhola as bases sólidas de um Império, também repleta dessa mesma utensilagem mental da Visão do Paraíso. Dentro dos topoi,

“(…) para os filósofos descobrir (invenire) como sinônimo de ‘tomar posse de’ (occupare)(…) entre os juristas (…) só descobrimos de fato aquilo que tivermos adquirido (adepti): o contrário significa a mesma coisa que abandonar (perdere).”(p.321).

Outra ideia que aparece, é a do individualismo espanhol, típico de uma empresa privada, questão que não ocorreu do lado português. O espírito do capitalismo está na capacidade do arbítrio individual; em Portugal este arbítrio estava nas mãos da Coroa, facilitando a ocupação do litoral no Brasil, enquanto que na América espanhola, o investimento privado empurrava o homem para o sertão e para os rios, o que nos permite fazer um paralelo com o homem paulista. Outra questão importante para a distinção e vantagem espanholas foi a descentralização e carência de unidade nacional em seu país em oposição a centralização excessiva e prematura portuguesa, tão decantada pelos historiadores como boa para o país. O autor credita o arcaísmo português a esta característica. Apesar disso, Holanda encerra de maneira profética que teremos também nossos Eldorados: “A procissão dos milagres há de continuar assim através de todo o período colonial, e não a interromperá a Independência, sequer, ou a República.”

Conclusão

O texto brilhante de Sérgio Buarque de Holanda insere a historiografia brasileira escrita na década de 50 no que há de mais fecundo em todo o Ocidente. Longe de acreditar que o texto não possui erros ou passagens discutíveis, seja do ponto de vista filosófico, literário ou histórico, mas citando o próprio autor, o historiador é um homem de seu tempo e os rearranjos e as alterações que vierem depois dele devem ser incorporadas e não desprezadas, ou desprezar-se o que ficou. A construção da História de forma a seguir os passos do universo mental dos Seiscentos, até mesmo, com a tentativa de levar ao extremo de construir uma obra literária ao estilo da época, transformam Visão do paraíso numa das obras mais importante de toda a História cultural do país e, como tal, em muitos pontos ainda incompreensível e desconhecida para muitos. Servindo esta afirmação muito mais como um desafio num esforço em retornar a leitura, divulgar a obra, para quem sabe um dia atingir a terra ‘sem calor nem frio’.


[1] (WHITE, Hayden. Metahistory. In: DIAS, Maria Odila L.da Silva,Sérgio Buarque de Holanda, historiador. São Paulo, Editora Ática, 1989.Coleção Grandes Cientistas Sociais, volume 51, p. 18).

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