Crise hídrica no rio Sorocaba e Itupararanga é resultado de desmatamentos, queimadas e uso indevido de água e terra

Sandra Nascimento

As poucas chuvas da última temporada (setembro e outubro) confirmaram a crise hídrica prevista para este ano. Com os desmatamentos, queimadas e o uso indevido de bens comuns, como água e terra, a triste realidade se estendeu por todo país e chegou ao rio Sorocaba.

Tal consequência pode ser confirmada pelos baixos níveis da represa de Itupararanga, já muito próximos do volume morto. Volume morto ou reserva técnica de água é o volume que fica abaixo dos canos de captação, na parte mais profunda das represas, nele acumulam-se sedimentos que podem deteriorar a qualidade da água, principalmente se remexidos.

Formada pelos rios que dão origem ao rio Sorocaba (Sorocabuçu, Sorocamirim e Una) e por vários córregos e nascentes que deslizam pela Serra de São Francisco, em Votorantim, a represa de Itupararanga foi criada para gerar energia, mas, com o tempo, tornou-se o principal manancial de fornecimento de água para quase 1 milhão de pessoas na região de Sorocaba.   

“A situação atual do reservatório é de 21% de sua capacidade”, informou, em entrevista a este blog, o professor André Cordeiro Alves dos Santos, do Centro de Ciências Humanas e Biológicas da UFSCar e vice-presidente do Comitê de Bacias Hidrográficas do Rio Sorocaba e Médio-Tietê.

Com capacidade para armazenar um pouco mais de 195 milhões de metros cúbicos, o volume do reservatório varia em função das estações e do uso que se faz da água: “Para chegar à situação atual de 21%, além de uma menor entrada em volume de chuvas, houve uma maior saída para geração de energia”, explicou o professor.

Por sua vez, a Votorantim Energia, empresa responsável pela gestão da represa de Itupararanga, argumentou: “Diante da falta de chuva, resultado da pior seca que vive o país nos últimos 91 anos, foram implementadas, desde agosto deste ano, um novo conjunto de medidas deliberadas pelo Comitê de Bacias (CBH-SMT), que estabelecem, de forma emergencial e excepcional, regras operacionais que deverão permanecer ativas até que o volume útil do reservatório alcance 50% de sua capacidade.” (Leia abaixo a íntegra do comunicado.)

Em períodos anteriores, após temporadas de chuvas, a média de volume de água no reservatório costumava ser de mais de 40%. Com o atual ritmo de devastação e o mal uso da água, o prognóstico para um futuro próximo não é nada bom, advertiu André Cordeiro: “Sendo otimista, se nada for feito, em no máximo 30 anos não teremos água em condições de ser tratada e distribuída à população. No cenário mais pessimista, chegaríamos nesta situação em cerca de 10 anos.”

A atual situação de Itupararanga

A represa, a barragem, a vegetação…

Íntegra da entrevista com o professor André Cordeiro

Quanto de água pode ser armazenada na represa de Itupararanga? E qual seria a média normal?

O volume total do reservatório é de um pouco mais de 195 milhões de metros cúbicos, mas este volume varia em função da sazonalidade e do uso. Utilizamos como parâmetro a chamada média histórica (ou Média de Longo Termo). Em anos anteriores, no final do período de chuva (setembro – outubro), estávamos com mais de 40% do volume do reservatório. Para chegar à situação atual de 21% houve, além de uma menor entrada (volume de chuvas menor), uma maior saída (geração de energia).

Qual é o volume de água que temos hoje? (21/10/2021)

Estes 21% equivalem a um pouco menos de 42 milhões de metros cúbicos de água.

Que tipo de resíduos e produtos estão no volume morto?

Há poucas informações sobre a composição do sedimento do reservatório, mas o que sabemos é que há uma grande quantidade do fósforo que pode aumentar significativamente a eutrofização* e reduzir a qualidade da água, e como a bacia tem uma grande produção agrícola é bem possível, na verdade provável, a presença de agrotóxicos que podem chegar no sistema de abastecimento. Estudos da Unesp de Sorocaba indicaram que há toxicidade no sedimento do reservatório; o método utilizado não consegue determinar o causador da toxicidade, mas indica a preocupação.

* Processo – natural ou provocado por atividades humanas – no qual o aumento de nutrientes da água causa um acúmulo de algas e matéria orgânica decomposta. 

Quais são os principais problemas que afetam a bacia do rio Sorocaba?

São diversos os problemas:

– Poluição difusa das cidades e áreas agrícolas e poluição pontual de esgoto. Na cabeceira, predomina a agricultura de hortaliças, que utiliza diversos tipos de agrotóxicos e tem ciclos curtos, o que acarreta o carreamento de solo e fertilizantes, além de agrotóxicos para os rios formadores e o reservatório. Somado a isso, dos oito municípios da bacia do alto Sorocaba, somente três têm tratamento de esgoto, na área urbana. Boa parte do território é composto por áreas rurais e pequenas comunidades que não contam com nenhum tipo de tratamento de esgoto. Mesmo no médio Sorocaba, apesar dos municípios coletarem parte do esgoto e tratá-lo, ainda há muita carga orgânica que vai para os rios.

– Uso e ocupação do solo na bacia, aprovação de empreendimentos habitacionais sem infraestrutura adequada de saneamento e sem compatibilizar o crescimento urbano aos recursos naturais existentes. Retirada da vegetação natural de Áreas de Preservação Permanente – APPs (beira do rio e topo de morros), impermeabilização do solo que aumenta a enxurrada e as enchentes no período de chuva e reduz a recarga das nascentes que garantem a água nos rios no período de escassez.

– A gestão da barragem de Itupararanga voltada a geração de energia (e lucro) da Votorantim Energia (VE) que sucedeu a CBA na operação da barragem. Desde 2017 a VE tem gerado mais energia no início do período de chuva, quando o preço da energia está mais alto. Esta geração rebaixa o volume do reservatório que entra no período de estiagem do ano seguinte mais baixo, não sendo recuperado pelo período de chuva subsequente. A redução do volume, além de reduzir as possibilidades de uso, diminui a qualidade da água, pois uma coluna de água menor aumenta a probabilidade da mistura pelo vento e a mistura do sedimento (onde fica a maior parte dos nutrientes e agrotóxicos) com a água que vai para abastecimento.

“Mesmo no médio Sorocaba, apesar dos municípios coletarem parte do esgoto e tratá-lo, ainda há muita carga orgânica que vai para os rios.”

Quais as principais relações entre queimadas, desmatamentos e crise hídrica?

As queimadas e a supressão de vegetação retiram um mecanismo de manutenção de água no ambiente, reduzem a evapotranspiração da vegetação (responsável pela manutenção das nuvens de chuva) e reduzem também a penetração de água e recarga dos lençóis freáticos que serão o sustento dos rios no período de estiagem. Os dois fenômenos juntos são responsáveis pela redução do volume e da reserva de água nos ambientes. No caso do Brasil, o efeito do desmatamento e queimada na região Norte afeta muito o regime de chuvas no Sudeste dependente da água que é jogada para a atmosfera na Amazônia.

Alguns estudos e noticiários informam que, por meio dos rios voadores, a Amazônia é responsável por 70% das chuvas no estado de SP. Com os desmatamentos e queimadas, neste ano teremos menos chuva. Se houver uma política consequente entre governos e comunidade, quanto tempo a natureza pode levar para recuperar áreas devastadas (como Amazônia, Mata Atlântica e Pantanal)?

A recuperação é complicada; é muito mais fácil conservar que recuperar. Se deixada sem nenhuma ação, a floresta pode levar até 100 anos para se recuperar, ou pode não se recuperar totalmente. Muitos estudos indicam que áreas de floresta desmatadas ou incendiadas constantemente se transformam em cerrado (muito mais seco) e podem nunca mais evoluírem para uma floresta tropical, num processo de savanização* da floresta. Com a ação humana promovendo o plantio de espécies nativas e com mecanismos de manutenção e controle de plantas invasoras é possível reduzir este tempo pela metade, mas a custo de muitos recursos e mão de obra.

* Processo de transformação de uma vegetação natural (como uma floresta tropical ou equatorial) em uma área cuja paisagem assemelha-se às savanas africanas ou um campo ralo com árvores espaçadas.

O que interfere mais na diminuição do volume de água de Itupararanga, o desmatamento da Amazônia ou o que ocorre em torno da represa, como a destruição dos olhos d’água e plantios florestais?

São duas situações complementares. A redução de chuva acaba deixando transparecer um problema já crônico na bacia, que é a ocupação do território sem se preocupar com os ciclos da natureza. Sem o aumento da estiagem produzida pela redução de chuvas, talvez demorássemos mais para perceber os efeitos deletérios da ocupação do território. O Comitê de Bacia tem alertado para este problema desde sua inauguração em 1995. Esta preocupação levou à criação da APA Itupararanga em 1998, nosso plano de bacia já revisto três vezes. A última, em 2017, tem alertado para a situação de escassez hídrica (demanda maior que a disponibilidade) na bacia do Rio Sorocaba há mais de 20 anos, mas nada disso foi suficiente para que os municípios repensassem seu modelo de desenvolvimento fundamentado na expansão das áreas de ocupação. Muito disso está relacionado ao verdadeiro poder político da grande maioria das cidades do interior, que fica nas mãos dos grandes proprietários de terras mais interessados na especulação e no lucro que no real desenvolvimento das cidades e das pessoas que moram nelas. Este poder político acaba, infelizmente, se sobrepondo ao interesse público, cooptando as estruturas e governos municipais que abrem mão de suas ferramentas de gestão de território para garantir o lucro de poucos.

Se continuar no atual ritmo de devastação, qual é o seu prognóstico para Itupararanga?

Em 2019, o grupo de pesquisa que faço parte junto com a USP de São Carlos, utilizando um modelo matemático que incluía uso e ocupação do solo na bacia, operação da barragem e mudanças climáticas, já previa o esvaziamento do reservatório de Itupararanga nesta década de 20. A realidade foi muito mais rápida. Outros modelos de qualidade indicam que, em condições normais (sem a redução do volume observado hoje), até 2030 teríamos uma qualidade de água muito ruim demandando mais investimento e aumentando o custo de tratamento para Sorocaba e Votorantim e, se nada fosse feito até 2050, teríamos uma água em condições semelhantes às do Reservatório de Guarapiranga ou Salto Grande (em Americana), que torna quase impossível garantir qualidade da água tratada distribuída para a população. Estamos neste momento trabalhando para juntar estes dois modelos (qualidade e quantidade) e as perspectivas, como era de esperar, não são nada boas, podendo adiantar a situação prevista para 2050 em 15 a 20 anos. Sendo otimista, se nada for feito, em no máximo 30 anos não teremos água em condições de ser tratada e distribuída à população. No cenário mais pessimista, chegaríamos nesta situação em cerca de 10 anos.

Íntegra do comunicado da Votorantim Energia

Procurada para responder sobre as questões que envolvem a empresa, a Votorantim Energia se posicionou por meio do seguinte comunicado:

“A Votorantim Energia, gestora da Usina Hidrelétrica de Itupararanga, reafirma que as operações do reservatório estão voltadas prioritariamente ao atendimento do abastecimento de água da região de Sorocaba e à vazão natural do Rio Sorocaba.

Visando a preservação do reservatório, desde a segunda quinzena de dezembro do ano passado, a empresa se antecipou e já diminuiu a geração de energia, mantendo apenas uma das quatro unidades geradoras em operação. Dessa forma, passou a liberar somente a vazão sanitária (mínimo permitido pelo órgão regulador). 

Diante da falta de chuva, resultado da pior seca que vive o país nos últimos 91 anos, neste ano foram implementadas, desde 11 de agosto, um novo conjunto de medidas deliberadas pelo Comitê de Bacias Hidrográficas de Sorocaba e Médio Tietê  (CBH-SMT), que estabelecem, de forma emergencial e excepcional, regras operacionais que deverão permanecer ativas até que o volume útil do reservatório alcance 50% de sua capacidade. Entre elas, a adoção do nível de 817,50 m (21,23% do volume útil), como o mínimo operacional do reservatório e a redução da vazão defluente, o que foi feito progressivamente, conforme deliberações do CBH-SMT nas reuniões subsequentes nos meses de setembro e outubro de 2021. 

Atualmente, a UHE Itupararanga opera com vazão de 3,0m³/s e o nível do seu reservatório encontra-se na cota de 817,64 msnm*, equivalente a 22,12% do volume útil. 

A companhia reforça seu respeito à prevalência do interesse público e  ressalta  que  seguirá colaborando e acatando as determinações do Comitê.”

* Metros Sobre o Nível do Mar (msnm) é uma unidade de altitude, padrão de medida do sistema métrico para descrever a elevação de uma localização da Terra em relação ao nível médio do mar.


“Penso que os homens deste lugar são a continuação destas águas.

Manoel de Barros (1916 – 2014)


Itupararanga em tempo de cheia.

A represa, a barragem, a vegetação…

(Imagens de 4 de fevereiro de 2010)


Referências: ecologia.ib.usp.br/, Wikipédia, Votorantim Energia (Assessoria de Imprensa). Fotos: Sandra Nascimento e José Otávio Finessi


Todos os agradecimentos ao professor André Cordeiro, pela entrevista; e ao seu Aristides Porfírio Gomes (nosso tio), por nos acompanhar na viagem a Itupararanga para fotos e filmagens.

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