O Natal de Miudinho

Capítulo I

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – Miudinho, um garoto que vivia na rua e era tão pequeno como indicava o apelido, atravessou a ponte e tomou o rumo do centro da cidade.
Gostava de andar de um lugar para outro nessa época do ano. Havia mais gente na rua, tanta gente que as pessoas se atropelavam. Carregavam sacolas, olhavam vitrines, iam e voltavam, subiam e desciam escadas, entravam e saíam das lojas, comparavam preços e produtos.
As criaturas ficavam mais solidárias nesses dias que antecediam o Natal e Miudinho era beneficiado porque nesse período essa gente lhe dava mais atenção.
Quem não gostava dele eram os seguranças. Habitualmente era expulso quando entrava numa loja. A bermuda de um amarelo desbotado, a camiseta branca e amassada, os chinelos de dedo, tudo nele era suspeito aos olhos dos seguranças. Tinham medo de que ele cometesse furtos dentro da loja. Sua intenção era receber doações, mas ninguém acreditava.
Ficou deslumbrado com a decoração na praça em frente à principal rua da área comercial. Mais do que as figuras das renas, do Papai Noel e da grande árvore de Natal, o que o atraía era o contraste das cores fortes em meio ao domínio do vermelho, do branco, do verde, do amarelo.
O saco de brinquedos nas costas do Papai Noel era uma atração à parte. Aproximou-se do velhinho de roupa vermelha e barba branca, recebeu um afago de mão na cabeça e um punhado de balas. Por um instante pensou no quanto devia ser sofrido usar a roupa quente de Papai Noel no calor da manhã de dezembro. Sem nada a dizer, afastou-se e entrou na rua do comércio.
No interior da lanchonete localizada no início da rua, dirigiu-se a uma senhora com jeito de avó e pediu que ela lhe pagasse um pão de queijo e café com leite. A mulher reagiu com olhar indiferente, fez um gesto de proteção à bolsa e o ignorou.
Miudinho deixou a lanchonete. Habituado à indiferença do mundo, não se importava mais com reações como a da senhora com cara de avó. Nem todas as criaturas eram solidárias no Natal.

A rua era um calçadão destinado só aos pedestres. Miudinho encantou-se com os ambulantes que vendiam brinquedos expostos em toalhas no chão e em caixas de madeira. O ruído de vozes fazia o espaço parecer uma Torre de Babel. Todos queriam gritar mais do que o outro no esforço de anunciar preços e mercadorias. Os gritos eram a alma do negócio na disputa pelo cliente.
Um ambulante tinha o gorro do Papai Noel na cabeça. Nem todos vendiam brinquedos. Havia redes, panos de cozinha, meias, camisetas, garrafas de água.
Identificou dois outros meninos que, como ele, também viviam na rua. Passou por eles, mas não se falaram. Conhecia-os de vista.
Entrou numa grande loja de brinquedos. Gostava do corredor que exibia uma farta coleção de bonecos que representavam os super-heróis da televisão. Estavam lá o Batman, Superman, Aquaman, Incrível Hulk, Homem-Aranha.
Os olhos de Miudinho brilhavam diante dos super-heróis. Desejava muito ter o poder deles. Queria ter a força para combater o mal e proteger os fracos. Sabia que tudo isso era fantasia, mas sentia prazer em se imaginar forte e corajoso.
Com as mãos, examinou vários super-heróis, acionou dispositivos que geravam ruídos, curtiu detalhes dos brinquedos. Desta vez, não foi escorraçado pelos seguranças.
Devolveu os brinquedos às prateleiras e saiu da loja disposto a tentar a sorte com o pão de queijo e o café com leite em outra lanchonete. A manhã avançava e ainda não havia posto nenhum alimento na boca. As balas do Papai Noel não enganavam a vontade de comer.
No calçadão, misturou-se de novo aos ambulantes. De repente, alguém gritou: “Olha o rapa!” E homens e mulheres com mercadorias nas costas começaram a correr. Um deles reclamou: “O que é isso? Não deixam a gente trabalhar.”
Miudinho correu também. Os fiscais se aproximavam em grupo, escoltados por guardas armados, e Miudinho não queria encrenca. Correu para a praça, onde os ambulantes se refugiaram. Depois, pediu dinheiro no semáforo de uma rua próxima, mas não conseguiu nenhum trocado. E nessas idas e vindas lá se foi mais um dia na existência do menino.

Capítulo II

Quando chegou a noite, Miudinho ainda estava na praça central da cidade. Era a hora que ele mais gostava. As luzes da árvore de Natal se acendiam. Outras luzes iluminavam as renas, o trenó, e o vermelho da roupa do Papai Noel adquiria tonalidades diferentes. Os efeitos da iluminação faziam parecer que um mundo encantado se abria aos olhos de Miudinho e ele ficava maravilhado.
Vieram famílias, outros meninos e meninas na companhia dos pais e dos irmãos, trocavam impressões sobre a beleza da iluminação. Nessa noite havia uma atração a mais, um presépio, que não fazia parte do cenário até a noite anterior. Um sistema de som começou a tocar músicas natalinas que falavam de paz, amor, fé, esperança. Um coral de jovens iniciou uma apresentação. A praça era como uma paisagem feita para a contemplação e o equilíbrio espiritual.
Sentado no degrau mais alto da pérgula na praça, Miudinho observava o cenário como um espectador atento. Viu que as pessoas acompanhavam as músicas cantando junto com o coral. De repente, ele começou a cantar também. Nesse instante já não era mais só um observador, mas um participante da comunhão movida pelo espírito de Natal.
Mas não ousou se aproximar da multidão. Seria um atrevimento. A experiência com os seguranças, que o obrigavam a se retirar do interior das lojas, era como uma advertência. Sabia que não era desejado próximo à maioria das pessoas. Desconfiava que sua presença incomodava muita gente. Achavam que ele ia pedir dinheiro e tinham razão. Nesses momentos, a presença dele ativava no povo uma consciência interior, uma certa culpa, uma responsabilidade que ninguém queria ter. Não sabiam o que fazer com ele. E tudo isso o deixava tímido.
Não queria incomodar ninguém com o seu olhar de desamparo e o cheiro de quem não tinha o hábito de tomar banho porque vivia e dormia nas ruas. Tinha receio de que as pessoas se obrigassem a se afastar se ele se aproximasse. Isso acontecia às vezes e ele ficava triste, constrangido, sem saber o que fazer. Por isso se manteve à distância.
Miudinho não teve família. Não sabia o que era ter pai, mãe, irmãos, tios, avós. Desde que era capaz de ter recordações, as primeiras marcas da existência eram os anos passados num abrigo de crianças abandonadas.
No abrigo começou a ser alfabetizado. O maior prazer eram as brincadeiras e os jogos de futsal. Havia alimentação, dormitório coletivo e, quando alguém ficava doente, era conduzido ao posto de saúde.
Tudo mudou quando um circo se instalou na vizinhança do abrigo. Miudinho escapava para assistir aos espetáculos. No dia em que o circo se mudou, embarcou como clandestino num dos caminhões de mudança e assim fugiu do abrigo.
No instante em que o dono do circo o descobriu, quando aportou em outra cidade, disse que ia entregá-lo aos cuidados de autoridades judiciais. Sem saber o que seria isso, sem fazer ideia de qual destino o esperava, o garoto ficou assustado. Não queria voltar para o abrigo. Temia represália. E mesmo que tentasse voltar, não tinha coordenadas de localização. Então fugiu do circo e ganhou as ruas.
Não sabia quanto tempo tinha se passado. Era uma criança alheia ao tempo e a qualquer ideia de identidade. Nem ao menos sabia exatamente quantos anos tinha. Sete, oito, nove anos, quem sabe. Sem documentos, não conhecia outros detalhes de sua identidade. Nem a cidade onde nascera. Com poucos anos de vida, era como se não tivesse passado anterior aos tempos do abrigo.
Ainda bem que essas coisas de identidade não importavam, não eram motivo de angústia. As pessoas sentem falta do que tiveram e perderam. E como ele nunca teve vínculos com pessoas próximas, passava a gostar de qualquer indivíduo que lhe desse pão de queijo e café com leite pela manhã. Qualquer estranho que lhe desse alguma atenção era visto por ele como um pai ou uma mãe.
Mas a rua era uma escola de lições e ele aprendera que nem todas as pessoas eram boas. Havia gente muito má, disposta a crueldades, principalmente com as crianças. Ele conhecia histórias terríveis de crianças que tinham sido castigadas por gente ruim. Na cidade que parecia uma selva de pedra, meninos como ele eram como passarinhos desprotegidos e podiam ser devorados pelas feras.
Agora, na praça abençoada pelo espírito de Natal, sentia-se seguro e em paz. A fome que o consumira durante o dia havia desaparecido. O espetáculo de luzes o fazia feliz.

Capítulo III

Depois que terminou a celebração de paz e harmonia entre a multidão de pessoas na praça iluminada, Miudinho descobriu-se só outra vez. Perto da meia-noite, bateu o sono e ele deitou-se junto à árvore de Natal. Logo dormiu e começou a ter uma sucessão de sonhos.
Sonhou que entrava numa linda casa que se destacava pela fachada toda iluminada com as luzes de Natal. Numa sala espaçosa, crianças circulavam em torno de um homem vestido de Papai Noel. Havia uma mesa cheia de presentes em embrulhos coloridos. Canções de Natal vinham de caixas de som.
Em outro canto da sala, uma enorme árvore de Natal se perfilava como a dar as boas-vindas a Miudinho e aos outros visitantes. Palavras soltas, sorrisos abertos, gestos suaves, leveza nos abraços e apertos de mão. Diferenças esquecidas, tristezas sepultadas, contradições suspensas até segunda ordem.
Miudinho entrou num corredor que ligava a sala a uma cozinha nos fundos da casa e lá viu um grupo de pessoas ocupadas com os últimos preparativos da ceia de Natal. O cardápio era farto e cheio de delícias. A dona da casa, devidamente paramentada como chefe de toda a organização, exibia uma felicidade sem limite. Todos os familiares e amigos queridos estavam reunidos, todos com saúde, todos em sintonia com o espírito de Natal, e isso era o que importava.
Pela primeira vez, Miudinho sentiu-se bem por ser tratado com atenção. Todos o cumprimentavam, alguns o abraçavam e o convidavam para a mesa. Não reconhecia nenhum dos rostos que se dirigiam a ele com sorrisos e palavras de carinho. Nenhuma criatura o empurrava como faziam os seguranças nas lojas de brinquedos.
Sentou-se e começou a comer e tomar suco e refrigerante. Comeu e bebeu tanto que se lambuzou. Depois vieram as guloseimas de todo tipo. Bolos, doces, sorvetes, frutas secas. Era a sua primeira ceia de Natal e ele estava dominado por um sentimento de alegria indescritível.
Depois, sonhou que caminhava por uma alameda pontilhada de luzes coloridas de ambos os lados. À medida que dava passos em ritmo moderado, tinha a impressão de que não fazia nenhum esforço. Era como se levitasse. Não sabia qual era o seu destino. A alameda fazia curvas e a visibilidade em certos pontos ficava prejudicada por uma névoa úmida. Estava tranquilo. Aonde quer que o caminho o levasse, sentia que coisas boas o esperavam.
Os sonhos possuem a força de milagres. Em outro sonho, Miudinho estava novamente na praça iluminada e ocupada por muita gente. Agora, ao contrário da noite de celebração que havia contemplado à distância, estava no meio da multidão. Havia tomado banho, vestia roupas limpas e o estômago não roncava de fome. Desta vez, não era um ser diferente. Sentia-se uma criança igual às outras, embora não tivesse família. Era como se toda a multidão fosse a sua família. E cantou as músicas natalinas com a sensação de que a paz traduzida em versos e melodia não era só uma coisa abstrata, mas uma experiência vivida.
De repente, sem entender o que acontecia, também sonhou que logo se transformava em um passarinho que voava para bem longe, talvez para o infinito da existência. A criança que era até então tinha se transformado em corpo e alma de passarinho. Teve a sensação de que todas as suas necessidades estavam atendidas e nada lhe faltava nessa hora feliz.
Na manhã seguinte, quando o dia clareou e as primeiras pessoas começaram a cruzar a praça nos movimentos iniciais de mais um dia na Terra, a cidade foi despertada com a notícia de que um pequeno menino foi encontrado morto junto à árvore de Natal. Socorristas que atestaram o óbito disseram que a causa da morte pode ter sido um conjunto de carências ligadas à fome.

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