Teodora e Martha, duas das mais importantes Basilissas da história

FREDERICO MORIARTY – “Do púrpura se faz a mais fina mortalha”, disse Teodora em 532 d.C., nas tribunas do hipódromo de Constantinopla. Um pouco antes, seu marido Justiniano declarara que a biga Nika (ou Niké) era a vencedora da corrida. As corridas de biga no mundo antigo foram o que mais se aproximou das disputas futebolísticas séculos depois. Eram praticadas na Grécia, Roma, Egito, Pérsia e Bizâncio. Cavalos, ursos e outros animais puxavam uma espécie de charrete individual, onde um condutor fazia as manobras correndo nas pistas ou arremessando ferozmente a biga sobre os oponentes.

Corrida de biga

No filme “Star Wars I”, o menino Anakim pilota uma biga voadora. Uma clara homenagem ao épico Ben Hur. O escravo representado por Charlton Heston conduz a biga de forma brilhante, enquanto Cristo é vilipendiado em outras terras. A corrida de Ben Hur é uma das cenas mais perfeitas em sua tensão no cinema.

cena clássica de Ben Hur

As arquibancadas eram divididas entre torcidas rivais, não só pelas equipes que apoiavam, mas nas suas origens sociais, econômicas e posicionamentos políticos. Durante muito tempo havia a equipe Branca (associada ao inverno) e a equipe vermelha (verão). As equipes possuíam de 3 a 6 bigas, todas elas enfeitadas com fitas das cores a que representavam (brancas ou vermelhas). A torcida levava bandeiras das cores que torciam, assim os brancos sentavam-se próximos uns aos outros, bem como os vermelhos. Cantavam hinos, gritavam em apoio aos condutores e vez ou outra brigavam com os adversários. Lembram as “torcidas organizadas ” atuais. No século IV em diante, as corridas sobreviveram apenas no Império Romano do Oriente. As cores agora eram o Azul (céu), as bigas apoiadas pelos imperadores, generais, grandes proprietários e classe alta. Os Verdes (representando a mãe terra) eram os times da plebe, dos que lutavam por direitos, dos trabalhadores pobres.

A região do hipódromo de Constantinopla
Retrato do hipódromo

O descontentamento com o governo de Justiniano era imenso. Recessão e impostos excessivos eram a maior reclamação. Aquela corrida de biga traria a vitória dos Verdes, pensava a massa no hipódromo, onde ocorria a competição. Mas Justiniano não aceitou. Considerou que a biga Azul terminara em primeiro. Após o anúncio, estourou a maior rebelião popular dos Bizantinos: a Revolta Nika. O povo tomou o hipódromo, nomeou um novo imperador e foi até as tribunas matar o casal real. Justiniano queria tomar duas atitudes: fugir ou abdicar. Teodora pos-se à frente e anunciou a resistência e o contra-ataque. Por isso a forte frase do início deste texto. A eles, reis e rainhas (a cor púrpura até hoje é a cor de monarcas e papas), não haveria outra escolha: lutar até a morte. Nos dias seguintes as tropas leais ao imperador foram recuperando território, até sufocar totalmente a rebelião. Teodora teria sugerido a punição: 30 mil rebeldes foram mortos.

Teodora. Wikipedia

Teodora (presente de Deus) era filha de um treinador de ursos para bigas. Foi atriz, dançarina e cortesã. Assim como na Grécia antiga, havia 3 categorias de prostitutas: as mais reles, formadas por escravas ou filhas abandonadas; aquelas que eram livres e podiam exercer a atividade nas ruas, buscar clientes e, por último, uma elite de mulheres que frequentavam palácios, casas ricas ou templos. Estas podiam estudar, dividir as mesas com homens, dialogar e expor suas ideias. As cortesãs eram mais que prostitutas. São várias as histórias de proeminência dessas mulheres. Desde Sólon até Justiniano. A história pode ser construída com as mesmas fontes e documentos. Basta que um olhar metódico observe partes esquecidas do passado. Todos nós sabemos nomes e histórias de dezenas de imperadores, mas pouco sabemos ou escrevemos sobre faraós (gênero neutro), rainhas, czarinas, imperatriz e basilissas (a consorte do brasileiro ou imperador). Hatshepsut foi a mais importante faraó da história, assim como Cleópatra colocou o Império Romano de joelhos. Elizabeth a “virgem” contruiu a nação inglesa. Vitória tornou-se uma Era. No século XVIII, Catarina I, Ana, Isabel e Catarina II governaram quase 1 século. Teodora transformou Bizâncio em apenas 16 anos. Aos 22 anos casou-se com o rei da Líbia. Viveu 4 anos no Palácio e teve uma filha. Divorciou-se e migrou com o pai para o Oriente. Lá conheceu a religião cristã. Seguia o miafisismo. A crença central era de que Jesus Cristo era humano e divino, mas essas duas faces estavam unidas. Para a igreja católica, Jesus é humano e também divino, mas são naturezas distintas. Crucificado, o Deus humano morreu de tanto sofrer.

Justiniano e Teodora

Teodora será fiel até sua morte aos princípios e dogmas cristãos. Reformou dezenas de igrejas, deu aa bases de Hagia Santa Sofia. Construiu conventos para abrigar ex-prostitutas, devotas e mulheres abandonadas pela família. Procópio, historiador contemporâneo, autor de História Secreta e inimigo político de Justiniano fala de 500 prostitutas escravizadas à força para servir no convento. Sem provas, apenas um testemunho óbvio de um homem machista e opositor político. Na verdade, Teodora criou um convento cristão para a Metanoia (arrependimento) cristão. Foi ele também que inventou a alcunha preconceituosa de “Teodora dos prostíbulos”. Quando chegou ao trono bizantino, a basilissa já abandonara o trabalho de cortesã havia 12 anos. Casara-se com um rei, divorciara-se, tornara-se religiosa, fiandeira, até se casar com Justiniano.

Teodora não só liderou a reação contra a revolta Nika como governou o Império em conjunto com Justiniano. Reformaram quase uma centena de prédios públicos, revisaram as leis, compilaram o direito Romano com o Corpus Juris Civilis. Foi Teodora quem fez nascer o casamento “por amor” ao aprovar uma lei que proibia os casamentos impostos pela família dos nubentes. Nós seus 18 anos de governo, o Império do Oriente floresceu em paz. Manteve os costumes romanos, mas com um pé nos poderes da Igreja Católica; enquanto isso, Roma era um vilarejo rural de 30 mil habitantes e prédios abandonados. Morreu em 548 e segundo relatos, o motivo foi câncer de mama. Nada mais triste e feminino. Teodora é uma das maiores administradoras da história bizantina e um símbolo do machismo é seu esquecimento histórico. A famosa atriz do fin du siécle Sarah Bernhardt fez uma interpretação memorável da Imperatriz Teodora. Não há também lembranças dessa exibição, nem do texto que inspirou a peça. Agora se procurarmos “imperatriz e prostituta” em sítios de pesquisa, certamente aparecerá o nome de Teodora.

A mais bela mulher da idade média, Maria de Bragationi

“(…) ela era magra como um cipreste, sua pele era branca como a neve e, embora seu rosto não fosse um redondo perfeito, sua tez era exatamente como uma flor da primavera ou uma rosa. E que mortal poderia descrever o brilho de seus olhos? Suas sobrancelhas eram bem marcadas e vermelho-douradas, enquanto seus olhos eram azuis. Muitas mãos de pintores conseguiram imitar com sucesso as cores das várias flores que as estações trazem, mas a beleza desta rainha, o brilho de sua graça e o encanto e doçura de suas maneiras ultrapassaram qualquer descrição e toda arte.”

Assim a historiadora Ana Comnena descreveu a beleza de Maria (originária da Geórgia, a futura imperatriz bizantina se denominava Mart’a) Bragationi. De família nobre, conseguiu um excelente casamento com um dos três imperadores de Bizâncio no ano de 1066, Miguel VII da dinastia de Ducas. Apenas 12 anos depois, perante a fraqueza política do marido, Maria conspira contra ele e se aproxima de Nicéforo III de Botaniates. Este destrona Miguel, declara-se imperador e se casa com Maria, a alana, como era conhecida. Maria teve de elaborar uma estratégia nova para casar novamente, afinal Miguel estava preso num convento e ela não era viúva nem divorciada. Nicéforo também teve um governo breve. Maria passou a disputar um lugar no Império com sua ex-sogra, Eudóxia. A cartada final foi conseguir um casamento entre seu filho Constantino e a filha de Aleixo, Ana Comnena.

Maria, eterna imperatriz. Fonte: as mais incríveis mulheres da história

Aleixo I torna-se imperador, nomeia Constantino seu sucessor, mas alguns anos depois tem 2 filhos homens e revoga a decisão. Maria ainda luta pelo filho até 1078, quando Constantino falece precocemente. O que impressiona é que este trajeto durou 13 anos e Marta estava entre seus 12 e 25 anos. Uma estrategista que controlou 3 imperadores com argúcia e inteligência e uma juventude que lembra a capacidade intelectual de Lolita de Nabokov. Beleza e sedução utilizados de forma sagaz para obter condições melhores. No caso de Maria, tais objetivos eram o Império Romano do Oriente. A administração de Maria Bragationi foi elogiosa. Fez reformas nas leis e patrocinou as artes e cultura. Mas seus grandes feitos foram na parceria religiosa. Maria foi uma precursora da Cisma do Oriente que dividiu a Igreja Católica. Morreu próxima ao Palácio de causas naturais em 1103. Teodora e Maria governaram um Império que sobreviveu por mais de 1000 anos e deixou contribuições históricas e culturais exemplares. Governaram Bizâncio com 5 séculos de distância uma da outra com maestria, habilidade política e grande inteligência. São algumas das mulheres geniais propositadamente esquecidas pela história. Que se voltem às fontes e as coloquem no lugar merecido. Imperatrizes que mudaram o mundo.

Bandeira do Império Romano do Oriente

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