Ceticismo: a dúvida como garantia de tranquilidade

Marcello Fontes e Henrique Gonçalves de Paula*

O ceticismo é historicamente malvisto. Em diversas situações e circunstâncias, cético pode até representar um xingamento ou ofensa, pois irá referir-se àquele que não crê, desprovido de fé, associado à impiedade e amoralidade. O cético é visto pelo senso comum como um pessimista um tanto ranzinza, que se recusa a ter crenças como se isso fosse uma espécie de defeito ou mesmo falha moral grave. O novo testamento apresenta inclusive um personagem que se torna paradigma deste estigma vergonhoso: o discípulo Tomé, que teria afirmado a respeito da ali anunciada ressurreição de Jesus, segundo o relato do evangelho de João: “Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei” (João 20:25), seguido pela contundente fala atribuída a Jesus após tal verificação se dar: “Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram”. (João 20:29).

“A incredulidade de São Tomé” (1601-1602), pintura de Caravaggio (Imagem: Reprodução)

Entretanto, particularmente o cético filosófico não descrê ou duvida por birra ou mero cacoete implicante, mas por desejar ser sincero, uma vez que compreende a impossibilidade de uma verdade absoluta. E como veremos, essa postura não lhe traz nenhum desconforto ou inquietude; ao contrário, produz paz, sossego e tranquilidade. Também não é o ceticismo filosófico sinônimo de não virtuosidade, no sentido moral, pois é perfeitamente possível ser cético e respeitar tudo aquilo que determinada cultura, conjunto de leis ou até mesmo religiões afirmam como aceitável. Ceticismo não é necessariamente sinônimo de escândalo ou provocação, mas uma determinada postura diante da realidade e dos fenômenos, como veremos.

O ceticismo pode ser percebido como mais uma das peculiaridades e paradoxos da filosofia, afinal quem produziria de certo modo o seu contrário ou o que lhe coloca em xeque? Surgindo em meio à filosofia em momentos diversos de sua história, assim são, grosso modo, o ceticismo e os céticos, que já foram definidos pelo filósofo alemão Immanuel Kant como sendo “[…] essa espécie de nômades avessos a todo cultivo estável da terra, [que] romperam de tempos em tempos o acordo cívico”. Esse nomadismo destrutivo apontado por Kant ressalta justamente a característica mais temida pelos filósofos dogmáticos e mesmo críticos: o espraiamento da dúvida suplantando todo e qualquer sistema de ideias, sem um lugar próprio ou definido para se estabelecer.

Na verdade, o ceticismo poderia ser visto por alguns como uma espécie de “antifilosofia”, já que não planeja chegar a uma conclusão última e verdadeira sobre o que quer que seja, por justamente entender ser isto impossível, como veremos mais adiante. Mas esta seria uma visão parcial e ingênua, que considera equivocadamente o ceticismo apenas como uma forma de inação ou quietismo, apatia. O próprio termo ceticismo vem justamente do grego skepsis, que significa literalmente pesquisa, investigação. Ou seja, ser cético é continuar investigando permanentemente, justamente pela própria compreensão de que não será possível chegar-se a uma verdade absoluta inquestionável. Mas como e em que circunstâncias, afinal, o ceticismo surge?

A história das ideias em geral, sejam elas filosóficas, religiosas ou científicas, sempre evidenciaram algo que a muitos incomoda de diversas maneiras: o fato de que não existe, de modo permanente ou mesmo muito duradouro, um consenso em relação àquilo que se defende como verdade. Esse conflito das opiniões e verdades dos homens é tão antigo quanto se pode ter notícia da própria capacidade humana de as produzir ou emitir e já produziu como reação diversas formas de pensamento no qual, em maior ou menor grau, temos a presença de argumentos céticos, tais como relativismo, convencionalismo, construtivismo, antirrealismo, pragmatismo e subjetivismo.

O ser humano claramente tem necessidade de apegar-se à certezas, sejam elas de que tipos forem. Os dogmas nada mais são do que a demonstração empírica disso. A grande questão é justamente como lidar com dogmas que eventualmente se contrapõem, o que a história demonstra ocorrer com relativa frequência. No caso religioso, o defensor de um conjunto de dogmas sempre entenderá que eles são a verdade absoluta e revelada pelo divino, sendo qualquer outra coisa que deles destoe digna de ser rejeitada e mesmo combatida com veemência. Na história das ideias, a oposição de teses políticas, econômicas e sociais já geraram conflitos e mesmo guerras. A ciência de certo modo parece compreender um pouco melhor a precariedade e não absolutismo de suas teses, a partir de compreensões como a teoria das revoluções cientificas e o falsificacionismo, como já citamos no artigo Ciência e Dogmatismo .

No caso da filosofia, não poucos buscaram a construção de sistemas que acreditavam ser verdades filosóficas acabadas e irretocáveis. Mesmo quando alguns filósofos criticaram tais presunções, como por exemplo Aristóteles o fez na sua introdução da obra posteriormente denominada Metafísica, deixam claro que “trazem verdades”, para utilizar uma expressão muito recorrente hoje em dia, ou seja, enfim irão corrigir todo equívoco e confusão gerado pelas diversas filosofias anteriores.

Na História da Filosofia, os tais “nômades” irão vez por outra aparecer, para desgosto daqueles que os vêem como uma espécie de estraga-prazeres do fazer filosófico, tão afeito a afirmações definitivas e a produção de conceitos. Seria injusto colocá-los no mesmo balaio, como se costuma fazer com aqueles que guardam alguma similaridade em sua forma de pensar e recebem um carimbo intelectual que os une em mesmas partes de obras sobre história do pensamento (idealistas, empiristas, etc), pois encontramos posições céticas desde a antiguidade até a contemporaneidade, tendo em comum o fato de oferecerem motivos para atiçar e acender a dúvida acerca de grandes e volumosas crenças enraizadas na humanidade, mas com eventuais divergências entre si.

As origens gregas do Ceticismo

O ceticismo enquanto corrente ou escola filosófica se estabelece na Antiguidade no chamado período Helenístico da história grega, que se situa entre os séculos IV e II a.C. Este momento muito particular da cultura e sociedade helênicas se caracteriza pelo fim da liberdade política dos gregos que se encontram dominados pelo Império Macedônico, após as conquistas de Alexandre, o Grande. Três escolas filosóficas se sobressaem neste período: a cética, a epicurista e a estoica (falamos das escolas estoica e epicurista no artigo Felicidade e Helenismo). Elas têm em comum responder aos desafios das tribulações de seu tempo com uma mesma solução prática: o alcance da felicidade através de uma reforma da vida interior que molda de maneira adequada em um indivíduo sua atitude, seu pensamento e sua afetividade. As três escolas entendiam essa condição ideal como uma espécie de imperturbável paz da alma ou da mente, uma situação de tranquilidade, calma e serenidade inabaláveis. Os gregos tinham uma palavra para designar esse estado psíquico alcançável apenas pelos seres humanos dignos da alcunha de sábios: ataraxia – algo como “ausência de perturbações”.

Deste modo, os filósofos helenísticos pensavam que a finalidade de nossa existência seria o alcance da ataraxia e idealizavam o que seria o modo de vida que nos conduziria a ela ou mesmo a caracterizaria: os epicuristas adotaram o modelo de vida hedonista do cultivo da amizade e dos prazeres simples e moderados, os estoicos elegeram a via da resignação e da apatia, em sentidos muito peculiares, uma espécie de desapego do mundo exterior, enquanto que os céticos admitiam que a única via para o sossego da mente era a epoché, palavra grega que podemos traduzir com a expressão “suspensão do juízo”. Vejamos melhor o que isto quer dizer com o exemplo daquele que é considerado o primeiro cético da história: o filósofo Pirro da cidade de Élis ou Élida, cuja existência se situa aproximadamente entre 365 e 275 a.C.

Gravura imaginária do filósofo Pirro de Elis, do livro de 1580 Retratos ilustres de filósofos e sábios extraídos de suas moedas, de Girolamo Olgiati. Reimpresso em 1583.

Nada sabemos acerca de Pirro diretamente, pois, tal como Sócrates, que viveu antes dele, este pensador nada escreveu. São várias as fontes antigas a respeito de sua vida e pensamento, das quais podemos destacar: Tímon seu discípulo, considerado também seu porta-voz oficial, uma espécie de filósofo poeta; Diógenes Laércio, famoso doxógrafo da Antiguidade, um compilador de curiosidades acerca dos filósofos antigos; e Sexto Empírico, declarado continuador posterior do pensamento pirrônico, por si próprio filósofo de grande envergadura. Deste modo, tudo é muito inseguro quanto a Pirro, tanto porque dependemos de terceiros para saber sobre ele quanto porque parte destes que guardaram seu pensamento e se alçaram como seus representantes foram filósofos com seus próprios interesses e podem ter inserido no pensamento original do mestre muitos elementos a ele estranhos. Além do mais, a figura de Pirro já parecia suficientemente multifacetada e excêntrica aos antigos a ponto, até mesmo, de duvidarem de seu próprio ceticismo. Sabemos que o filósofo romano Cícero, por exemplo, caracterizava Pirro como um pensador dogmático e moralista. Para piorar, dados da biografia de Pirro apenas complicam a questão, como, por exemplo, o relato de que teria sido sumo sacerdote em sua cidade. Como pode um indivíduo ser ao mesmo tempo cético, de um lado, e moralista e religioso, de outro? Uma possível saída a este problema se encontra na correta interpretação da natureza do ceticismo pirrônico e suas consequências para a vida prática, como veremos.

De acordo com Tímon, Pirro afirmava que quem deseja ser feliz deve considerar três coisas: a natureza daquilo que existe; a atitude que devemos assumir a respeito disso; e o resultado desta atitude. Quanto ao primeiro problema, Pirro defendia que nada podemos saber acerca dos próprios seres existentes, a não ser o que nos parecem ser. Neste sentido, Tímon teria relatado acerca das conclusões pirrônicas que “o fenômeno domina tudo, em qualquer parte onde apareça” e que por esta razão quem quer que raciocine com Pirro não faria afirmações como “o mel é doce”, mas apenas que assim este lhe aparece. Ora, a palavra fenômeno, que vem do grego phainomenon, significa “aquilo que aparece”, “aquilo que se manifesta”. Segundo Pirro, é justamente este o limite de nossa apreensão do mundo – o que aparece a nós, o que se apresenta às nossas sensações; não há, no entanto, nenhuma razão para se pensar que a realidade em si mesma corresponda ao que nossos sentidos podem captar.

[…] as coisas são igualmente sem diferenças, sem estabilidade, indiscriminadas; portanto, nem as nossas sensações nem as nossas opiniões são verdadeiras ou falsas. Não devemos, portanto, dar-lhes credibilidade, mas ser sem opiniões, sem inclinações, sem sobressaltos, sobre cada coisa dizendo: “é não mais do que não é” ou “é e não é”, ou “nem é nem não é.

Fala atribuída a Pirro, segundo Tímon, aqui citado por Eusébio de Cesareia, em sua obra “Praeparatio Evangelica” (XIV, 18), segundo Emídio Spinelli em O Período Helenístico.

Que atitude seria, então, a mais razoável, se tudo se dá como pensa Pirro? A resposta é: acompanhar os fenômenos e suspender nosso juízo sobre aquilo que não se mostra a nós. O que isto quer dizer? Isto significa que o cético é alguém que não se engajará em debates sobre a essência das coisas, mas em sua vida prática não deixará de seguir o curso a que os fenômenos o conduzirem. Ora, Pirro era conhecedor dos debates dos filósofos anteriores e não ignorava que ao tentar desvendar a essência da realidade, os filósofos chegavam a conclusões diferentes, muitas vezes, contrárias e incompatíveis. Aliás, inclusive a respeito de nossos valores morais, garante Sexto Empírico, Pirro pensava desta maneira. Como pode existir um bem e um mal por natureza, se o bem e o mal não são as mesmas coisas para todos os homens? Basta lembrar, por exemplo, que para Epicuro o prazer era o bem, mas para Antístenes, filósofo cínico, era o mal… :

Pirro afirmava que nada é honroso ou vergonhoso, nada é justo ou injusto, e aplicava igualmente a todas as coisas o princípio de que nada existe realmente, sustentando que todos os atos humanos são determinados pelos hábitos e pelas convenções, pois cada coisa não é mais isto que aquilo.

Diógenes Laércio, em sua “Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres” (IX, 61)

Deste modo, se, como consagrou a fórmula que repetiriam seus discípulos, “nada é mais isso do que aquilo”, portanto, se não encontramos nenhum critério seguro para descobrir a verdade, a conclusão inescapável é a renúncia ao critério, pondera o helenista Giovanni Reale. Essa renúncia ao critério é, não obstante, a renúncia aos critérios estabelecidos pelos filósofos anteriores que defendiam teses e assim afirmavam crenças, filósofos que os céticos denominavam, por isso, “dogmáticos”. Em grego, “dogma” significa “crença”, “opinião”. O cético, nada afirmando sobre a realidade objetiva, nada definindo e não sentindo-se impelido a aderir a uma opinião mais do que à outra, sabendo que a cada discurso filosófico pode se opor outro de igual valor, e que cada sensação pode ser seguida por uma diferente acerca da mesma coisa, terá – como testemunha Diógenes Laércio – o “estado de ânimo da neutralidade”. Deste resultaria, tanto a “afasia” (atitude de quem nada diz, nada define com palavras) quanto a “ataraxia”, e nestas o cético moldaria seu modo de vida.

Mas esta atitude de “suspensão do juízo”, a “epoché” do cético, não levaria o filósofo à inação ou à inércia, como muitos críticos do ceticismo afirmaram? Nas fontes antigas abundam histórias que apontam para uma existência prática bastante excêntrica da parte de Pirro, dizendo que ele caminhava pela rua sem se desviar de buracos ou carroças, e que seus amigos é que o salvavam. Quando ao passear com um de seus discípulos, este caiu em um pântano, Pirro o teria ignorado e prosseguido como se nada tivesse acontecido. Para citar mais um caso, dizem que, certa feita, ao lavar sua casa, de modo indiferente lavou também seu porco doméstico. Tais histórias podem ser interpretadas tanto como anedotas produzidas pelos seus adversários para desqualificar sua filosofia como o próprio método de ensino de Pirro. O fundador do ceticismo, segundo esta interpretação, ensinava mais pelo exemplo e pela ação do que por palavras e proposições. E as ações são tanto mais eloquentes quanto mais exageradas.

 Ora, isto parece mesmo o mais adequado a um cético, a alguém que não possui, rigorosamente falando, uma doutrina. Quanto a isso, é especialmente significativa outra anedota a respeito de Pirro, esta também envolvendo um porquinho. Dizem que estava o filósofo, certa vez, em uma embarcação no meio de uma tempestade, e enquanto todos os presentes se apavoravam e se afligiam, Pirro permanecia tranquilo. Apontando a um porquinho ali presente que comia sua refeição ignorando o que acontecia ao seu redor, Pirro teria dito que ali estava o exemplo do que um sábio deve fazer. É evidente que esta atitude de apatia (ausência de emoções) de Pirro não poderia ser mais radical do que é possível a um ser humano. De fato, há também o relato de que o filósofo teria se irritado em certa ocasião com sua irmã e outro de que teria se agitado quando um cão o atacou. Sua resposta aos que o acusavam de incongruência com suas ideias era que é “difícil espoliar completamente o homem”.

O cético pirrônico, portanto, até onde é possível, não se agita, não se perturba, porque não acrescenta aos fenômenos nenhuma crença. Ele apenas segue os fenômenos, ou seja, sente frio e por isso busca abrigo, sente fome e por isso come, mas não acrescenta a isso nenhuma crença, como a de que o frio e a fome sejam males, ou a de que o abrigo e a comida sejam bens. Disto resultaria tanto a moderação das afecções que advém das necessidades – ora, o cético não deixa de ser um ser humano que sente – quanto a imperturbabilidade. É deste modo que, podemos dizer, que a “suspensão do juízo” – o não consentir que algo seja ou não seja determinada coisa – funda um modo de vida.

Quem opina que existe algo de bem ou de mal por natureza perturba-se todo, seja quando não possui o que considera bem, seja quando crê que está atormentado por coisas que, para ele, são males por natureza, seja quando vai ao encalço dos considerados bens. Conseguindo-os sofre maiores inquietações, porque se exalta mais do que a razão e a medida, e, temendo a mudança, para não perder o que considera bens, faz o impossível. Quem, ao invés, acha-se incerto a respeito da natureza do bem e do mal, de nada foge nem persegue com ardor, e por isso acha-se livre de inquietações.

Sexto Empírico em sua obra “Esboços Pirrônicos” (livro I, 25) (segundo Rodolfo Mondolfo, 1967, p.130)

O cético, portanto, permanece sendo atingido por toda sorte de acidentes da vida e da natureza, mas ao contrário de todos os outros indivíduos, não se abala por nada disso. No mínimo, ele sofre menos do que as pessoas comuns, pois estas sofrem tanto pelas afecções e necessidades quanto pela crença aflitiva de que estas são, de fato, males. A moderação se segue igualmente do fato de que não busca avidamente como um bem aquilo que as pessoas consideram como tal, resumindo-se sua atitude em acolher serenamente o que se lhe apresenta. Como bem coloca Reale, o sábio é alguém que sabe se colocar acima do que as pessoas consideram geralmente como os piores dos males – é alguém que não se prende, deste modo, à realidade ou natureza comumente atribuída a tais coisas. Sem se deixar arrastar, assim, pelas opiniões comuns e pelos sentimentos que geralmente as acompanham, o cético é alguém que cultiva a estabilidade interior, sem oscilações. O ideal de Pirro, afirmava Sexto Empírico, era o de uma “vida igualíssima” (“isotatos bíos”, em grego), que mesmo imperfeita, seus discípulos – como Tímon – chamavam de divina.

Mas, se na vida prática, o pirronismo não leva à inação, na vida intelectual tampouco o cético é alguém que desiste do pensamento. O cético pirrônico continua permanentemente na atividade indagadora e reflexiva, fazendo jus a seu nome – “cético” deriva de “skepsis”, palavra grega para investigação intelectual. Apenas não deixa de tudo duvidar, permanecendo firme na posição de não conceder o assentimento a nenhuma crença. Como afirma, notável intérprete brasileiro do ceticismo pirrônico, o professor Luiz Bicca, o equilíbrio do cético não está adquirido de uma vez por todas; daí a necessidade da reflexão contínua que garante a manutenção da dúvida, inclusive porque o próprio comprometimento com as crenças pode ser gerador de ansiedade e perturbação. O cético, portanto, se conserva em reflexão e investigação, para lutar contra o desejo de certezas, para reativar, assim, sua dúvida e novamente alcançar a ataraxia. O ceticismo pirrônico é um modo de vida, como dissemos, mas também, neste sentido, o trabalho de toda uma vida que encontra a felicidade em uma atitude de libertação – a libertação dos dogmas.

Gravura de moeda com efígie de Sexto Empírico

Por tudo o que escrevemos até o momento, podemos dizer que o cético pirrônico não é alguém que prega a discórdia ou a descrença, pois sua atitude intelectual se resume a afirmar a equivalência das crenças e o limite de nosso conhecimento – ele não defende mais a tese A do que a tese B. Tampouco, em sentido prático é aquele que se comporta de maneira rebelde ou chocante justificado pelo fato de que o bem e o mal não existem, pois, seguindo os fenômenos, ele pode se conformar plenamente aos costumes e às convenções do senso comum. Não deveríamos, então, nos admirar que Pirro tenha sido sumo sacerdote em sua cidade. O cético pirrônico não é nenhum arauto do niilismo que deseja o fim da moralidade ou da religião. Em última instância, ele não se preocupa com nada disso, o que o ajuda a ter a vida a mais moderada possível, e nesse sentido a mais próxima possível da virtude admirada pelas pessoas comuns. Não deveríamos, portanto, nos surpreender que Pirro tenha sido visto como um moralista por alguns intérpretes de seu pensamento.

Talvez, justamente neste ponto do desprendimento do cético pirrônico, neste distanciamento que aufere paz interior, possamos enxergar uma lição do pirronismo aos mundos atuais: a harmonia entre as pessoas não poderá jamais subsistir enquanto houver o apego exagerado às crenças religiosas que conduzem ao fanatismo produtor de guerras e segregação, aos posicionamentos políticos radicais que conduzem às polarizações e brigas desmedidas, às convenções morais que o tempo fez caducar, mas que ainda se convertem em perseguição e exclusão social, e aos preconceitos sedimentados de toda ordem que fomentam a eclosão contemporânea do fascismo.

O pirronismo nos ensina que a dúvida é saudável, e que não somente é possível viver com ela, mas também torná-la um modo de vida que conduz à paz e à felicidade. Mas conseguirá viver em dúvida ou mesmo conviver com a dúvida, a incerteza e a hesitação, uma sociedade marcada pelo ambiente das mídias sociais, em que o que mais importa é ter uma opinião a respeito de tudo, se pronunciar a respeito de todos os eventos, e condenar quem pensa o contrário? Menos dogmas, mais dúvidas, menos convicções, mais incertezas, é a receita, mas também o desafio do pirronismo.

Ceticismo na modernidade

Retrato de David Hume, de 1766. Óleo sobre tela de Allan Ramsey.

David Hume (1711-1776), filósofo escocês de origem iluminista e com vasta influência dentre seus pares, dentre os quais ninguém menos do que Immanuel Kant, que atribui a ele seu “despertar do sono dogmático”, foi um importante difusor de uma forma peculiar de ceticismo por ele defendida em meio a um empirismo radical.

Para Hume, tudo o que temos são sensações e impressões, os únicos fatos comprováveis, mas que nada atestam quanto ao que realmente supomos ter percebido ou experimentado a sensação. Todo o processo do pensamento humano inicia-se com as sensações e delas parte para estabelecer supostos conhecimentos dos quais, de fato, jamais poderemos estar convictos quanto à sua verdade ou certeza.

Precisamos suspender o juízo até mesmo sobre aquilo que é experimental e inclusive sobre uma das mais importantes bases da tradição científica e filosófica, que é a relação de causa e efeito. Ela seria somente mais uma ilusão de conhecimento, do fruto do hábito que procede de nossas observações sobre as sensações que temos cotidianamente, levando a conclusões que não teriam qualquer base realmente racional. Seu grande exemplo é a certeza de que o sol necessariamente irá nascer amanhã, visto que assim acontece todos os dias. Por mais que afirmemos supostas leis sobre corpos celestes para justificar tal certeza, no fundo, segundo Hume, é a crença e o hábito, fundados na relação de causa e efeito, que exercem um forte poder sobre a gênese de nossas certezas. Não haveria nenhuma explicação puramente racional para uma certeza como essa: nada pode me assegurar isso e o fundamento de qualquer expectativa nesse sentido é mera ilusão.

O resultado do uso da relação de causa e efeito, é a indução, forma de raciocínio que, após considerar um número suficiente de casos particulares, conclui uma verdade geral. A indução parte da experiência sensível, dos dados particulares, para se chegar a uma conclusão. Contudo, como Hume bem demonstra, basta que apenas um só desses casos particulares seja contradito para que todo o raciocínio indutivo falhe, como disse o filósofo da ciência austro-britânico Karl Popper, inspirado em Hume:

[…] não importa quantos cisnes brancos você veja ao longo da vida; isso nunca lhe dará certeza de que cisnes negros não existem. 

Entretanto, Hume não entende que devamos abandonar a indução por completo. Ele distingue sua posição de filósofo e a de agente natural. Avalia que a indução é uma espécie de característica intrínseca da mente humana, que após investigações, conclui ser bastante insatisfatória. As expectativas que a indução gera são genuínas e sua força de construir ideias quanto ao futuro são perfeitamente compreensíveis. Contudo, ele deseja demonstrar o quanto este tipo de construção é precária e precisa ser compreendida como fruto do hábito, não de um verdadeiro raciocínio. Como é próprio dos céticos, Hume quer estar ao lado da vivência cotidiana, apenas deixando claras suas reservas, sem que isso signifique algum tipo de interdito:

A natureza sempre manterá seus direitos e prevalecerá, no fim, sobre qualquer raciocínio abstrato. Embora devamos concluir, por exemplo […] que , em todos os raciocínios derivados da experiência [indução], há um passo dado pela mente que não é embasado por nenhum argumento ou processo do entendimento; não há perigo de que esses raciocínios, de que quase toda experiência depende, venham jamais a ser afetados por tal descoberta.

David Hume, em “Investigações sobre o entendimento humano”

A natureza aqui referida por Hume é uma propensão inata da mente humana, como já dito. Resta, portanto, a compreensão de que Hume deseja, de fato lançar uma advertência sobre a indução, não pleitear sua extinção do convívio humano. Ou seja, mais uma vez vemos as posições céticas não desejando a revolução das práticas comuns da vida cotidiana, mas fazendo o seu papel de apresentar as carências e limitações de certas formas habituais de construir “certezas”, demonstrando a fragilidade destas últimas, antes de mais nada, mas mantendo o respeito e a compreensão para com a forma como o “homem natural” lida com isso.

Ceticismo no Brasil

Oswaldo Porchat de Assis Pereira da Silva (1933 – 2017) foi um dos mais importantes filósofos brasileiros, tendo sido professor, emérito inclusive, tanto da Universidade de São Paulo (USP) quanto da Universidade de Campinas (UNICAMP). Estudou com grandes nomes da filosofia na Europa, como Maurice-Merleau Ponty, Paul Ricoeur, Jean Hypollite e Victor Goldschmidt, de quem foi discípulo. Foi professor visitante de importantes instituições, como Berkeley e London School of Economics and Political Sciences.

O filósofo Oswaldo Porchat ao receber o título de professor emérito da Unicamp, em 2011 (Antonio Scarpinetti)

Porchat, dentre outras contribuições filosóficas, foi um dos principais e primeiros filósofos no Brasil a desenvolver o ceticismo tanto no meio acadêmico quanto em obras com textos muito claros e acessíveis a leitores não especializados, como sua coletânea de ensaios “Vida comum e ceticismo”, de 1993. Nela, o que vemos, em linhas gerais são algumas das preocupações históricas do ceticismo, a saber, como desvencilhar-se daquilo que Porchat denomina o “conflito das filosofias” e como aproximar a filosofia da vida comum, do cotidiano e da realidade do “homem comum”, do não filósofo.

O conflito das filosofias, como já dissemos, relaciona-se com o interminável corolário de teses filosóficas, que os últimos 2600 anos apresentaram à humanidade, muitas vezes com a pretensão de ser a acabada verdade, o que constrange e incomoda àqueles que não conseguem ver beleza ou razoabilidade, mas apenas um mero jogo de palavras nessa caracterísca.

Porchat busca demonstrar que, a permanecer nesse círculo vicioso de contínuas e sobrepostas teses que se contrapoem e excluem mutuamente, a filosofia nada mais será do que a retórica que tanto Platão quis combater, em um jogo de palavras que mais preocupado está em se autoafirmar como “a filosofia” do que apresentar algo que faça sentido ao homem comum, pois “torna-se filosoficamente desprovida de sentido qualquer tentativa de julgamento e apreciação crítica das doutrinas filosóficas a partir do chamado mundo da experiência comum, ou a partir de um discurso comum, que se ponha como exterior aos universos filosóficos em causa”.

Essa distância da filosofia dogmática daquilo que Porchat denomina “vida comum” foi o principal motivo que o levou ao ceticismo. Paradoxalmente, diz ele que, ao entregar-se à filosofia, deparou-se com as tais impossibilidades lógicas e conceituais que as intermináveis polêmicas (nunca diálogos) entre filosofias opostas lhe apresentavam, frustrando qualquer expectativa de que as investigações filosóficas pudessem converter-se em instrumento acessível para a construção da vida comum. Sua inclinação cética, segundo ele, decorre exatamente desse desejo e necessidade do palpável, terreno e mundano:

Por isso, sempre entendi que é preciso filosofar em terra, que a filosofia é coisa do mundo, é artefacto produzido pelos homens, em sua busca da felicidade. Encontrei no ceticismo empírico (ou empirismo cético) o que eu procurava. Porque o ceticismo empírico humaniza decididamente a razão, descobrindo sua vocação eminentemente mundana, pensando-a a serviço dos seres humanos. Desfazendo os sonhos e os mitos extramundanos da perversão dogmática do Lógos.

Oswaldo Porchat Pereira em “Vida comum e ceticismo”

Ao ter a coragem e a humildade de suspender o juízo sobre aquilo que não é capaz de ser demonstrado a não ser por meio das sutilezas linguísticas da filosofia, o cético Porchat encontra enfim seu lugar em meio aos “homens comuns” e com eles partilha suas dores, vontades e mesmo opiniões. Essa característica já estava presente em Pirro, o filósofo que mais inspirou esta postura não filosófica no sentido dogmático, contrariando os dizeres caluniosos de séculos quanto a uma suposta arrogância ou desprezo do cético pela vida cotidiana e mesmo as posturas convencionais da sociedade de seu tempo, como vimos. Em suma, para Porchat, ser cético é aproximar-se da realidade humana, coisa que, para ele, a filosofia dogmática é incapaz.

Como iniciamos dizendo, o ceticismo tem sido mal afamado por muito tempo. A tal ponto que a própria filosofia, vítima de sua inflexível atuação antidogmática, o difama e faz com que se considere tal proposta algo de vazio, que pouca ou nenhuma contribuição terá a dar a quem por ela se interessar. Porchat dizia que “séculos de incompreensão sobre o pirronismo têm seu peso. Não é fácil dissipar mal-entendidos inumeráveis que se devem à difusão secular e generalizada de uma versão caricata da postura cética”.

A verdadeira face do ceticismo, como vimos, o aproxima da realidade humana como nenhuma filosofia talvez jamais o tenha feito. E ao conhecê-la, temos a opção de ministrar a nós mesmos um remédio contra as certezas que supostamente deveríamos ter e que em verdade, somente nos confundem.

Circulam há algum tempo pelas redes sociais um conjunto de frases já atribuída a diversos pensadores (W. B. Yeats, Bertrand Russell e Charles Bukowski), que na verdade são expressões individualmente distintas e interessantes, mas que podem ser semanticamente agrupadas e que se mesclaram através dos tempos, gerando inúmeras versões que são interpolações umas das outras, o que em si mesmo já é significativo. Em resumo, elas dizem mais ou menos o seguinte:

“A causa fundamental do problema no mundo moderno hoje é que os estúpidos são convencidos enquanto os inteligentes estão cheios de dúvidas”;

ou

“Os melhores carecem de toda convicção, enquanto os piores estão cheios de intensidade apaixonada”.

É curioso que frases assim façam sucesso em redes sociais, mas ao mesmo tempo vivamos cercados por pessoas que julgam de forma impiedosa aqueles que permanecem na dúvida, que muitas vezes é associada a algo pecaminoso ou simplesmente errado. Pessoas vitoriosas têm certezas e convicções, os fracassados é que permanecem afogados em suas dúvidas, dizem os arautos da autoajuda e fundamentalistas religiosos de variadas estirpes. Afinal, a dúvida é um problema ou uma solução?

O ceticismo nos ensina que é possível conviver com a dúvida sem necessariamente ser confuso ou simplesmente um chato. Até porque, se dependermos exclusivamente de certezas para nos movermos, seremos extremamente impactados cada vez que elas forem abaladas. E, invariavelmente, em maior ou menor grau, por mais ou menos tempo, elas serão. Sem as dúvidas, não teríamos qualquer desenvolvimento científico ou mesmo intelectual. O ceticismo demonstra que somos movidos e podemos mesmo ser tranquilizados pela dúvida. Ainda que você não seja capaz da total suspensão do juízo defendida pelo ceticismo, talvez possa perceber que as certezas não são necessariamente um sinal de virtude ou força. E viver bem com isso.


* Henrique Gonçalves de Paula é Bacharel e Licenciado em Filosofia pela UNESP, Mestre e Doutor em Filosofia pela USP. Marido da Aline e pai do Rafael e do Luiz Felipe, atualmente é professor efetivo de Filosofia da Rede Pública Estadual. Escrevemos mais este artigo a quatro mãos, como fruto de nossas infindáveis conversas e de nossa feliz amizade.

Para saber mais:

Palestra de Oswaldo Porchat Pereira sobre “O ceticismo empírico dos gregos”

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