Herdeiros de Guerrero

GERALDO BONADIO – No início do século XX, os Estados Unidos, atentos à sua condição de país cujas fronteiras, a leste e oeste, são os oceanos Pacífico e Atlântico, estavam determinados a rasgar um canal para interligá-los. Isso lhes permitiria duplicar, na prática, seu poderio militar naval e alavancar os interesses econômicos de suas empresas.

O ponto ideal para tal conexão era o istmo do Panamá, usado, com tal finalidade, desde a colonização espanhola, sem as limitações e inconvenientes associados às operações de descarregar os navios no Pacífico, transpor a carga para o lombo das tropas de mulas e refazer tais operações, ao avesso, na costa atlântica – ou vice-versa.

O istmo se situava, à época, em território da Colômbia. O presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, delegou ao financista John Pierpont Morgan, interlocutor e associado do grupo francês que tocaria as obras, os entendimentos iniciais com o governo de Bogotá. O acordo a ser celebrado entre os dois países previa a cessão ao controle americano, por 99 anos, de uma faixa de 10 milhas, ladeando o canal. Os termos foram aceitos, com facilidade, pelo negociador colombiano, mas esbarraram na resistência do legislativo daquele país em homologá-lo.

Pragmático, Roosevelt concluiu que a melhor maneira de agilizar o processo seria os Estados Unidos, por baixo dos panos, patrocinarem uma revolução, formalmente liderada por um político do norte colombiano, para tornar o Panamá um estado independente.

A escolha recaiu sobre o colombiano Manuel Amador Guerrero, médico e político respeitado.

Levado a Nova York pelo interlocutor do grupo francês, esperava ser tratado como um estadista, mas foi alojado num hotel e lá esquecido durante dias.

Chamado, enfim, para um contato com os financiadores da revolução, foi por eles enquadrado como um simples mercenário. Antes que pudesse abrir a boca recebeu uma pasta contendo as minutas de uma proclamação de independência, da futura constituição panamenha e do futuro tratado com os Estados Unidos. Foi ainda informado que os 100 mil dólares para custear a insurreição ser-lhe-iam entregues por um portador de confiança, tão logo ela se iniciasse. A seguir, sem mais cerimônia, despacharam-no de volta.

O Panamá separou-se da Colômbia, Guerrero tornou-se seu primeiro presidente, governou até 1908 e morreu no ano seguinte. Hoje é um nome do qual ninguém mais se lembra. Os americanos – justiça seja feita – sabem dar o merecido tratamento aos que, subservientes, assumem os interesses da Casa Branca em detrimento daqueles de seu país.

É uma história boa de ser recordada, num momento em que vozes nada associadas ao nacionalismo – veículos de comunicação, como o jornal O Globo, economistas, como Delfim Neto, e porta-vozes do agronegócio – deploram a atitude rastejante dos governantes brasileiros em relação às administrações de Trump e Netanyahu. Os responsáveis por essas condutas apartadas dos reais interesses de nosso país credenciam-se como herdeiros do legado de desprezo e esquecimento de Amador Guerrero.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: