Silêncios e omissões cercam a morte do miliciano Nóbrega

GERALDO BONADIO – Considerado uma testemunha da maior importância para a elucidação dos fatos que precederam e seguiram aos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Franco, que conduzia o carro em que ela se encontrava, o miliciano e ex-capitão da PM fluminense Adriano da Nóbrega foi abatido a tiros numa fazenda do interior da Bahia por soldados da PM daquele Estado, num episódio envolto em circunstâncias muito estranhas. Em audiência na Câmara dos Deputados, o ministro Sérgio Moro admitiu que o miliciano aliado dos Bolsonaro foi assassinado.

A Bahia, desde 2010, é governada pelo PT. O atual governador, Rui Costa, sucedeu, na chefia do Executivo, o atual senador Jacques Wagner e, portanto, não se pode invocar, em defesa da desastrosa operação que silenciou alguém que tinha muito para contar, uma possível falta de familiaridade daquelas lideranças com aqueles que, sabedores do paradeiro de Adriano, definiram a inteligência e a logística da operação que deveria capturá-lo.

O foragido, por sua vez, antes de se ver excluído da milícia fluminense, exerceu funções importantes em seu batalhão de elite – o BOPE –, fez uma bateria de cursos de especialização que preparavam oficiais para missões desse tipo. Sabia, perfeitamente, que resistir à prisão era dar, aqueles que o cercavam, todas as razões necessárias para que o eliminassem. Os executores do cerco, a seu turno, sabiam claramente o que fazer para capturá-lo com vida.

Logo, a informação, que o ministro da Justiça Sérgio Moro deixou escapar, em depoimento na Câmara Federal, na quarta feira, ao dizer que Nóbrega foi assassinado, ainda que prontamente corrigida, traduziu, perfeitamente, o que aconteceu. Costa, seu secretário de Segurança Pública e os oficiais da PM/BA que gozam da confiança de ambos, sabiam do paradeiro de Nóbrega, do cerco, da importância de que fosse capturado com que ele fosse morto.

Operações de tal envergadura e importância não ocorrem todo dia, mas, ao que se sabe, nenhum deles cuidou em criar um gabinete de crise para acompanhar o andamento dos fatos. Outro tanto pode ser dito da Polícia Federal, do ministro da Justiça e, que pena, da mídia. Nenhum de nossos grandes veículos impressos, televisivos, radiofônicos ou digitais destacou algum jornalista investigativo de primeiro time para tirar a limpo os detalhes.

É certo que rareiam hoje, até pela rendição dos principais veículos à cobertura feita a partir de notas oficiais – cuja função básica, na prática, é esconder do público o que realmente interessa – os Arcanjos e os Pena Branca. Mas a integridade ainda resiste em muitos pontos. É só arredar a censura interna que eles, com certeza, revelarão os muitos detalhes sórdidos que se ocultam no caso e identificarão aqueles que, por ação e omissão, permitiram que ele ocorresse.

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