O dia em que eu vi o Jango

GERALDO BONADIO – Há sessenta anos o Brasil se preparava para realizar, em outubro, na maioria dos seus 21 Estados, eleições para governador, vice (votado separadamente), um senador e deputados federal e estadual. São Paulo era governado por Jânio Quadros que, com uma coligação de centro direita, tentava eleger, como sucessor, seu Secretário da Fazenda, Carvalho Pinto, professor de Direito Financeiro da Faculdade de Direito da USP, que teria como principal adversário, nas urnas, o médico Adhemar de Barros. Este tentava chegar, pela terceira vez, ao comando estadual que exercera, como interventor, em 1941, e governador eleito de 1947 a 1951.

Homem da elite cafeeira, Adhemar se iniciara na política como deputado à Constituinte Estadual de 1935, concorrendo pelo velho Partido Republicano Paulista e com decisivo apoio da Congregação Mariana de Botucatu, Diocese então dirigida pelo mais político dos bispos que o Brasil já teve, Dom Carlos Duarte Costa.

Como governador de São Paulo, sonhara eleger-se presidente da República em 1950, mas, rompido com o seu vice, Novelli Júnior e acossado por denúncias de corrupção, viu-se obrigado a permanecer no governo paulista. Apoiou, Getúlio Vargas e, elegeu como sucessor o engenheiro Lucas Garcez, professor da Politécnica da USP e seu Secretário de Obras. Nos anos seguintes comeria o pão que o diabo amassou. Para não ir parar na cadeia, fugiu para a Bolívia. Em 1958, com o espaço à direita ocupado, posava de candidato de esquerda, tendo como candidatos a vice o coronel farmacêutico Porfírio da Paz, que desertara do janismo, e a senador o deputado federal José Artur da Frota Moreira, ambos do PTB.

Por conta disso, em 1958, Sorocaba recebeu talvez a única visita de João Goulart, Vice-Presidente da República e líder do PTB, que, em carro aberto, percorreu a cidade, tendo ao lado a deputada Ivete Vargas, em manifestação de apoio a Adhemar.

A visita se deu à tarde. Eu, então com 16 anos, era operário da segunda turma na tecelagem da Barbero da Rua Padre Madureira, trabalhando de 14 às 22 horas e deveria estar de serviço. Ocorre que, logo no início da jornada, sofri o único – e leve – acidente de trabalho de minha vida profissional e fui encaminhado ao Pronto Socorro da Prefeitura, na rua Teresa Lopes. No retorno à minha casa, na Vila Gabriel, quando o ônibus transitava pelo centro, pude ver a curta distância, por uma das janelas do coletivo, o deslocamento do carro em que Jango acenava à população.

Adhemar perdeu as eleições, Jango se reelegeu vice-presidente em 1960 e assumiu a Presidência em 1961, após o malogro do autogolpe através do qual Jânio tentava obter poderes ditatoriais. Em 1964 foi derrubado pelo golpe civil-militar de 31 de março, que Adhemar, assim que se reinstalou no governo paulista, em 1963, começou a costurar. Instalada a ditadura, Goulart, cujo centenário de nascimento ocorre este ano, precisou exilar-se no Uruguai, onde morreu, possivelmente envenenado por um agente do regime.

Vitorioso o golpe, Adhemar tentou, durante algum tempo, realizar seu sonho obsessivo de chegar a Presidente, mas eleição foi cancelada por um dos vários golpes dentro do golpe. Insatisfeito, entrou em rota de colisão com o primeiro general presidente, Castello Branco, e foi por ele cassado como corrupto, ao cabo de uma manobra de que participou ativamente um de seus seguidores supostamente mais fiéis, Cantídio Sampaio, e morreu em Paris, anos depois.

A fortuna que obtivera em múltiplas negociatas – ou, ao menos, parte dela -, dólares que em valores atuais somariam uns R$ 21 milhões – ficou guardada num cofre da mansão carioca de um cardiologista, irmão de sua amante Ana Capriglione, o “Dr. Rui”, e foi roubada numa ação cinematográfica comandada pelo ex-capitão Carlos Lamarca.

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