Eutanásia do Viola desrespeita a cultura regional

GERALDO BONADIO – Um dos programas mais longevos e de público mais fiel da Rede Cultura – o Viola, Minha Viola – completa, no dia 25, quarenta anos no ar.

Infelizmente, não há o que festejar, pois o Viola está sofrendo um processo de eutanásia. Submetido a constantes mudanças de horário passou agora a ser apresentado às sete horas de domingo, antes da Missa de Aparecida, para reduzir a nada a audiência.

Em suas primeiras emissões, em 1980, o Viola, Minha Viola era apresentado por Moraes Sarmento, uma das mais famosas figuras do rádio, coadjuvado por Nonô Basílio, que compôs, em parceria com Índio Vago, um dos maiores clássicos da música caipira: Mágoa de Boiadeiro.

Posteriormente, somou-se ao grupo a cantora Inezita Barroso, que o comandou até sua morte, em 2015.

As apresentações semanais eram feitas, ao vivo, no Teatro Franco Zampari, mas a desatenção da emissora para com o programa se revelava no mau gosto da imutável cenografia, baseada em clichês carentes de criatividade e toscamente executados.

Com a morte de Inezita, a produção de novos programas foi suspensa e estes passaram a ser produzidos com material dos extraordinários arquivos da Cultura, organizados de forma temática. Era uma aposta arriscada, mas, num lance de sorte, a emissora confiou a apresentação a uma artista extraordinária: a violeira paulistana Adriana Farias.

Adriana, pelo domínio dos recursos sonoros da viola, somado a força, extensão e beleza de sua voz, divide, com a mato-grossense Bruna Viola o primeiro lugar entre as violeiras do Brasil, opinião que compartilho com o musicista e maestro Jonicler Real que, durante um bom período, conduziu com notável talento e segurança a Orquestra Sinfônica de Sorocaba.

Ocorre que mesmo essa solução de baixo custo foi abandonada. É difícil de entender e impossível de assimilar o desrespeito com que a Cultura vem se conduzindo num momento em que as expressões musicais baseadas na viola renascem de maneira vigorosa.

Tudo isso vai na contramão da redescoberta, manifestada de múltiplas maneiras, da singular importância da viola caipira e dos gêneros musicais a ela associados, não apenas em termos de tradição, mas também de inovação.

Descendente do alaúde, a viola caipira ou viola de arame é um dos cordifônios mais importantes – e, até data recente – menos estudados da cultura luso-brasileira.

Ao falecer, Mário de Andrade deixou, inacabado, o seu Dicionário Musical Brasileiro. Foram necessárias umas quatro décadas e o trabalho sucessivo de duas coordenadoras – Oneyda Alvarenga e Flavia Camargo Toni – que, no Instituto de Estudos Brasileiros, se ocuparam de ordenar e editar o oceânico material por ele deixado sob a forma de fichas e anotações, para que viesse a lume. Entretanto, a grande obra de Mário consagra à viola apenas umas três ou quatro páginas, contra as mais de trinta encontráveis nos Instrumentos Musicais Populares Portugueses, de Ernesto Veiga de Oliveira.

A viola está no centro de um sem número de danças e músicas cultivadas em especial no Vale Médio do Rio Tietê, que se estende de Itapetininga a Piracicaba, que José Ramos Tinhorão classificou como “gêneros rurais urbanizados”.

Na década de 1960, seus cultores passaram a identificar-se como “sertanejos” e reuniram-se sob a égide da União dos Artistas Sertanejos Paulistas (UASP) que, inclusive, teve um núcleo sorocabano do qual participei. À mesma época, Atílio Giacomelli congregou, na Revista Sertaneja, da editora Prelúdio, um grupo de artistas e pesquisadores da área que ia de Ado Benatti a Alceu Maynard Araújo.

Nas décadas seguintes, o sertanejo tomou outros rumos, focados no consumo, e os artistas comprometidos com as raízes culturais brasileiras, retomaram a denominação música caipira.

Hoje, floresce, no país, uma multiplicidade de iniciativas focadas na viola.

Roberto Correia explora amplamente o potencial sonoro do instrumento, como fez, antes dele, Renato Andrade. À pioneira execução do Hino Nacional Brasileiro, de Pereira da Viola, somaram-se muitas outras, individuais e grupais.

O prodigioso Neymar Dias, executa peças de Bach em suas cordas. Na esteira de trabalhos inovadores, como os de Ivan Vilella e Rui Tornese, surgem orquestras de violas, muitas das quais organizadas em naipes. O pesquisador João Araújo coordena, a partir de Minas o projeto Viola Urbana. No Sul, sob a liderança de Valdir Verona, a viola ressurge na música nativista. Ou seja, temos, à margem da mídia, um universo violeiro em constante expansão.

Só a Rede Cultura não se deu conta disso.

Um comentário em “Eutanásia do Viola desrespeita a cultura regional

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  1. Somente hoje tomei conhecimento, agradeço pela citação e parabenizo pela matéria: completa e atuante, reflexiva. É o que mais precisamos na viola brasileira. Abraço do João Araújo – músico, produtor, gestor cultural. Pesquisa Viola Urbana

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