Teatro Fantoche – fragmentos da memória do Teatro Sorocabano

JOSÉ SIMÕES (Blog do Simões) – No último dia 27 de abril, morreu em Sorocaba,  Antonio Matos Fontana um importante nome do teatro sorocabano, proprietário do Teatro Fantoche.

Muitos  jovens artistas da cidade sequer tiveram noticias do que significou o Teatro Fantoche para a cidade. Quem foi o ator Fontana ou mesmo qual a sua relação com a cultura da cidade?

Nossa população não gosta de cultivar a memória. Muito menos a memória cultural e artística. Parece que nos aproveitamos da seletividade, inerente à memória, para apagarmos tudo o que foi passado. Como se tudo o que passou não tivesse  nenhuma importância. Isso acontece com nossa história política, educacional e, também, com a história do teatro sorocabano.

Nós artista não temos tido mais o hábito de nos sentar num lugar qualquer e nele poder contar aos que chegam, como era que tudo funcionava no teatro sorocabano. Quem começou, como organizou, etc. Parece que só falamos ( e quando falamos ) do ponto agora para frente. É como sempre existisse  um novo marco zero.  E que acontece com a história? Ela desaparece. Se esquece. Precisamos combater a amnésia artística e cultural.

Não se vê nenhuma ação institucional no sentido de preservar a memória cultural da cidade. Não vemos, por exemplo, na Secretaria da Cultura do município pequenas ações como: uma galeria de fotos ou  espaço destinado a contar e valorizar o percurso e a biografia dos artistas sorocabanos ou o estimulo à publicação específica acerca daqueles que deram parte das suas vidas, para manter a acesa o movimento cultural da cidade. Nem mesmo o único teatro municipal da cidade tem um nome ligado às artes da cena de Sorocaba. Os políticos da época resolveram homenagear outro político e não um artista – Teotônio Vilela.

O passado é cheio de certezas. Afinal ele já foi vivido. Isso incomoda e, por vezes, nos aprisiona e, também, nos assusta diante do presente incerto. Todavia é  preciso contar, recontar, mostrar e o que se passou. O apagão na memória nos deixa à mercê dos descobridores de novidades pífias e sem lastro.

Nesse emaranhado de lembranças  acerca do Teatro Fantoche puxei alguns fios, algumas  pontas soltas da memória cultural para homenagear o ator Fontana.  São muitas as possibilidades de se construir este mosaico da memória. Eis o primeiro fio.

Era uma vez…

O ator (e médico psiquiatra) Antonio Matos Fontana foi responsável por mobilizar o teatro sorocabano de sua época e, ao mesmo tempo, criou e fez funcionar na cidade o Teatro Fantoche. Um dos notáveis espaços teatrais independentes  de Sorocaba com muita história, espetáculos,  filas e muita poeira de palco.

Segundo Paulo Betti  “Fontana foi dono do teatro mais aconchegante onde já atuou, o Fantoche, em Sorocaba. Sua atuação como Brutus, em Julio Cesar, de Shakespeare, que eu vi adolescente, ainda ecoa na minha memória. ”O mal que os homens fazem sobrevive a eles; o bem geralmente é sepultado com seus ossos.”

(É possível ver e ouvir um trecho da peça que Paulo Betti utilizou em seu filme a “A Fera na Selva” basta clicar este link  https://www.facebook.com/AFeranaSelva/videos/427604991197191/)

O Teatro Fantoche surgiu de outro sonho anterior – o Teatro dos Três.

Geraldo Bonadio nos conta:

“O Teatro dos Três, inaugurado em 1979, na Rua João Ferreira da Silva, nº1096 na Árvore Grande, foi o primeiro grupo de teatro amador em Sorocaba a, na segunda metade do século XX, possuir um espaço físico adquirido e adaptado especificamente para funcionar com teatro. Antes dele, os espetáculos eram encenados sempre em espaços adaptados.

As poltronas – 184 – foram compradas de um cinema de Botucatu, possivelmente pertencente aos Pedutti. Os três, além do Fontana, eram o Armando Oliveira Lima, que continua com a gente, e não sei bem se o Osório T. Moraes ou o Gil de Mello, mago da iluminação com equipamento improvisado. É uma dúvida que o Armando pode esclarecer. O Teatro era uma empresa. Naquele momento, quem tinha rendimentos regulares, por conta do seu trabalho como psiquiatra, era o Fontana que, adiante, comprou as partes dos sócios e rebatizou a casa como Teatro Fantoche.”

Mario Pérsico  nos resolve a duvida acerca de quem seria o terceiro nome do Teatro dos Três

“O terceiro membro do que seria o Teatro dos Três era o Osório T. Moraes. O nome segundo o Osório era uma alusão/homenagem ao Teatro dos 7, companhia da Fernanda sediada no Rio.”

Noutro depoimento do sobrinho de Fontana Sergio Krika Guariglia ( Krika) acerca da origem do Teatro Fantoche

“Na década de 70 ele e mais dois amantes do teatro Sorocabano estimulados pela falta de espaços apropriados decidem montar um teatro para poderem estimular a cultura em nossa cidade. Surge então em um barracão alugado situado a rua João Ferreira da Silva, 1096, bairro Arvore Grande. O projeto possibilitaria um teatro para 220 pessoas com plateia em formato de degraus, um palco de 10 metros de boca de cena e 8 metros de profundidade, com altura de 4,8 metros até o urdimento. Ao longo da montagem os dois companheiros e sócios do Fontana optaram e desistir do projeto devido a vários fatores particulares, mas o Fontana apaixonado pela arte assumiu todo o projeto e concretizou o sonho que era o Teatro dos três, mas que naquele momento era apenas de um, e foi batizado como TEATRO FANTOCHE.”

Krika trabalhou como gerente do Teatro Fantoche e foi o responsável pela atividade do espaço

“Eu fui contratado como gerente, mas também trabalhei como iluminador, sonoplasta em vários espetáculos durante as atividades do Teatro Fantoche. A Inauguração foi em 04 de Julho de 1979 com o espetáculo musical “SEMPRE”, de autoria e dirigido por Osório Teodoro de Moraes, e com os atores e cantores da nossa cidade. Dentre eles o Fontana como cantor e ator. O Teatro Fantoche trouxe várias peças de teatro renomadas em seu período de atividades, algumas tenho na memória: Na carreira do Divino com Eliane Giardini e Paulo Betti, Navalha na Carne com Ruthinea de Moraes, Donana de Ronaldo Ciambroni, Picardias do picadeiro e Confidências de Um Espermatozoide Careca com Vicentini Gomez, O boné Mágico de Roberto Caprarole.

O Fontana também produziu e dirigiu algumas peças como O Deus nos acuda de Bráulio Pedroso, A hora e a vez de um machão (não me lembro o autor), Este ovo é um galo de Lauro César Muniz. Muitos grupos de teatro amador de Sorocaba se apresentaram no palco do Teatro Fantoche, vários diretores e atores Sorocabanos passaram por lá, Gil de Mello, Roberto Gil Camargo, Mantovani, o renomado bailarino Denilton Gomes, algumas academias de dança: Monica Minelli, Isadora Duncan de Sorocaba com a Dóris entre outras.

Enfim o Teatro Fantoche do Fontana fez história e faz parte do desenvolvimento cultural de Sorocaba.

O Fontana era um entusiasta das artes, era autor, diretor, ator, cantor entre muitas atribuições que ele exercia no meio artístico, era um multi artista. Sempre esteve envolvido no meio artístico e mais intensamente no meio teatral, muito respeitado pelos colegas e até idolatrado por alguns, um dos seus destaques foi o prêmio governador do estado com a direção da peça JULIO CESAR de William Shakespeare.”

Na memória de quem atuou naquele espaço sempre há um conjunto de afetividades. A primeira direção de Mario Pérsico foi neste espaço. Ele ainda recorda:

Participei da primeira montagem teatral – Antígona de Sófocles, em 1979, sob a direção do Mantovani.”

Hamilton Sbrana  puxa outros fios da memória que se entrecruzam:

“Nesse palco, em 1979, foi minha estreia como protagonista, o diretor Carlos Roberto Mantovani ofereceu-me o personagem Creonte de “Antígona” de Sófocles. Sem muita noção, transformei meus 17 anos em um crápula de 40 e poucos anos. Havia três críticos que escreviam pra imprensa na época e o meu esforço foi agraciado e compensado com incentivos e elogios por atuar naquele palco que, embora pequeno e aconchegante, transportava a plateia para os mais lindos lugares da imaginação. Quando estreamos o espetáculo “Trampo e Gandaia” (1980) sob a batuta do Roberto Gill Camargo, o Teatro de 120 lugares (?) ficou pequeno, devido a enorme contingência que formava fila dando volta no quarteirão para conseguir ingresso. Celebramos alí a centésima apresentação dessa montagem que viajou por muitas cidades. A mesma coisa aconteceu com a peça “Hello, boy!” (1982), direção do Gill e o colega Dimas Vieira que dos palcos do Fantoche, viajamos o Brasil. Assisti muitas peças boas nesse espaço e posso citar “Na carreira do Divino” de Sofredini com Paulo Betti, Eliane Jardini e Adilson Barros e também “Foi bom, meu bem?” de Luís Alberto Abreu com direção do Ewerton de Castro com Calixto e Rosi Campos atuando. O Teatro Fantoche, foi sede da Fetabas (Federação do Teatro Amador da Baixa Sorocabana).

Fontana, além de proprietário do Teatro, como também era ator, entendia todas as dificuldades dos grupos e sempre foi muito atencioso, gentil e incentivador dos nossos trabalhos. Seu sobrinho Sérgio Krika Guariglia era o técnico e administrador que também muito ajudou os grupos da cidade ao utilizar esse espaço que embora fosse num bairro periférico, ficou conhecido e frequentado pelo Sorocabano.”

O  ator e diretor teatral Dimas Vieira comenta:

” O Fantoche foi um sonho realizado de termos um teatro de verdade em Sorocaba, onde ,na época, só contávamos com espaços alternativos. Fez história e eu sinto-me privilegiado de ter participado desse momento.”

Todos aqueles que trabalham com/na atividade artística teatral sabem a importância para o oficio o espaço teatral – ter um teatro!  Não somente um palco e cadeiras, mas equipamentos com condições plenas de funcionamento, acolhimento do público e boa programação. O Teatro Fantoche reunia estas condições. Seu idealizador o ator Fontana não criou apenas um espaço para si, mas o abriu para toda a cidade. Mudando todo o panorama cultural e artístico daquela época.

A professora  e atriz Meia Pereira faz uma síntese em seu depoimento do que significou o Teatro Fantoche e o seu fundador  – ator Fontana – para a cultura da cidade

“Fontana garantiu um espaço digno aos artistas da cidade que, antes disso, tinham que improvisar o “teatro” em clubes, escolas, cinemas, faculdades, já que o poder público não se sensibilizava com o poder da arte. O Teatro Fantoche, criado por ele, era um espaço democrático e acolhedor, de onde guardo as melhores memórias afetivas. Assisti e interpretei inúmeros espetáculos surpreendentes naquele pequeno teatro, onde cabiam sonhos e emoções, lágrimas e risos, briga e paz. Fontana, através do Fantoche, liberou nosso grito, preso na garganta, aflorou nossos desejos e possibilitou que a luz, a música, o texto, o corpo, a interpretação alcançassem reinos e cidades, corações e mentes. Era um homem generoso e apaixonado pela arte da representação. Psiquiatra, ator e diretor. Ser e criatura. Obrigada, Fontana! Que bom que você existiu e fez de Sorocaba um lugar melhor!”

Muito obrigado Antonio Matos Fontana.

(O texto original foi alterado com sugestões de Mario Pérsico)

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