A arte de ser otimista

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – A jornalista Carla Cristina Camargo, leitora muito especial que tem a generosidade e a paciência de acompanhar o que escrevo há 11 anos, pede uma crônica otimista e eu não posso deixar de atendê-la.
Ser otimista nesses tempos é um ato de resistência. Impossível não ficar abatido por compartilhar a dor e a tristeza do outro na contagem diária de mortos da pandemia em Sorocaba, no Brasil e no mundo. Impossível não se indignar com um governo selvagem, escorado em fake news e ameaças, notável por disseminar o caos, o horror, a destruição. Impossível não se abalar com os crimes de racismo, também no Brasil e no mundo, que se traduzem em mais sofrimento, tortura, morte. Impossível ficar indiferente à avalanche de perdas, prejuízos, incertezas. Impossível não sofrer as aflições que devastam as periferias com o desamparo, o abandono, o esquecimento.
Conseguir ser otimista nesses tempos é, antes de tudo, uma condição privilegiada. Não é para quem quer, é para quem pode, isto é, para quem habitualmente possui uma renda que permite garantir a sobrevivência diária por longo período. Esse perfil de pessoa tem moradia em tamanho e condições que facilitam o isolamento social. E tem os meios para assegurar a continuidade dos projetos de trabalho, estudo, lazer, atividade física. De quebra, sobram oportunidades para curtir as relações sociais e afetivas, ainda que à distância.
Para as pessoas dessa classe social, ser otimista é a melhor reação que se pode ter diante da realidade cruel. Identificar as boas oportunidades em meio ao caos é uma atitude emocional digna de aplauso e inspiração. É como enxergar a luz no fim do túnel. E isso é bem possível.
Por esses tempos, desde que o mundo desacelerou em março passado, certamente muitas pessoas se deparam com a oportunidade de testar habilidades que não conheciam antes, por falta de tempo ou de chance negada aos próprios instintos.
Casais voltam a namorar como nos melhores dias. Pais e filhos passam a ter mais tempo para a convivência diária. Brincam na sala e viabilizam os meios para os acessos ao ensino à distância. A nova rotina de crianças em casa também permite que muitos avós consigam curtir com mais frequência o carinho dos netos queridos.
Cozinhar, lavar louça, pintar paredes, arrumar os livros, jogar fora coisas inúteis que só ocupam espaço. Reler Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos. Maratonar na Netflix. Entremear com Felini, Bergman, Godard. Ouvir os Beatles, Tom e Vinicius, Gal e Bethânia. Curtir no You Tube um lendário show da banda Led Zeppelin. Não perder as lives do Roberto Carlos, do Alceu Valença, da Ivete Sangalo. Encher a cara de vinho, champanhe, cerveja. Capotar na cama, no sofá, no tapete, sem a preocupação de ter que dirigir alcoolizado ou ter que acionar o aplicativo: você já está no aconchego do seu lar.
Ficar horas nas redes sociais. Fazer a própria programação das lives, mil postagens lidas e escritas, recebidas e enviadas. Encantar os sentidos com as imagens de mulheres lindíssimas que distribuem doses de colírio e poesia no Instagram. E, depois, ainda poder varar a noite com os jogos eletrônicos que garantem a válvula de escape das realidades paralelas.
No campo das necessidades práticas, também é possível recorrer às vocações para reforçar a renda. Vale para quem sabe cozinhar, dar aula de educação física, transportar cães e gatos para clínicas veterinárias. A tecnologia é uma aliada de plantão para o sucesso desses projetos. É a hora de se reinventar. E muitos conseguem abrir novas possibilidades com resultados que pareciam inacreditáveis. Até comprar imóvel é possível, aproveitando ofertas que surgem nesses períodos.
Na natureza, as sensações estão diferentes. A diminuição da atividade econômica reduziu a poluição e o céu está mais azul, o ar está mais respirável, as flores estão mais coloridas. O meio ambiente melhorou a tal ponto que em muitas cidades os animais silvestres invadem as ruas como visitantes afoitos. Eles chegam sem que tenham sido convidados. Câmeras flagram os visitantes e as cenas são exibidas na televisão, nas redes sociais.
Nesses dias, até mesmo a sensação de tempo perdido causada pela retração da economia se dilui. Se alguém desacelerou, a maioria fez o mesmo e instaura-se uma sintonia no ritmo de velocidade da vida. O indivíduo adiou projetos, mas muitos outros fizeram o mesmo e o resultado é o empate.
E até mesmo quando bate a deprê com os números alarmantes de mortos e infectados, é possível encontrar uma compensação para a dor. Estão aí os números de vidas que também se salvam, de pacientes que são curados e deixam os hospitais em meio aos rituais de aplausos. Trabalhadores da saúde se perfilam para comemorar a saída de cada paciente que acaba de receber alta médica e autorização de retorno à família.
Ser otimista nesses tempos também é saber que, enquanto a gente se protege com máscaras, cuidados com a higiene e isolamento social, os exércitos de trabalhadores da saúde travam batalhas nas trincheiras das UTIs certos de que fazem o melhor e todo o possível para salvar vidas. E tudo isso é viabilizado porque outros trabalhadores de serviços essenciais também não param e eles são os servidores das áreas de abastecimento de água e eletricidade, forças de segurança, funcionários de farmácias, supermercados, transportes, postos de gasolina, entre outros.
Nessas horas, a gente é invadido por um estranho sentimento de culpa. Saber que milhões de pessoas não vivem essas condições deixa a gente em péssimo estado. E mesmo nessa situação é possível ir além do discurso de solidariedade. Muitos arregaçam as mangas e organizam mutirões de arrecadação de cestas básicas para doações aos carentes. Outros dedicam parte do tempo para criar cursos online na sua especialidade para acessos a quem precisa de qualificação. Também há quem vá ao supermercado e à farmácia para o casal de vizinhos porque eles são idosos e precisam cumprir rigoroso isolamento. Essas iniciativas são igualmente positivas e ajudam muita gente que passa fome, que precisa gerar renda, que tem urgência de continuar os estudos, que tem necessidades especiais de proteção e cuidados.
Com essas ações, a gente pode fazer a diferença na vida de muitas pessoas nesta época de grandes desafios. Sim, a leitora Carla Cristina Camargo tem toda razão: também é possível ser otimista com atividades que vão muito além do abstrato e podem transformar a indescritível sensação de culpa em mobilizações que contribuem para salvar vidas.
Como exemplo, o ex-automobilista e paraciclista Alessandro Zanardi, falando a uma reportagem da Rede Globo no último domingo sobre a pandemia, compartilhou seu sofrimento com tragédias pessoais para afirmar que, até mesmo num cenário terrível, a experiência traumática serve de ponto de partida para uma nova jornada e lá na frente ela pode nos levar a uma vida melhor.
Nessa linha de raciocínio, a arte também é criativa, pulsante, mágica. Muitas obras clássicas foram inspiradas em desgraças históricas e entraram para a memória humana como grandes apelos à paz e à liberdade. Como exemplos, penso em “Guernica” de Pablo Picasso, em “Nada de Novo no Front” de Erich Maria Remarque, em “Matadouro 5” de Kurt Vonnegut.
Prezada Carla Cristina, veja só: sábia, a natureza mostra que, apesar dos estilingues, das gaiolas, das queimadas e dos desmatamentos, os pássaros ainda cantam empoleirados no alto das árvores. É uma lição simbólica, mas animadora.
Enquanto isso, nada consegue deter a vida e ela segue em ondas, como num grande e vasto oceano de águas profundas.
Enquanto isso, lá fora, em outros ambientes, os poetas traduzem o amor em versos, os religiosos elevam as mãos ao céu em orações, crianças dormem e sonham com os anjos, a voz de Bob Dylan é ouvida no rádio do carro, um jovem faz declarações de amor à namorada pelo WhatsApp e derrama lágrimas de saudade, de agonia contida, de esperança renovada. Talvez, onde estiver, a namorada corresponda com o doce sorriso, a suave beleza, o olhar de felicidade atento a esta página.

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