O nefasto ser humano

LÚCIA HELENA DE CAMARGO –

“Entardecer” é um filme sombrio. Em todos os sentidos. Dos rostos pouco iluminados à trama escura, incômoda, em alguns momentos obscura. As sombras perpassam as cenas e o diretor, o húngaro László Nemes, faz questão de mostrar que muitas almas ali não são também muito iluminadas. Cada pessoa possui sua cota de segredos inconfessáveis, que vão de pequenos deslizes tacanhos a crimes descomunais jamais revelados.

A história se passa na Hungria em 1913, poucos anos antes da Primeira Guerra Mundial. Irisz (Juli Jakab) é a moça órfã que vai trabalhar na loja de chapéus que foi de seus pais (mortos em um incêndio). Nada lhe será fácil. A atriz, fisicamente parecida com Emma Watson (Hermione Granger na série “Harry Potter”), segue carregando no semblante um ódio contido, ressentimento da criança que cresceu sem pai nem mãe por culpa – talvez – da ganância de alguns.

Em muitos momentos fica a impressão de que há algo de profundamente desconexo nesse roteiro. Diálogos que se encaminham para lugar nenhum, frases soltas, discursos inconclusivos. Talvez seja proposital. Ou não. O diretor, em entrevistas concedidas em eventos de lançamento e festivais, tem feito questão de não fornecer maiores informações.

Irisz descobre um irmão desaparecido, que pode ser herói ou vilão, enquanto transita entre o luxo e suntuosidade das clientes da loja de chapéus. Uma das metas das moças chapeleiras que ali trabalham é ser escolhida para prestar serviços na corte, em Viena. Lembrando que, à época, vigorava o império austro-húngaro, que unia o império austríaco ao reino da Hungria. Iniciado em 1867, só seria desfeito em 1918, com o início da primeira grande guerra. Cada uma das moças almeja ser alçada a chapeleira da imperatriz, sonhando com uma vida melhor, mas isso também pode envolver um submundo macabro. Nada é o que, à primeira vista, parecer ser.

A guerra que eclode, mostrava ao final em breves cenas, talvez seja o ponto de ruptura que, com nove milhões mortes, tenha chegado para colocar um denominador comum nesse estado de coisas. Se fosse necessário tirar uma mensagem de “Entardecer”, diria que seria a desanimadora conclusão de que o ser humano é nefasto, tanto para si  quanto para os demais habitantes do mundo. Para ter uma chance de melhorarmos, teríamos que transformar todos os valores que pautam a sociedade e a maneira como está constituída. Mas a tendência é concordar com Nemes, que parece sugerir que já é tarde demais.

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