O Sagrado na louça da pia

NILSON RIBEIRO – Um anjo passou por aqui e quero compartilhar o “insight”, o ensinamento que ele me deixou. “Insights” costumam significar um vislumbre da “verdade”, ou da “Graça”, como quiserem, e que amadurecem a maneira que vemos e vivemos a vida.

Pois bem. Depois de um domingo cansativo, eu estava me preparando para ir dormir quando fui à cozinha para tomar um copo de água. A pia estava entupida da louça do final de semana todo. Como trabalho aos finais de semana, e como meu filho pequeno Arthur não dá um minuto de sossego à minha companheira Mônica – e quando dá, ela quer, precisa e merece descansar – não demos conta de lavar a louça desde sexta à noite. Temos um certo acordo em casa. Não há uma obrigação nem determinação sobre quem cuida das necessidades da casa – arrumar cozinha, varrer a sala, tirar o pó… Não temos uma “auxiliar”, e cada um, quando sente que pode, vai e executa a tarefa.

Assim, era uma imensa pirâmide faraônica de pratos, copos, talheres (como conseguimos usar todos os nossos talheres em dois dias e meio???) desafiando meu cansaço. Mas, resolvi encarar a tarefa antes de dormir. Até porque  eu havia passado parte do dia pensando em como algumas pessoas fazem coisas realmente importantes para o mundo e outras, seres comuns como nós, não fazemos nada, ou fazemos muito pouco. Dias atrás li que um cientista publicara em alguma revista de renome uma pesquisa que poderá resolver o problema da água no mundo todo… Seria realmente maravilhoso.

Pensava nisso quando comecei a colocar detergente na esponja. Foi nesse momento que o anjo passou e me deixou esse “insight”. Uma querida amiga postou recentemente nas redes sociais: “Todo mundo quer salvar o mundo, mas ninguém quer ajudar a mãe a lavar a louça depois do jantar”. Achei perfeito e ri. Mas agora, neste instante, percebi que lavar aquela louça de maneira completamente consciente, sem pressa, com todo meu corpo e minha intenção presente, utilizando a água de maneira racional, prestando a atenção nos detalhes para não deixar passar um sujinho aqui ou outro ali, sentindo a temperatura e a textura da água, lavar a louça assim é tão importante quanto qualquer ato salvador do planeta e da vida nele existente.

Porque estou fazendo isso por amor à minha parceira e companheira, que se desgasta também trabalhando durante a semana e cuidando de nosso filho. Então estou fazendo isso também pelo meu filho, porque assim minha companheira Mônica pode se dedicar a ele como deve ser. E, claro, por mim também, porque quero minha amada e meu filho felizes. Mas não é só isso.

Esse trabalho que parece banal é na verdade sagrado, porque me permite meditar (estar inteiramente presente) enquanto o executo. E assim me possibilita um lindo “insight”, que transforma e empresta sentido à minha vida, e, transformando a minha, transforma também a vida de tantos a mim ligados. E percebi que é assim com tudo que fazemos.

Esse trabalho que parece banal é na verdade sagrado, porque me permite meditar (estar inteiramente presente) enquanto o executo.

Não há absolutamente nenhuma ação sem sacralidade. Nós é que estamos distraídos (ou não completamente despertos) para perceber sua real importância. Varrer sua casa, fazer uma comidinha, dar atenção ao seu filho, ao seu neto, ao filho do vizinho, ao menino desconhecido na rua, ao velhinho no banco, não desperdiçar água, escolher o feijão, fazer uma neurocirurgia, governar com justiça e bom senso um país, inventar a cura da Aids, lavar a louça…. Tudo tem a mesma importância e a mesma sacralidade. É assim que salvamos o mundo. O mundo real. De verdade.

Bom Dia, Vida.

Nilson Ribeiro é psicanalista

nilribeiro63@hotmail.com

#umanjopassouporaqui

#coletivoterceiramargem

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