De santa só tenho o nome e uma jaqueta com asinhas

RITA BRAGATTO – Semana passada, eu disse a uma amiga da faculdade de jornalismo que o silêncio, assim como a empatia, é uma questão de prática. Ela reconheceu a sua dificuldade para transformar em hábito a minha teoria. E com sua malemolência, tão peculiar, me rebateu: “Rita, pra mim tu é quase uma monja.” Do lado de cá do oceano, eu ri muito.

Pior é que minha amiga não está sozinha nessa tentativa de me “santificar”. Tenho outro amigo aqui na Itália que, vira e mexe, me chama de “buonista”. Em italiano, isso quer dizer benevolente.

Ok. Eu, agradeço os bons olhos com que eles me vêem. Concordo que me esforço para ter bons hábitos; para ser uma pessoa “do bem”. Mas penso que nunca tenha me visto tão imperfeita e tão passível de cometer erros quanto agora, com quase cinquenta anos de idade. A essa altura da vida, uma das únicas coisas que posso assegurar é que de santa eu só tenho o nome e uma jaqueta com asinhas!

“Mas de onde será que vem essa imagem de santa?”, fiquei me perguntando. Talvez pelo fato de ser terapeuta. Ou por praticar yoga e meditação. Pode ser também porque sou vegetariana. Porque sempre estou engajada em algum projeto como voluntária. Ou ainda porque tenho o firme propósito de só divulgar notícias positivas nas redes sociais pois acredito que, dessa forma, eu realmente contribua para o equilíbrio do padrão vibratório do planeta! Pois é, sou super ligada a essas coisas de energia! Pode ser isso também, né? Sei lá. Mas o fato é que eu tô bem longe de ser uma santinha, um “ser de luz”. Isso eu posso te garantir.

Na verdade, o que eu tenho é um baita “telhado de vidro”, que preservo com muito carinho. Em outras palavras: quanto mais eu olho para mim e para as minhas fragilidades e imperfeições, mais eu silencio diante das atitudes alheias. Menos expectativas eu crio. Menos julgamento eu faço. Costumo pensar que tenho uma lição de casa enorme a cumprir antes de apontar o dedo para qualquer outra pessoa. Por isso, “abaixo o cabeção” e me dedico com afinco.

Neste ano em que estou aqui na Europa, por exemplo, fiquei muito tempo sozinha. Isso me permitiu mergulhar fundo na auto-observação. E, olha, vou te confessar uma coisa: meus defeitos, meus erros e minhas fragilidades gritaram nesse silêncio!

No começo, meu ego não curtiu nada esse processo, mas acabou se conformando com essa ambivalência de “luz e sombra” que todo ser humano carrega. E ele me disse, entre outras coisas, que está tudo bem se eu não sou a perfeitinha. Que está tudo bem se eu contrariar algumas pessoas com as minhas atitudes. Que está tudo bem se eu não tiver algumas certezas sobre o meu futuro. Enfim, parece que, finalmente, estou acolhendo isso tudo.

Acredito que as vivências que eu tive em culturas tão diferentes também contribuíram para essa minha flexibilidade diante da diversidade do mundo. Já vivi nos EUA, na França, na Bélgica e hoje moro na Itália. Tenho vários amigos estrangeiros. E, ao olhar para tudo isso de uma maneira mais ampla, percebo que as fronteiras demarcam apenas o território físico. Todos nós, no fundo, temos as mesmas questões. Todo mundo pertence a um sistema familiar. Todo mundo trabalha. Precisa se alimentar. Vive inseguranças. Medos. Tristezas. Busca a felicidade à sua maneira. Portanto, penso que essa “humanidade” deve nos unir. Não nos dividir.

Tenho também aprendido muito com meus pacientes. Atendo tantas pessoas interessantes! E quanto mais os escuto de forma empática, mais amplio meu olhar e relativizo os meus conceitos sobre relacionamentos. Sucesso. Felicidade. Amor. Cada pessoa que desnuda a sua alma diante de mim me permite olhar uma mesma situação de outro ângulo, bem longe do certo ou do errado. Me permite “viajar” para “lugares” da psique onde nunca estive. E, principalmente, me permite perceber que cada ser humano é um universo. É pura energia em movimento. Portanto, ninguém cabe numa moldura. Num rótulo.

Enfim, a cada dia que passa, sinto que estou muito mais desapegada e que tenho menos certeza das coisas. Estou tentando seguir mais o fluxo da vida. Ah, um detalhe: também já fui rotulada de “hippie” por causa disso. Mas o fato é que apenas não quero tentar controlar mais nada. E, se preciso for, pretendo mudar de opinião e de rota com a mesma facilidade com que tenho mudado de endereço. Para mim, é lindo desenvolver essa flexibilidade, mesmo que às vezes isso signifique acolher incertezas e inseguranças.

Portanto, meu caro leitor, saiba que essa terapeuta que vos escreve é, antes de tudo, um ser humano – de carne e osso como você. Estou aqui na Terra em lutas internas diárias; em processo contínuo de aprendizado. Erro pra caramba. Também tenho minhas neuroses. E faço terapia.

Ou seja, se você discorda de mim em algum ponto, está tudo bem. Fique tranquilo. Pode se expressar. Não vou te bloquear na minha página, não. Muito menos na minha vida. Aprendo muito com a diversidade! Penso que tão indispensável quanto descobrir o que nos torna semelhantes é aprender a respeitar aquilo que nos faz diferentes. Afinal de contas, o que importa mesmo nessa vida é cada um estar feliz e em paz com as suas decisões.

Rita Bragatto é psicanalista e jornalista
Email: rita.bragatto@gmail.com
Facebook: https://www.facebook.com/rita.bragatto.escritora/

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