O asfalto engole a terra

FREDERICO MORIARTY (Blog Pipocando la Pelota) – John Manuel Monteiro faleceu anos atrás, num trágico acidente automobilístico. O historiador e professor da Unicamp estudava o passado colonial de nossos índios. “Negros da Terra”, sua tese de doutorado e depois publicado em livro pela Companhia das Letras, foi a descoberta da economia colonial de São Paulo para mim. Monteiro era crítico à história “quatrocentona paulista” com suas entradas e bandeiras, além das pujantes aventuras do bravo habitante de Piratininga.

A Capitania era pobre e periférica na economia colonial brasileira. O homem da terra mal falava português, analfabeto que era. Quem dialogava com as autoridades normalmente eram os índios, versados no latim, na língua de Camões e na Bíblia jesuíta. Monteiro despertou-me a vontade de estudar a Terra Rasgada em que nasci.

A tese de John Manuel Monteiro (Fotos: Divulgação e Arquivo)

Passei por inventários, testamentos, arquivos e terminei com Aluísio de Almeida. Em verdade, monsenhor Luís Castanho de Almeida. Foi padre na Catedral sorocabana por alguns anos. Doente, afastou-se e passou a ministrar missas em sua casa e a escrever muito.

Tornou-se historiador. Escreveu obras reconhecidas e de grande qualidade. Sérgio Buarque de Holanda correspondia-se constantemente para tirar dúvidas sobre a vida tropeira.

Aluísio de Almeida, monsenhor Castanho (Diário de Sorocaba, 1978)

Aluísio de Almeida antecipou-se à história das mentalidades. Seus textos são agradáveis, as tropas passam pelos nossos olhos. Produziu até a História de Sorocaba para Crianças. Visionário. Assim ele descreve a origem do nome da Igreja e da cidade, Nossa Senhora da Ponte, de onde o aldeamento se formou:

O que paira acima das hipóteses é a interpretação mística já desenvolvida por frei Agostinho de Jesus cerca de 1709; Nossa Senhora é a ponte que liga o céu e a Terra. Penso que a escolha do dia 21 de novembro para a festa litúrgica é, por analogia, com N. Sra. da Escada, que se festeja nessa data.”

Daí eu me pego na maldita coisa do destino e de minha veneração à Nossa Senhora: nasci no mesmo dia da primeira missa sorocabana, um 21 de novembro, quase três séculos depois.

E não posso visitar partes do Mosteiro de São Bento (como é conhecida atualmente a antiga igreja de Nossa Senhora da Ponte). Tenho passado há tempos em frente à Capela e está em obras. Descascada, maltratada, cimentada e coberta por feios tapumes. Entristeci-me demais ao saber que o restauro do patrimônio histórico tombado pelo Condephaat está quase abandonado. São 19 anos de obras e não há previsão de término.

Mosteiro do São Bento: reforma interminável (Fonte: TV Tem)

Nesse tempo, Sorocaba transmutou-se numa semi-metrópole. Todas as praças do centro foram destruídas e reconstruídas com pouco verde, nenhum banco para sentar-se e pisos escorregadios e de péssimo gosto para que passemos rápido. Uma das primeiras fábricas da história do país virou “xópim” e a praça defronte, a da Bandeira, virou um pequeno quarteirãozinho sem árvores. A praça não é mais lugar de conviver.

As antigas Prefeitura e Câmara desapareceram na rua São Bento e esquina da XV de novembro. O Fórum (dito Velho), na praça do Obelisco (dita Frei Baraúna), abrigou a Oficina Cultural Grande Othelo, uma excelente ideia e atitude. Nos últimos anos, a oficina deixou o local e o Fórum foi tomado por abandono, sujeira e ponto de drogas.

Havia uma placa anunciando as reformas do prédio (orçadas em R$ 1,5 milhões). Data do término: maio de 2014.  Qualquer pessoa que visite o local sabe que as obras nem começaram. O coitado do marco zero desapareceu no meio do mato. O pelourinho providencialmente fica atrás do INSS, escondido em alguma reforma da Previdência.

Fórum velho de Sorocaba (Fonte: Arquivo do Cruzeiro do Sul, 2017)

Vez ou outra, conto aos alunos sobre a feira de muares de Sorocaba. E de nossa tradição pecuarista e industrial. Na infância, no caminho para casa, tinha de atravessar o imenso terreno ao lado da linha de ferro.

Lá, havia dezenas de estábulos e pequenas casinhas de madeira. Víamos bois, vacas, galinhas e outros bichos, como as galinhas-de-angola do lodaçal. Por ali, corria o córrego Supiriri, que em qualquer chuvinha transformava a fazenda urbana num pântano. No local, existia a sede da Colaso, Cooperativa de Laticínios de Sorocaba.

Leite na garrafa de vidro: parte da infância

Ganhei, ali, o primeiro saquinho de leite da minha vida, o qual levei feliz de presente para minha mãe. Segundo a Colaso, as garrafas de vidro eram “utensílios pré-históricos”. A exposição permanente denominava-se Fapis (Feira Agropecuária e Industrial de Sorocaba).

Em 1979, os tratores chegaram, derrubaram tudo e depois apareceram milhares de caminhões para terraplanar o córrego, devidamente canalizado e submerso na terra. Segundo a fala infantil, no lugar da falecida Fapis seria construído o maior “xópim center” do planeta. Décadas depois, a obra virou apenas uma galeria de lojas.

Passeio na Fapis, em seu último ano de existência (Foto: Arqruivo)

Sorocaba perdeu o Carnaval. A cidade se despediu do estádio romântico Humberto Reale (nos altos da Vila Hortência, com “c”). Os ônibus amarelo e vermelho da Vima sumiram. Comida caseira hoje é sushi e hambúrguer artesanal. Os bailes do Estrada, do 28 (dos afrodescendentes), do Recreativo e do Clube Sorocaba desapareceram.

Muita gente que habita a cidade veio de outras terras e não sabe o significado de ‘largue mão’ ou ‘chovendinho’. A Catedral da cidade, hoje, tem um afresco de um Jesus surfista e uma imensa guarita da guarda civil municipal bem na porta sagrada.    

Outro título conquistado pelo Clube 28 de Setembro no Carnaval de 1988

Sorocaba se suburbanizou nestes anos, fenômeno tradicional no interior paulista. Gastaram-se centenas de milhões de dólares com ruas, avenidas, rotas de circulação para trazer de volta os habitantes transfugos. O resultado era óbvio: carros e mais carros e trânsito caótico.

Paço Municipal Brigadeiro Tobias

As pessoas ficaram meio de asfalto. As plantas viraram ornamentos. O tempo pediu passagem e engoliu o velho. O que me encasqueta é ser o novo e o moderno um bicho contaminado de preguiça no aprender e da proliferação em esquecer.

(A imagem que abre este post é o quadro “Primeira Missa de Sorocaba”, de Ettore Maringoni)

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