Os hóspedes e o vírus (Parte II)

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – Quanto mais dramática é a situação, maior é o tamanho da fragilidade humana. Foi essa a sensação que envolveu a jornalista no interior do hotel em quarentena perante um dilema moral: devia contar ao mundo que o vírus já matara dois hóspedes ou devia omitir essa informação?

Além do gerente e de um grupo de funcionários e técnicos do governo, somente a jornalista conhecia a verdade dos fatos. As mortes foram omitidas por decisão oficial para evitar o pânico entre os hóspedes e essa podia ser considerada uma decisão correta no aspecto humanista. Em contrapartida, a transparência e o acesso à verdade eram direitos dos cidadãos confinados no prédio do hotel. Além disso, conhecer os fatos em toda a sua gravidade era uma medida de defesa.

A jornalista fazia essas considerações. Devia tomar uma ou outra decisão, sem dúvida, pois a inércia não era alternativa. E a atitude que tomasse resultaria em julgamentos, dentro e fora do hotel. Seria ao mesmo tempo aplaudida, de um lado, e linchada, de outro. Silenciar seria equivalente a violar a sua consciência. O que fazer? Escancarar a verdade ao mundo?

Essa não era a primeira vez que ela deparava com um dilema moral na profissão de jornalista, mas certamente era o pior desafio dessa natureza em mais de trinta anos de trabalho. Nunca se arrependeu de decisões tomadas no calor da hora e hoje não seria a primeira vez que ia vacilar.

Aprendera que nessas horas o melhor critério é o de salvar vidas. E finalmente, após profundo exame de consciência, ela transmitiu ao vivo uma gravação pela internet com a descrição de tudo o que sabia. Incluiu as duas mortes, o uso da mentira por parte do gerente para conter o terror, o sofrimento causado pela quarentena.

Como era de se esperar, o impacto da live foi terrível. Os hóspedes se sentiram enganados pelo gerente, por ele ter dito que estava tudo bem, e só não saíram dos quartos para cobrar responsabilidade dele porque o temor de contágio superava a  indignação.

Na live, a jornalista disse que divulgou os fatos, por mais preocupante que fosse essa atitude, porque não tinha dúvida de que o acesso à informação era um direito de todos.

A essa altura, tinham sido identificados outros hóspedes suspeitos de contaminação. Ninguém podia fazer nada. Na falta do que fazer, muitos rezavam.

Para surpresa da jornalista, as previsíveis reações sobre a decisão de divulgar a verdade foram mínimas. Houve crítica à ousadia, mas também elogio à coragem de assumir sozinha uma responsabilidade que em outros momentos poderia ser compartilhada com mais gente. As decisões mais complexas e de alto risco habitualmente são as mais difíceis e solitárias.

O fato é que o terror causado pelas duas mortes ofuscou qualquer julgamento sobre o dilema moral da jornalista. Um dado que fez toda a diferença para conter as reações foi justamente a dica dos órgãos oficiais de que a informação é a melhor defesa na luta contra o vírus.

Outros problemas diante de uma situação tão dramática eram as questões da imparcialidade e equidistância jornalística. As teorias que pregam essas práticas caem por terra em cenários que ultrapassam a fronteira da normalidade, pensou a jornalista.

Ao contrário de coberturas de rotina, desta vez ela não era só uma testemunha dos acontecimentos. Era também uma criatura diretamente envolvida no cálculo de risco. E por isso sentia medo, dor, sofrimento.

Sofreu com as histórias como a do menino morto. Imaginou o pai dele lá fora, sem poder entrar no hotel com o remédio, e depois recebendo a terrível notícia pela internet. Tentou não pensar no desespero da mãe do garoto, mas não conseguiu.

A jornalista abriu a porta do quarto e quis sair mais uma vez para peregrinar pelos corredores do hotel, a essa hora desertos. Desta vez, foi flagrada pelo sistema de câmeras e seguranças a obrigaram a retornar ao quarto. Nesse instante, cortaram o sinal da internet no hotel e o isolamento dos hóspedes se aprofundou.

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