Frioli e seus 59 anos de repórter fotográfico

GERALDO BONADIO – Aniversariou dia 28 de março meu velho amigo Adolfo Frioli, hoje residindo à sombra da Montanha Sagrada do Araçoiaba, sob a guarda amorosa de dona Ida.

Somos, ele e eu, dois dos espécimes mais antigos da imprensa sorocabana, somente batidos, nesse quesito, pelo Ubirajara Batista Ferreira, que depois bandeou-se de mala e cuia para a advocacia e pelo Sérgio Coelho de Oliveira, a quem, na mais ousada aposta profissional do Vitor Cioffi de Luca, sucedi, em 1962, no comando da redação do jovem e ascendente Diário de Sorocaba.

Falo em aposta ousada porque, à época, eu ainda não completara meus vinte anos, nunca trabalhara antes na “imprensa escrita”, como se dizia àquela época, e batalhava, à noite, na Organização Sorocabana de Ensino, para completar a 3ª série do ginásio, equivalente, hoje, à 7ª série do ensino fundamental.

Naquele momento, Sorocaba tinha três emissoras de rádio AM – as emissões em FM só se tornariam técnica e economicamente viáveis anos mais tarde – e três jornais que circulavam de terça-feira a domingo. Todos esses veículos achavam-se sediados num polígono irregular tendo como pontos extremos a esquina da rua da Penha com a Maylasky, onde, parece-me – não tenho certeza – funcionara antes uma repartição fazendária ou coisa assim, cujo andar térreo o Vitor alugara para instalar redação e oficinas do jornal, e, na outra ponta, o casarão ainda existente, num terreno que fica na esquina das ruas Miranda Azevedo e Manoel José da Fonseca, onde funcionava a Rádio Cacique (ZY 43), onde eu trabalhara desde 1958 ou 59.

No interior dele, situavam-se o estúdio e auditório da Emissora Vanguarda (esquina da Maylasky com a Braguinha, no andar superior do antigo prédio da Drogasil); a redação da Folha Popular, numa casa velha da rua Padre Luiz, defronte à rua Carlos Gomes e, na esquina da São Bento com a Santa Clara, um sobrado que abrigava, no térreo, a redação do Cruzeiro do Sul e, no andar superior, estúdio e auditório da PRD-7 Rádio Clube de Sorocaba, veículos pertencentes aos herdeiros de Orlando da Silva Freitas. As oficinas do Cruzeiro, com entrada pela rua Santa Clara, interligavam-se, pelo térreo, com a redação.

O Diário era uma típica empresa familiar, composta, principalmente, pelos familiares de dona Tereza da Conceição Grosso de Luca. Os filhos, ainda em idade pré-escolar, estudavam no Santa Escolástica; um dos seus irmãos, Cláudio, estava entrando na adolescência; outro, o Humberto era um faz tudo nas oficinas e o mais velho – Domingos, que todos conheciam como Neno -, entre mil outras coisas, comandava a clicheria, de onde saiam as ilustrações em foto para a edição do dia seguinte.

A redação se compunha de um redator principal – no caso eu -, auxiliado por um redator de esportes, o jornalista, radialista e funcionário público municipal José Ferraz Filho, que produzia todo o material para a página de esportes; um revisor, o Lúcio Assaf, que acumulava a função com a de rádio escuta, que selecionava, no noticiário das emissoras por ele captadas num receptor pequeno, notas curtas que compunham, na contracapa, a coluna Últimas.

Redação e oficinas eram universos vizinhos e distintos. Nesta, em três linotipos, funcionários jovens eram auxiliados por veteranos, como o ferroviário Luiz Orlando de Souza, que, após sua jornada nas oficinas da Sorocabana, assumia uma delas. Luiz Orlando era conhecido como Chessmann, tal sua semelhança com Caryl Chessmann, um norte-americano condenado à morte que aguardava execução, nos Estados Unidos, e, na prisão, escreveu vários livros, que fizeram muito sucesso inclusive no Brasil, através dos quais tentou, infrutiferamente, obter a comutação de sua sentença.

Uma linotipo tem três componentes básicos: teclado, magazine e caldeira. Quando uma tecla era premida, desprendia-se do magazine e caia num componedor, a matriz que tinha, em baixo relevo, o molde da letra selecionada. Preenchidos os espaços da linha, um braço mecânico as deslocava até à saída da caldeira, a qual, injetando nos moldes a mistura de chumbo e antimônio líquidos, gerava linhas ferventes e brilhantes.

Completado o texto do artigo, um paginador recolhia o bloco de linhas, levando-as até uma rama de metal. Nessas ramas eram geradas, uma a uma, as páginas da edição.

O sistema, mecânico, estava sujeito a falhas que, se escapassem à revisão, poderiam gerar situações constrangedoras. Uma delas ocorreu na edição da Folha Popular, que registrou o falecimento do pai do então vereador Edward Marciano da Silva, o Fru Fru. O linotipista digitava ‘p’ e a matriz que caia era o do ‘m’. Resultado: a expressão “perda porque passaram” – chavão que exprimia o pesar dos familiares pela morte do ente querido -, gerou uma frase de sentido totalmente diverso que escapando à revisão, foi às ruas.

Com o Neno acumulando funções, o jornal precisava de um fotógrafo que pudesse dedicar maior número de horas à atividade. E foi por aí que, em outra aposta certeira do Vitor, o Diário contratou o Frioli, em 1962. Ou seja, com 59 anos de tarimba, Adolfo é hoje repórter fotográfico mais longevo da história da imprensa sorocabana.

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