No Maracanã, com Paulo Cézar Caju

Paulo Betti

Sentei ao lado de Paulo Cézar Caju no Maracanã, no jogo desse domingo do Fluminense contra o Palmeiras.

O protocolo colocou uma cadeira vazia entre nós dois, mas fui puxando conversa.

Falei do meu pequeno e quase extinto São Bento. Se ele lembrava do ponta-esquerda Paraná. Ele comentou que Marinho Perez está com Alzheimer. Marinho foi zagueiro da Seleção e um dos únicos que entenderam o carrossel da Holanda. Começou no São Bento.

O Maracanã está mais barulhento. Tenho reparado na acústica do novo estádio, agora estilo arena, sem a geral, totalmente diferente.

Caju disse não sentir saudades de estar no campo, jogando. Porque o futebol de hoje está medíocre. Concordei porque o jogo estava realmente muito ruim. Reclamávamos das recuadas de bola do Flu.

Perguntei sobre a violência no futebol, meu tema predileto. Ele disse que o pai dele era lateral e aos 25 anos teve que parar de jogar por causa de uma contusão séria.

O pai ensinou a ele como escapar das travas assassinas dos zagueiros. Mostrou com as mãos diversas vezes o tamanho delas, que mais pareciam facas. “Se pega um tendão você está acabado.” Comentei que ele estava bem fisicamente. Lembrei que Tite, técnico da atual Seleção, ex-jogador, caminha com dificuldade.

Caju disse que sempre jogou com inteligência e procurando driblar as sarrafadas dos beques.

Comentei que ouvi Luxemburgo, no podcast do Mano Brown, falando da violência no futebol. Que Luxemburgo recebeu esse nome pois o pai quis homenagear a comunista Rosa. Que o técnico era bem posicionado. Meu xará disse: “Olha, Betti, não vamos falar de política.”

Estranhei. Lembrei, sem falar nada, que ele jogava peladas com o general Figueiredo. Mas rebati maus agouros lembrando saudoso nas colunas espertas que ele escrevia no jornal.

O jogo seguia e Caju cada vez mais incomodado.

“Olha só esse lateral! É canhoto. Por que não avança pela esquerda?”

Ele reparou que eu estava comendo muito amendoim e biscoito Globo. Perguntou se eu não tinha almoçado. Respondi que era larica. Ele riu.

Continuou reclamando do jogo. Senti que ele sofria muito em ver aquilo. O Flu tava perdendo de 1 a zero.

Eu estava me sentindo um Nelson Rodrigues solitário vendo o jogo com um craque ao meu lado.

Paulo Cézar se incomodava com a torcida e os palavrões contra os jogadores. Vi meninas de cinco anos dando risada. Aliás, torcida e jogadores só falam três palavras/expressões: PQP, FDP, VTNC, porra e caralho. Ops! São cinco!

“Olha só! Estão reclamando do gramado! Um tapete, xará.” Mostrou a grande área. “Ali onde o Manga ficava não tinha nem grama, era só pedregulho.”

Pedi pra fazer uma selfie com ele. Uma das poucas de minha vida.

Ele comentou que tinha encontrado Tony Tornado. Admirado com os noventa de Tony. Falei que vamos chegar lá. Ele disse que gosta de andar de metrô. Que Tony queria levá-lo até em casa de carro, mas ele preferiu pegar o trem na estação Jardim Oceânico, aqui na Barra.

Pedi o WhatsApp dele. “Prefixo 11, mas estou morando em Floripa. Vou pra Paris a trabalho mês que vem”, ele disse. Lembrei de seu glamour, do visual elegante, das roupas e carrões, das garotas bonitas. Ele jogou no Paris Saint-German. Tornou-se Chevalier de la Legion d Honeur 2016. Falou de meu vizinho Cláudio Adão que o acolheu, ou melhor, acudiu, quando precisou plantar o pé no chão. Lembramos que Cláudio teve covid e foi pagar promessa, indo a pé com sua esposa Paula até Aparecida do Norte. Lembrei que o grande Barretão, cineasta, sogro de Adão, também está com noventa.

Acabou o primeiro tempo e ele falou que ia embora. Eu argumentei: “Fica, Xará, não leva tão a sério. Vamos tomar uma.” Pensei em cerveja que eu não bebo, mas ele me lembrou com um sorriso melancólico (impressão minha?) que ele não bebe mais. Corrigi pra água; ele também não quis.

“Fica, Caju, te dou carona até sua casa quando acabar.”

“Não, eu pego o metrô aqui na frente e desço na estação Antero de Quental, no Leblon.” E foi.

No segundo tempo o Flu virou e ganhou do Palmeiras. Felipe Mello foi expulso. Lembrei que ele defende Bolsonaro e é violento, mas faz bons passes em profundidade, como aquele pro Robinho.

Fiz um post com o Caju e alguém comentou que ele é bolsominion. Pensei: não importa, mas entristeci um pouco. Por que ele gosta de um homofóbico, racista e defensor da tortura?

Continuei no celular e um blog escroto alardeava na minha cara: vejam como ficou o ator Paulo Betti 30 anos depois da novela Tieta!

E mostravam a foto antiga, de bigodinho, ao lado da querida Tássia Camargo. Tentei achar o retrato atual, curioso pra constatar o horror, mas não abriu. Que site de merda esse “Selfie”, parece ser português. Quer saber? PQP, VTNC, porra, caralho, FDP! O Flu ganhou! 🇧🇷🎥🎭🤹🏻‍♂️❤️🇧🇷

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