Crítica teatro – Gavetas do Corpo

JOSÉ SIMÕES –   Gavetas do Corpo, o novo espetáculo da Camarim Cia de Teatro, toma como ponto de partida a discussão do corpo e da corporeidade neste tempo e lugar. São as histórias/memórias do corpo particular,  privado e  vivido pelos artistas interpretes,  rememoradas, disfarçadas, reconfiguradas, inventadas e recusadas que estão postas em cena.

Gavetas do corpo é um espetáculo que recebeu apoio da LINC (Lei de Incentivo a Cultura de Sorocaba) e, também, foi contemplado pelo programa de Qualificação em Artes do Estado de São Paulo – Ademar Guerra e pelo Projeto Incubadora do Sesc Sorocaba.

No longo processo de criação cênica realizado pelo grupo a discussão do corpo e do espaço (por eles usado  e vivido) foram estruturadas metaforicamente em gavetas. Segundo os artistas:

o espetáculo revela em cena a abertura de gavetas internas dos três artistas, dando visibilidade a uma vida interior repleta de memórias, segredos, esperanças, sonhos, medos, alegrias e tristezas.

A utopia da memória como arquivo não é nova. Ela é recorrente na sociedade como bem aponta Fausto Colombo em seu livro Arquivos imperfeitos.

O sonho de se poder arquivar todo o vivido e com isso preservar a memória e a história (a nossa e a da humanidade) esta presente ao longo da história da humanidade. Assim desejaram os enciclopedistas, do mesmo modo como desejam, até os dias de hoje,  os que lutam bravamente para  arquivar a vida  em fotos, textos, álbuns em pastas, que já não cabem mais nos computadores e são armazenadas nas chamadas nuvens.

O espetáculo Gavetas do Corpo traz consigo esta tentativa arquivística atrelada à noção de imperfeição e de incompletude. De tal modo que a memória em cena não é recordação. É a ação presentificada no aqui-agora.

é a lembrança que torna valioso o objeto lembrado (Fausto Colombo)

Temos um espetáculo permeado por lacunas e aberto às múltiplas possibilidades de leitura por parte do espectador. Contudo não se trata de uma obra aberta. Uma vez que, há muito do pensamento e da lógica cartesiana presentes na encenação. Seja, por exemplo, na montagem e no modo de encadeamento das cenas. Isto é, como os interpretes criadores organizam cenicamente as metáforas/gavetas a serem abertas para a leitura dos espectadores. Ou seja, nas opções da trilha sonora,  em diálogo narrativo com as cenas/metáforas das gavetas que, de certo modo, orientam os possíveis caminhos na recepção do espectador. Esta intencionalidade é fundamental nos processos que se denominam teatro.

Trata-se, pois, de um espetáculo  autoral, não biográfico, mas vinculado às histórias do mundo vivido pelos interpretes criadores. Isso porque as cenas apresentadas partiram do repertório de vida de cada um dos interpretes – Julio Scondolo, Maria Helena Barbosa e Hamilton Sbrana.

O espectador encontrará um espetáculo  poético, emocionante e rigoroso com todos os detalhes do fazer e da produção teatral. Nele  se encontram cuidadosamente trabalhados: o  corpo do ator, a voz, o visagismo, a interpretação, os figurinos, os objetos cênicos, a trilha sonora, o projeto de iluminação, as fotografias  e o material visual para a divulgação do espetáculo. Um exemplo do teatro profissional de Sorocaba.

Gavetas do corpo é um espetáculo significativo  nesses tempos obscuros de tentativa (de um grupo) de associar ao corpo a falta de vergonha, a imoralidade  ou a ideia de baderna. Não são poucas as imagens de corpos utilizadas nas redes sociais para desqualificar instituições educacionais ou o próprio conhecimento. Negar o corpo é negar a  humanidade.

É bem isso, que no contexto deste lugar vivido, Gavetas do Corpo é um espetáculo urgente e necessário.

 

 

 

 

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