O sonho emprestado (conto). Parte 3 (final): Até onde minha música chegar, você estará comigo e será parte dela

JOSÉ CARLOS FINEIS – No dia seguinte, logo cedo, Quim procurou os pais de Clara no bar onde trabalhavam e teve com eles uma conversa confusa, entrecortada pelo atendimento aos clientes. Não que eles não entendessem o idioma. Não entendiam exatamente o que esse tal de Francisco queria com a filha deles. Quim gaguejou várias vezes. É sempre difícil explicar o porquê de uma coisa que não sabemos ao certo o que é. Mas, por fim, os pais da menina concordaram em receber o vizinho no domingo depois do almoço, já que, de segunda a sábado, acordavam antes de o sol nascer e trabalhavam até tarde da noite.

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Estavam ainda na terça-feira, e Francisco teve de conter a ansiedade, que o fazia andar pelo apartamento mexendo nos objetos ou enfiando alguma coisa na boca para comer, mesmo sem estar com fome. Enquanto não chegava o dia, o ex-funcionário público, ciente da importância daquele encontro, ensaiou repetidas vezes o que pretendia dizer, separou as roupas que vestiria, cortou o cabelo – sim, ele cortava o próprio cabelo havia anos – e vasculhou as gavetas em busca de óculos escuros, pois sabia que seus olhos, acostumados à penumbra do apartamento, provavelmente doeriam quando expostos ao Sol.

Finalmente, no domingo, três minutos antes da hora marcada, Francisco desceu a escadaria pela qual não passava havia muitos anos, levando consigo uma caixa grande, embrulhada para presente. Vestia roupas um pouco antiquadas, dos tempos em que ainda era oficial de justiça, pois em sua reclusão usava qualquer coisa – raramente precisava de roupas para sair. Quim, que o esperava na porta, não conseguiu evitar um pensamento engraçado. Camisa social branca, paletó cinza de tecido leve, gravata azul-claro, calça do mesmo tom do paletó, cintos pretos e sapatos igualmente pretos, bem engraxados e polidos, Francisco parecia um personagem saído do “vale a pena ver de novo” da televisão.

Com Quim sempre a seu lado, Francisco bateu palmas na casa de muro baixo. A família já o esperava. Saíram todos para recebê-lo. A mulher ficou um pouco atrás do marido, com um sorriso de Mona Lisa. O homem apertou com força a mão estendida de um tímido Francisco. O rosto daquele pai expressava a confusão de sentimentos que fervilhava em seu interior. Sério, curioso, até um pouco hostil, porém educado, convidou Francisco e Quim a entrarem, sem esquecer do costumeiro “não reparem a bagunça”.

Na sala, ainda de pé, Francisco estendeu a caixa de presente para a dona de casa, que permanecia sempre um passo atrás do marido.

– Me permita presenteá-los com algumas lembrancinhas. São para as crianças. Sei que tenho sido um péssimo vizinho. Fiquei durante muitos anos sem sair para a rua. Não por doença, pânico, essas coisas. Foi por opção mesmo, porque sou um tipo meio avesso. Talvez antissocial fosse o termo mais adequado para me definir.

– Nós também somos assim – consolou-o o chinês ou coreano, convidando-o para se sentar. A mulher sentou-se também e abriu a caixa, sob os olhares de todos. Eram livros de diferentes formatos. Alguns, grandes e com ilustrações coloridas na capa, obviamente eram para o menino, que os recebeu com um sorriso pela metade, sem entusiasmo. Quatro pesados livros, menores no tamanho e maiores na espessura, evidentemente eram para Clara, que olhava suas capas e os folheava como um chocólatra que ganha uma caixa de bombons.

– São livros sobre a história da música e dos compositores – disse Francisco para a menina.

– Agradeço pelas crianças. Leitura é sempre bom. Abre a cabeça! – disse o pai, com um breve sorriso. – Em que eu posso ser útil ao senhor?

– Vocês têm tempo? – Francisco quis saber.

– Todo o tempo do mundo, mas só até as oito da noite, quando precisamos dormir, pois amanhã começamos muito cedo.

– Sim, entendo – Francisco respondeu com seu melhor sorriso. – Na verdade, não vai levar tanto tempo assim. Só quero falar um pouco de mim e fazer um pedido.

“Clara, será que você me empresta seu sonho? Quer dizer, será que você permite que seu sonho seja meu também?”

Diante daquela pequena plateia atenta, com apenas uma interrupção para que a mulher servisse café da garrafa térmica aos adultos, Francisco contou sua história, desde a infância naquela mesma rua. Procurou ser sucinto, para não cansar os anfitriões. E teve o cuidado de portar-se de maneira amigável e rir muito, porque desejava demais que eles lhe concedessem o pedido que o movera até ali.

Falou de sua longa reclusão e, entre expressões de surpresa e estranhamento, de como se sentira feliz no dia em que não mais precisara pisar na rua. Disse também que descobrira, porém, ser falsa aquela felicidade, pois certamente Deus não o mantinha vivo para ser uma não presença e viver uma vida entre parênteses, quase como um morto-vivo que existe apenas para si mesmo, mas não faz diferença nem para si nem para os outros.

Depois, para surpresa ainda maior daquela família, Francisco contou-lhes como o som da flauta de Clara mexeu com seu coração e o levou, gradativamente, a rever sua concepção negativa sobre o mundo e as pessoas. A flauta da menina e seu empenho em aprendê-la, disse o visitante, fizeram-no compreender a grandiosidade das artes e da doação, e das demais virtudes humanas que ele negara até então. Por fim, revelou que esse despertar o deixara alegre, mas, por outro lado, extremamente triste.

– Vejam como são as coisas. Só agora, já caminhando para a velhice, eu descobri que não tenho um sonho, um motivo para viver, além do simples viver.

O pai, educado, porém curioso, quis saber:

– E como podemos ajudar, vizinho? O senhor nos honra compartilhando sua história e seus sentimentos. Sinal de que confia em nós, pelo que agradecemos. Mas diga, em que podemos ajudar?

– Meu pedido é simples, e sei que vocês vão entender. Eu vim aqui em busca de um sonho, de alguma coisa que me faça sentir que estou vivo. Como eu disse, não tenho um sonho. Acho que fui um idiota, confesso. Mas acho também que sempre é tempo de consertar as coisas. Soube que a Clara quer estudar música, ser uma grande instrumentista, tocar em orquestras. Queria ajudá-la a alcançar esse objetivo, custeando seus estudos. Será que os senhores concedem esse meu pedido?

– Nós, bem… – engasgou o pai, diante da oferta inesperada.

– Por favor, deixem-me ajudar – insistiu Francisco.

E depois, dirigindo-se a Clara diretamente, com seus olhinhos de espanto:

– Clara, será que você me empresta seu sonho? Quer dizer, será que você permite que seu sonho seja meu também?

O comerciante se antecipou, antes que Clara respondesse:

– E o que o senhor vai querer em troca?

– Nada. Nada. Eu só quero ajudar a filha de vocês a ser uma grande flautista. Saber que ela realizou seu sonho e que percorre o mundo com uma grande orquestra. Minha alegria será vê-la brilhar, de longe. Ou talvez, quando ela estiver no Brasil, ir vê-la tocar, como um qualquer do público. Mas isso é para o futuro. Por enquanto, me contento apenas em sonhar o sonho da filha de vocês e ajudar para que ele se realize, plenamente.

– E o que o senhor espera ganhar com isso? – perguntou a mulher, depois de pedir autorização com os olhos ao marido para falar.

Francisco tinha a resposta muito clara em sua mente.

– Acho que já fui bastante claro. Abri meu coração com vocês. Eu ganho a certeza de que não passei por esta vida em vão. De que não fui um número. Um idiota fechado em um apartamento. A alegria de saber que fiz algo de bom por este mundo.

O casal se entreolhou sem trocar palavra. Conversavam com os olhos. Clara esforçava-se por conter a alegria e vibrava em silêncio. Ao cabo de alguns segundos, a mãe leu algo nos olhos do marido e sorriu. Já não era um sorriso contido. Podia-se ver seus dentes grandes e alvos, que ela procurava esconder com a mão enquanto fazia um comentário incompreensível em chinês ou coreano.

O rosto do pai, porém, permanecia inalterado. E ele falou:

– Sua generosidade é maravilhosa. Sentimos sua presença aqui, hoje, como a de um enviado divino. Acreditamos em sua boa vontade. Sinceramente, não consigo entender como o som da flauta de Xiara, ainda tão desafinado, tocou o seu coração de forma tão intensa, a ponto de mudar sua forma de ver a vida, mas acredito no senhor. E acredito também, sem ofensa, que senhor é meio fora da caixinha…

– Sim, sou! – concordou Francisco com uma gargalhada, enquanto a mulher dava um empurrão nas costas do marido e proferia uma indecifrável repreensão.

– Mas – retomou o pai – sua generosidade pode trazer problemas para mim, porque tenho dois filhos, e os dois têm sonhos que não posso custear.

Apontou o menino com um sinal de cabeça. Este, parecia ter murchado na cadeira, observando a tudo sério e calado, ainda com os livros coloridos nas mãos.

Francisco se surpreendeu com a sinceridade do outro, mas acabou por lhe dar razão. Aos seus olhos, de Francisco, o importante era ajudar Clara. Mas, aos olhos do pai, ajudar um e não ajudar o outro seria uma injustiça.

– Eu tive a oportunidade de ouvir, por aí, que o seu filho Ronaldo gosta muito de jogar futebol – ponderou um diplomático Francisco.

O garoto acordou de seu torpor.

– Ele quer ser jogador de futebol. Dizem que joga bem. Eu não entendo de futebol. O senhor ajudaria a pagar uma escolinha? Sei que o Ronaldo se tornar um grande jogador é um sonho bem difícil de realizar, mas não deixa de ser um sonho.

Ronaldo não acreditava que o pai havia dito aquilo. Mas estava feliz, ainda assim.

– Entendo o que o senhor diz. Financiarei os estudos de Clara e a escolinha de futebol do Ronaldo, com muito prazer. Se concordarem comigo, sairei daqui com a felicidade em dobro! E se o senhor me perdoa a ousadia, discordo quanto às chances do Ronaldinho. Esse menino, se Deus permitir e se ele se aplicar bastante, ainda vai ser um craque do Palmeiras, meu time do coração (só para esclarecimento do leitor, não era; Francisco apenas se valeu, para selar de alguma forma um acordo com toda a família, da informação de que Ronaldo era palmeirense, passada por Quim). Quem sabe, um dia, não vemos esse menino com a camisa da seleção?

Francisco levantou-se e estendeu a mão:

– E então? Temos um acordo?

O pai se pôs de pé solenemente, com um esboço de sorriso no rosto altivo e cansado.

– Sim, temos um acordo. Eu prestarei contas ao senhor de cada centavo. Não permitirei que nada seja gasto em outra coisa que não sejam, como o senhor diz, os sonhos que tomou emprestados de Clara e Ronaldo. O senhor é um homem sábio, e viverá muitos anos ainda, pois quem tem sonhos tem sempre com que se ocupar e, por vezes, até se esquece de morrer.

Francisco agradeceu sem jeito, fazendo mesuras e tropeçando numa cadeira. Se havia, em todo o mundo com seus mais de sete bilhões e setecentos milhões de habitantes, um homem que pudesse ser considerado o mais feliz, era capaz que fosse Francisco.

Despediram-se no portão com acenos e agradecimentos. Mal havia dado três passos, Francisco viu surgir em sua frente uma figurinha franzina e de cabelos negros e compridos, que gesticulou pedindo que se abaixasse. Clara abraçou fortemente o pescoço de Francisco e sussurrou no seu ouvido:

– Muito obrigada. Enquanto eu viver e até onde conseguir chegar com minha música, você estará comigo e será parte dela.

Francisco então desabou. Definitivamente, não era mais o mesmo. Era a segunda vez que chorava em poucos dias – e, desta vez, em público –, depois de guardar lágrimas, sei lá, talvez desde a Copa de 1982 ou antes disso. Por sorte, havia enfiado um lenço no bolso do paletó, dobrado à moda antiga. Tocara-o não apenas a promessa da menina, mas o fato de chamá-lo de você, que para ele soou como uma comunhão de almas. Levantando-se, passou a mão na cabeça da menina e, ainda enxugando as lágrimas, recolocou os óculos escuros escuros, receoso de que os orientais – que a tudo assistiam do portão – o julgassem ainda mais louco por chorar assim, na rua.

– Eu sei, Clara. Eu sei – disse em voz baixa, para que só ela pudesse ouvir. – Apenas faça o melhor que puder e vá até onde Deus permitir. Esteja onde estiver, eu estarei com você, em pensamento, rezando por sua felicidade.

Em poucos passos, Francisco e Quim chegaram à porta do sobrado.

– Bom, Francisco. Boa tarde. Pode entrar. Eu dou cobertura até fechar a porta.

– Acho que eu não quero entrar não – disse Francisco, para um incrédulo Quim. – Vou dar uma volta por aí, sem destino. Quer ir comigo? Eu nem sei mais andar sozinho por essas ruas.

Quim tinha encontro marcado com a namorada. Também precisava estudar para um concurso público. Algo lhe dizia que estava prestes a perder seu único bico.

– Sinto muito, hoje não vai dar. Fica pra outra hora.

– Tudo bem. Sem problema. Vou só, então. Há muito não ando pela cidade. Quero sentar em algum banco de jardim, olhar o vai e vem das pessoas. Tomar um sorvete ou um café, ou uma água, qualquer coisa. Está uma tarde linda aqui fora. Não me lembro, em toda minha vida, de ter visto uma tarde tão bonita assim.

Para ler o conto completo

O sonho emprestado (conto). Parte 1: sobre homens, flautas e parafusos

O sonho emprestado (conto). Parte 2: O triste refúgio à prova de vida de Francisco, o solitário


Ilustração: pintura do site http://webneel.com/chinese-paintings (autor desconhecido)

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4 comentários em “O sonho emprestado (conto). Parte 3 (final): Até onde minha música chegar, você estará comigo e será parte dela

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  1. Parabéns Fineis!!! As três partes de seu “conto” demonstram o quão tu és sensível, pois se revelaram a facilidade e o raciocínio claro expostos em três assuntos com o mesmo “tema”.
    Abraços do Zé Rubens!!!

  2. Obrigado, Zé Rubens. Suas palavras são um incentivo para este aprendiz de contista. Escrever é um sonho que estou realizando, e é muito bom ter esse retorno. Grande abraço!

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