Há 50 anos morria El Tigre, o mulato de olhos verdes, autor de 1.329 gols e que jamais perdeu um pênalti

FREDERICO MORIARTY – No ensolarado domingo de 16 de setembro de 1928, o supercampeão E.C. Paulistano martelava o gol do pobre União da Lapa. O goalkeeper estava com os dois pés fincados na linha do gol. Na marca do pênalti, o center forward preparava-se para marcar seu quinto gol dos sete da agremiação pertencente à elite paulistana. Arthur corre pra bola e chuta forte no canto direito. O arqueiro da Lapa pula como um felino e defende milagrosamente.

Friedenreich acabara de perder um pênalti. Um dos doze que deixou de fazer na carreira. Mas a lenda do futebol fica (alimentada pelo próprio jogador): Friedenreich jamais perdeu um pênalti! Era um jogador espetacular, nosso primeiro fora-de-série, mas perdeu alguns pênaltis sim. E daí? O futebol está em nosso imaginário muito mais pelas lendas, pelo fenomenal, pelo imponderável, como diria Nelson Rodrigues.

Quantas bicicletas Cristiano Ronaldo errou? Quem saberia dizer? Agora aquele lance mágico na Xampiôns de 2017 todos lembrarão. Estatísticas servem no futebol apenas para quem não sabe jogar. O gol é o orgasmo dos gramados, a matemática é o “vide bula” da vida. Aliás, voltando ao match: Friedenreich, depois do pênalti perdido, fez mais 3 gols. Terminou com seu maior recorde, 7 gols dos 9 a 0 que o Paulistano impingiu sobre o União da Lapa, tudo numa só partida.

Arthur Friedenreich: lenda dos gramados
Lendas Familiares

O avô de Friedenreich, um judeu tedesco, era veterinário e entomologista que migrou da Prússia, na década de 1860, para o interior catarinense. A excelente formação o levou a ser contratado pelo museu do Ipiranga de São Paulo. Karl veio para a capital paulista com a família toda, entre eles, estava Oscar, que logo arrumou um emprego público na área técnica de edificações da terra do café.

No final da década de 1880, o alemãozão de olhos verdes casou-se com Mathilda de Moraes. Mathilda era filha de escravos, mas nasceu livre. Como alguns poucos negros da época estudou para ser professora. A lenda preconceituosa a identifica como lavadeira. Em 1892, nascia o filho do senhor Oscar e da professora Mathilda, Arthur Friedenreich.

El Tigre, o primeiro fora-de-série brasileiro
Com o futebol na veia

O Campeonato Sul-americano 1919 colocou a Seleção Brasileira de Futebol em sua primeira final de sua gloriosa história contra o imbatível Uruguai. Após os 90 minutos, zero a zero. Terminada a primeira prorrogação e ninguém ainda fizera um gol. Aos 22 minutos da segunda prorrogação, depois de 2 horas e meia de Futebol, Artur Friedenreich arranca pela esquerda e fuzila as redes da futura Celeste Olímpica. Brasil campeão!

A imprensa do país vizinho inventou um apelido para o mulato de olhos verdes: El Tigre. Os jogadores desfilaram pelas ruas da capital do Brasil. As chuteiras do artilheiro foram expostas na sede da antiga CBD. O Brasil se industrializava e se urbanizava rapidamente. O futebol começava a desbancar o remo e se tornava o esporte das multidões.

A vitória em 1919 fazia nascer a febre do esporte bretão no Brasil e a adoração pelos footballers. El Tigre, além de craque, foi nosso primeiro ídolo dos gramados. Tanto que Pixinguinha, o maestro, arranjador, multi-instrumentista e autor de “Carinhoso”, compôs um choro em homenagem ao herói do título (ouça, abaixo, a gravação).

Friedenreich é um gênio da raça na pré-história do futebol brasileiro e mundial. Fez o primeiro jogo em 1911 no Germânia. Encerrou a carreira no Flamengo em 1935. Por quase um quarto de século fez gols pelos campos e gramados do Brasil e do mundo. Seus clubes principais foram o Paulistano, o São Paulo e o Flamengo.

Jogou entre o início da organização das ligas amadoras e o princípio do “profissionalismo” no futebol. Era atacante diferenciado na época em que os times tinham três posições fixas: defesa, meio de campo e ataque. Encerrou a carreira às vésperas do aparecimento do sistema WM e dos jogadores sem posição fixa. Fez a primeira partida da seleção brasileira em 1914, na qual fez um de seus 10 gols em 23 jogos pelo time nacional, Por puro bairrismo da Associação Paulista de Esportes Atléticos ( APEA, antecessora da FPF) foi proibido de disputar a primeira Copa do Mundo pela seleção brasileira, afinal ele seria o único paulista em meio a jogadores cariocas, disputada no Uruguai em 1930.

El Tigre integrou o Escrete Canarinho de 1919, campeão sul-americano
O milagre da multiplicação

Desde pequeno, fanático por futebol que sou, ouvia que havia um jogador que fizera mais gols que Pelé. O feito pertencia a Arthur Friedenreich, o “El Tigre”. Segundo a dupla de jornalistas e historiadores, João Máximo e De Vaney, o craque do Paulistano teria anotado impressionantes 1.329 gols, proeza reconhecida pela FIFA. São 47 gols a mais do que o Rei do futebol.

Para fortalecer a tese, João Máximo dizia ter mais de 30.000 jogos anotados em cadernos. Foi este jornalista que, anos depois. teve seus dados contabilizados para o recorde dos 1.282 gols de Pelé. Em 2000, a revista Placar faz uma grande reportagem e descobriu que não havia nenbum registro na FIFA. Mais do que isso, em 567 jogos oficiais, Friedenreich anotou “somente” 556 gols.

Segundo a revista esportiva, El Tigre colocou em suas estatísticas gols em jogos amistosos, partidas comemorativas e combinados. Fez 2 gols num combinado Palestra Itália e Corinthians contra a França. E vários gols nas partidas comemorativas (sic) da Seleção dos Negros contra os Brancos, realizadas em homenagem à Abolição de 13 de Maio, durante os anos 20.

Mas não podemos nos esquecer que Pelé contou também gols de amistosos, combinados e até da execrável Seleção do Exército em plena ditadura. Romário, para atingir o milésimo gol, tascou até partidas da categoria infantil. Túlio Maravilha, os gols que fez na Seleção do Circo Vostok. Talvez Friedenreich não tenha chegado aos 1.000 gols, mas a média dele em partidas oficiais é maior do que a de Pelé: 0,979 contra 0,937 gols por partid . Mas como dissemos acima, números são pra quem tem as canelas de pau.

O legado

Pelé, Romário e Friedenreich, cada um em sua época, foram fenomenais. Pelé, indiscutivelmente, foi um Big Bang no futebol. El Tigre foi bicampeão sul-americano com a Seleção Brasileira. Ganhou 7 campeonatos Paulistas: seis pelo imbatível Paulistano e o primeiro título pelo São Paulo F.C., então São Paulo da Floresta. Foi artilheiro do Paulistão por 9 vezes (Pelé foi em 11). Numa só edição, fez 37 gols em 20 jogos, o quarto maior número de gols numa edição, mas a de melhor média: 1,85 gols por jogo. Ganhou dezenas de títulos menores como Torneio Início e Copa Roca.

Em 1925, em excursão pela Europa com o Paulistano, Friedenreich estarreceu o Velho Continente. Foram 11 partidas e 10 vitórias do time paulista. El Tigre fez 9 gols, 3 deles contra a Seleção Francesa. Os jornais da época o apelidaram de Rei do Futebol por uns tempos.

E como jogava Friedenreich? El Tigre era alto para a época: 1,75m. E pesava apenas 57kg. Portanto, era leve e muito rápido. Jogador de fintas rápidas e de espaços curtos. Tinha um forte tiro de direita e era ótimo cabeceador. Fazia gols e mais gols. Resumindo: um centroavante que caberia em qualquer grande time da atualidade e seria titular de quase todas as grandes seleções. Talvez lembrasse o estilo de Ronaldo.

Arthur Friedenreich foi o artilheiro do primeiro título paulista do São Paulo

Friedenreich nos deixou há exatos 50 anos, consumido pela arteriosclerose aos 77 anos. Encerrou a carreira em 1935 e depois disso fez várias partidas beneficentes e tornou-se árbitro de futebol. Mas a profissão principal entre 1939 e 1962 foi a de responsável técnico e garoto-propaganda da Cervejaria Antárctica.

Atleta oriundo de uma era amadora, teve uma vida simples no bairro de Pinheiros, onde morou na rua Cunha Gago por quase 40 anos. Arthur Friedenreich, o El Tigre, foi o nosso primeiro craque e primeiro ídolo. Um fora-de-série que certamente brilharia nesses tempos de caneludos e cinturas duras.

(Na imagem de abertura deste post, as três maiores lendas do futebol brasileiro eternizadas em um registro fotográfico antológico: Friedenreich que entrega um livro a Pelé, tendo, ao fundo, Leônidas da Silva, o Diamante Negro).

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