Virtual e real

Marcello Fontes

A pandemia parece ter trazido definitivamente o  hoje chamado universo virtual para a vida de um bom número de pessoas. Trabalhos, aulas, procedimentos, solicitações, compras, serviços em geral, por um bom tempo tudo isso e muito mais só pôde ser realizado (e em alguns casos, ainda só pode) remotamente, usando a rede mundial de computadores como meio e vetor para possibilitar tais interações. Não que isso seja uma novidade: tais possibilidades já estão disponíveis há muito tempo; o caso é que, repentinamente e sem escolha, saíram do campo do possível para o do necessário.

As relações humanas também há muito enfrentam a nova situação de poderem se dar à distância, ou virtualmente, estabelecendo novas e curiosas formas de interação nem sempre bem aproveitadas ou mesmo apropriadas. Aplicativos de comunicação instantânea, redes sociais e outras plataformas trazem novos modos de se fazer amizade ou relacionar-se que talvez tenham até mesmo que resignificar o que exatamente estes termos (amizade, relacionamento) querem realmente dizer nos dias atuais.

Um colega me contou que, certa vez, foi a um café a convite de outro colega em comum. Lá chegando, o anfitrião estava entretido em seu smartphone, conferindo suas curtidas e respostas, falando sabe-se lá com quem. Pouco conversaram, pois aquele que o convidou priorizou suas relações remotas ou virtuais em detrimento da presença física daquele que foi convidado para estar ali com ele. O convidado, aborrecido, retirou-se após algum tempo.

Pois bem, repentinamente também a comunicação virtual ou remota deixou de ser uma possibilidade, conquanto por vezes necessária, para ser a única possibilidade e absolutamente necessária, vez que os contatos físicos foram e ainda estão parcialmente interditados.

Todas estas situações trazem, inevitavelmente, consequências e reflexões de variados aspectos. Aquela que irá nos interessar aqui é se realmente existe uma diferença ontológica (relativa ao ser e suas peculiaridades) ou substancial (significativa, essencial, fundamental) entre aquilo que hoje comumente se distingue em real e virtual.

Monges medievais estudando no século XII, auge da escolástica.

O termo virtual vem do latim medieval virtualis, que por sua vez origina-se do latim clássico virtus, no sentido literalmente de força corporal ou ânimo. Filosoficamente, este conceito passa a ser utilizado ainda na Idade Média pela Escolástica, expressão que no geral designa o ensino filosófico oferecido nas escolas eclesiásticas (ligadas a Igreja) e nas universidades europeias entre os séculos X e XVII, aproximadamente. As características deste ensino são a ligação com a teologia e a busca por um acordo entre a revelação divina e a luz natural da razão, além de uma ligação com o método lógico e argumentativo de Aristóteles. E por isso, antes de trazermos seu significado para a escolástica, falaremos de sua clara vinculação com o pensamento aristotélico.

Na obra que mais tarde ficou conhecida como Metafísica, Aristóteles propõe refletir sobre o ser, seus princípios e causas, bem como seus atributos essenciais. Para ele, o ser, ou seja, tudo aquilo que é, pode se dizer de várias maneiras. Uma destas maneiras é o ser como ato e como potência. É interessante notar que, por meio desta conceituação, Aristóteles quer resolver um problema de origem: enquanto filósofos anteriores entendiam que o ser é e o não ser não é, desprezando o movimento ou devir (Parmênides) ou que o ser é e não é dependendo do devir e do movimento (Heráclito), a solução apresentada por Aristóteles busca uma espécie de conciliação entre estes pensamentos supostamente opostos.

O ser em potência é aquilo que tem todas as condições de vir a ser: a madeira é uma mesa, ou porta ou cadeira em potência, o mármore é uma estátua ou coluna em potência, a criança é um adulto em potência, a semente é um fruto ou árvore em potência. O ser é em ato aquilo que está acabado, concluído, finalizado de algum modo. Todo ser em ato já o foi em potência, à exceção de Deus, que é ato puro. O ato tem prioridade e superioridade em relação à potência, pois não podemos conhecer a potência enquanto tal a não ser fazendo referência àquilo que se refere em ato, bem como o ato é condição, fim e regra da potência.

Podemos dizer que aquilo que é em potência o é virtualmente: o bronze é uma virtual estátua, o ferro uma virtual lança, etc. Daí chegamos à expressão virtual na escolástica, como já referido, que aproxima ainda mais o conceito da problemática contemporânea. Na escolástica, virtual opõe-se a formal ou atual. O virtual é o ser em potência, que poderá vir a ser. O virtual tende a atualizar-se, sem ter passado, no entanto, à concretização efetiva ou formal. A árvore está virtualmente presente na semente.

Com estes conceitos em mente, podemos principiar a refletir sobre se, de fato, aquilo que se chama hoje de virtual pode ser considerado de algum modo menor, menos importante ou, por outro lado, superior ou mais interessante do que o que é dito real. Real e virtual seriam de fato opostos, como tantas vezes supôs o senso comum? Como isso impacta nossas vidas em tempos de tamanha virtualização, a ponto de o próprio conceito de virtual ou a virtualidade assumirem novos e diversos significados?

A partir do século XX, o conceito de virtual ganha novas investigações, construções e desconstruções. De um modo geral, entende-se que o conceito de virtual foi distorcido pela grande mídia e consequentemente pelo senso comum, que lhe deram aspecto de sensacional ou fantástico, o que leva a uma implicação com o surreal, no sentido de algo que se encontra além ou aquém do real.  Na verdade, como se verá, virtual e real não são necessariamente antagônicos. Ao contrário, o virtual é uma dimensão efetiva do real.

Gilles Deleuze (1925 – 1995), filósofo francês

Será o filósofo francês Gilles Deleuze um dos primeiros a tomar este conceito de um modo diverso. Em sua marcante obra Diferença e Repetição, Deleuze diz que, apesar de não pararmos de invocar o virtual, não entendemos claramente o que ele é. Claramente, ele irá afirmar que o virtual deve ser definido como uma parte própria do objeto real. Se não se pode atribuir ao virtual uma atualidade que ele não tem, não se pode, por outro lado, retirar a realidade que ele tem.

O virtual possui uma plena realidade, enquanto virtual.”

Gilles Deleuze, Diferença e repetição

A arte apresenta-se como um campo no qual muito se pode perceber o virtual, em termos de pontos de vista e de processo, muitas vezes embrionário do objeto a ser atualizado. O virtual, como já se viu na escolástica, opõe-se ao atual. Não estar atualizado não torna um ser irreal ou surreal, apenas em processo de diferenciação. Deleuze também insiste que o virtual, ao contrário do que afirmava Aristóteles, não é uma possibilidade. Isso porque o possível carece de uma realização, de tornar-se real, enquanto o virtual, para ele, possui plena realidade que apenas será atualizada. Não se trata, portanto, de uma limitação ou menor ou maior dose de realidade, mas de uma criação a partir da atualização, seguindo linhas divergentes, visto que, para Deleuze, o virtual será marcado pela multiplicidade.

Pierre Lévy, filósofo de nacionalidade francesa nascido na Tunísia em 1956, que tem se destacado no estudo das realidades virtuais e da cibercultura.

Nos dias atuais, profundamente inspirado em Deleuze, o filósofo franco-tunisiano Pierre Lévy, em suas obras O que é o virtual e Cibercultura, dentre outras, insiste na tese da absoluta realidade do virtual, particularmente daquilo que o advento da internet veio a denominar com este termo. Para ele, aquilo que se denomina como virtual, no sentido de não plenamente físico ou não presencial, sempre esteve presente na condição humana e vai muito além da informatização: contratos, estados, corpos, leis, línguas, estradas, meios de comunicação e transporte, formas outras de um grande movimento de virtualização do mundo humano.

“[…] o virtual constitui a entidade: as virtualidades inerentes a um ser, sua problemática, o nó de tensões, de coerções e de projetos que o animam, as questões que o movem, são uma parte essencial de sua determinação.”

Pierre Lévy, O que é o virtual?

Então o que se depreende é que precisamos entender a virtualidade e aprender a operá-la. Se filosoficamente virtual é o campo do inatual, conceitual e problematizador, ao menos para Deleuze e Lévy, como aplicar isso àquilo que nas últimas décadas se passou a denominar virtual como sendo algo que não nos toca diretamente, pois estaria numa dimensão cibernética diferente daquilo que por um bom tempo consideramos como real?

Em se tratando da internet, Lévy entende que seu principal papel é ampliar a realidade, por intermédio de seus mecanismos de interconexões e capturas quase infinitas. Aquilo que chamamos de realidade virtual, de algum modo já existia mesmo antes da internet, como a seleção automática de imagens ou músicas, claro que em menor intensidade e complexidade.  Esta noção de ubiquidade, ou seja, estar em vários lugares ao mesmo tempo, é apenas ampliada pela internet. A imprensa e a reprodução variada das obras de arte e depois disso o rádio e o cinema já nos traziam, ainda que em menor grau, tais aparentes possibilidades.

Creio que uma das principais lições que podemos trazer dos conceitos filosóficos quanto ao virtual é justamente abandonarmos a ideia de que este espaço ou conceito não é real. Ainda que estejamos hoje à mercê de inúmeras possibilidades de manipulação, falsificação e simulação no universo cibernético, grosso modo hoje chamado de virtual, os efeitos de tais práticas são completamente reais. Ademais, as possibilidades de simulação e engano sempre estiveram presentes na história humana; a internet não as inventou, apenas aperfeiçoou e desenvolveu.

Ainda parece haver a sensação em muitos de que o universo dito virtual não é real. O que digo em um post de rede social ou mesmo em um blog como este pode eventualmente passar despercebido ou ter um impacto enorme, dependendo de uma série de variáveis. E isso é, acima de tudo, bem real, como igualmente é bastante real a arte, o jornalismo, as transações econômicas e pessoais que ocorrem no universo dito virtual. O fato de que não haverá presença física e as eventuais dificuldades ou facilidades daí decorrentes, que podem resultar em vantagens e enganos não retiram o caráter de realidade do virtual cibernético, antes demandam uma necessidade de estabelecer meios racionais de se lidar com este aspecto contemporâneo da realidade.

Na verdade, o que temos hoje, segundo Pierre Lévy, é a virtualização como processo que permite o inverso da atualização. Enquanto meio de descobrir diferentes formas de enfrentar uma situação ou compreender diferentes aspectos de uma realidade ainda que ela não se tenha materializado, surge, para o bem e para o mal, a possibilidade de uma desterritorialização de quase tudo. Não temos mais a possibilidade de “entrar” em uma realidade virtual e dela se retirar, como nos primórdios da chamada era digital: ela permeia nossa vida de modo tanto invasivo, por meio dos algoritmos das redes sociais e plataformas que acessamos e nos induzem a relações, padrões de consumo, comportamento e mesmo ações, como nas inúmeras possibilidades de relações, conhecimento, pesquisa e negócios.

Lidar com essa desterritorialização não é algo simples e implica novas compreensões desta realidade expandida, na qual o lugar físico e a presença corpórea passam a ser apenas uma das possibilidades. Essa não presença que é presente amplia horizontes e permite conjugar o verbo existir de modos diversos, mas ainda somos os mesmos. Ou não mais?

Os desafios da empregabilidade, do aprendizado e da política em meio à virtualização ganham contornos por vezes dramáticos e até certo ponto imprevisíveis. Mas há muita previsibilidade possível, principalmente ao compreendermos quem somos e o que podemos ser. Se há problemas com o conhecimento, a ética, as relações humanas, a política e a economia em tempos marcados pela crescente virtualização, possivelmente a causa não seja meramente presente nos novos meios e possibilidades, mas em nós mesmos.

Antes de nos preocuparmos, por exemplo, com o tão falado “analfabetismo virtual”, devemos lembrar que no Brasil temos aproximadamente 30% de analfabetos funcionais e os investimentos em educação caem ano a ano. Se há pessoas inescrupulosas agindo em ambientes virtuais, certamente elas não são virtuosas fisicamente. Se o “vício” em smartphones e similares afasta pessoas, possivelmente elas estariam afastadas por falta de afeto e intimidade por outros motivos. As campanhas políticas e mesmo a democracia enfrentam novos desafios na virtualização, mas a falta de apreço pela democracia por parte de muitos e seu apego ao autoritarismo tem razões sociais e psicológicas que independem dos meios físicos ou não presenciais. Empregos precarizam-se em tempos de “uberização” das relações trabalhistas por falta de compaixão em nome do lucro e pelo engodo de que menos direitos trarão mais empregos, não apenas pelas relações terem novas possibilidades no universo virtual.

Em suma, o virtual do qual se fala contemporaneamente pode ser problemático e complexo, demandar adaptações e novas compreensões, mas ele não nos muda tanto interiormente. Ele é parte da realidade e apenas revela de modo diverso e múltiplo nossas qualidades e fraquezas.

Imagem em destaque: Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Para saber mais:

Deleuze, Filosofia virtual, Éric Alliez

O que é o virtual, Pierre Lévy

Pierre Levy falando sobre o que é o virtual de modo conciso e resumido.

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