Distopias, o lado cético das pandemias

FREDERICO MORIARTY – Thomas Morus publicou o livro “A Utopia” em 1516, sua última obra. O antigo conselheiro de Henrique VIII caiu em desgraça após a defesa do casamento do rei inglês e contra a anulação. Henrique VIII, como todo bom monarca, mandou matar o filósofo, conseguiu a anulação do primeiro casamento e de quebra fundou o anglicanismo, a versão inglesa do protestantismo. Quatro séculos depois, Morus virou santo. Utopia virou substantivo. Certa vez um poeta disse que a utopia era como uma ilha no horizonte e quanto mais nadássemos em sua direção, mais distante ficava. Morus imaginou uma ilha da perfeição: justiça social, sem pobreza, fim das desigualdades e valores éticos e cristãos. Uma sociedade familiar, monogâmica e sem vícios. Escritores, políticos e filósofos passaram os últimos 500 anos tentando criar um modelo perfeito de utopia. O homem é muito saudoso de uma era de ouro que nunca existiu. Com o tempo as utopias foram perdendo força e sentido. Os próprios marxistas e comunistas que criticaram o romantismo dos utópicos viram sua utopia fracassar. A pós-modernidade fez ruir as certezas. John Lennon, assassinado há 40 anos, dizia: “The dream is over”.

Mas teríamos no lugar da utopia o fim dos tempos? O armaggedon? O apocalipse? O meteoro que irá nos incendiar? Se depender da literatura, do cinema e dos seriados de TV, sim. Histórias com ditaduras futuristas em que parte da humanidade desapareceu temos aos montes.

Tais cenários trágicos têm outro nome: distopia. Topos do grego significa lugar. Dis é o radical com sentido de desorganização, fora do centro, sem sintonia. Sociedades distópicas são aquelas em que a ruptura e a desesperança imperam.

Na literatura temos três grandes obras. Admirável Mundo Novo (1933) de Aldous Huxley; Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1948) de George Orwell e Fahrenheit 451 (1953) de Ray Bradbury.

Huxley criou um mundo em que as pessoas não nascem mais naturalmente, elas são produzidas e “cultivadas” numa imensa fábrica genética. As divisões de classe se radicalizam. Homens e mulheres são divididos e programados para serem alfas, betas e gamas. Os alfas são a elite cultural e econômica, os betas os trabalhadores qualificados e os gamas a massa da classe trabalhadora. É a ciência a serviço da desigualdade e da exclusão.

Orwell imaginou uma ditadura política totalitária. O Grande Irmão é o líder supremo onipresente e onisciente, mas jamais visto. Por onde se vá o Big Brother estará lá te vigiando. Qualquer que seja sua profissão, você trabalha para o Big Brother. Não há passado sem as virtudes do Grande Irmão. Só existe futuro no Grande Irmão. Um mundo sem liberdades, sem vida. Um mundo do laconismo da Novilíngua. Ou, como dizem os lemas IngSoc, o único partido do mundo futuro: Liberdade é Escravidão, Guerra é paz. A lógica é o duplipensar. A capacidade de defender duas ideias paradoxais simultaneamente.

Salvador Dali. Tempo

Bradbury escreveu sobre o mundo sem leitura. A ditadura do futuro aboliu a leitura e os livros. Era perigoso demais pensar. Os bombeiros não existem mais pra apagar os incêndios e sim para descobrir os livros e queimá-los. A distopia tem um final otimista: um grupo de subversivos encontra uma maneira inusitada de desafiar o sistema, eles escolhiam um romance e decoravam a obra toda. Um país se faz com homens e livros, disse Lobato. O mundo pós-Fahrenheit seria possível pois os homens eram os próprios livros.

No cinema são dezenas de bons filmes a retratar esse futuro sem esperança. Sem dúvida que o melhor é Blade Runner (1982). Desastre ambiental, grandes corporações, o cyberpunk, engenharia genética, robôs, está tudo ali na perseguição implacável de Deckard aos replicantes. Esse blogueiro já escreveu sobre o filme. Leia o artigo aqui. Outra distopia de qualidade é Matrix (1999). Também descrito anteriormente no blog aqui.

Cena de Blade Runner

Três filmes são interessantes de analisar: Mad Max (1979); O dia seguinte (1981) e Exterminador do futuro (1984). Filmes de uma outra época, um pouco datados. Mad Max curiosamente se passa em 2021. O motivo da destruição da sociedade é uma guerra cujo centro é a carência de petróleo. É um mundo da Anomia, uma sociedade sem lei e ordem. “Day after” trata da guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética. Muitas distopias dos anos 60 e 70 tinham a hecatombe nuclear. O mundo ainda vive a ameaça das armas atômicas, mas sem a expectativa de uma guerra iminente. E com a China no papel da antiga URSS. O “Terminator” já teve seis continuações, sempre com o mesmo tema: a guerra entre homens e máquinas que vêm do futuro. Nada sobre questão ambiental, sobre outras tecnologias ou clonagem. Aliás, a questão ambiental é uma das grandes excluídas dos filmes distópicos. São pouquíssimas as histórias que tratam do mais certo dos fatores que levarão o mundo a uma grande crise nas próximas décadas. O desastre ambiental é inexorável, só não sabemos o tamanho do estrago. Porém, as distopias o tratam como fator secundário nos mundos apocalípticos. Guerra das máquinas do Exterminador é improvável. Gasolina de Mad Max? Não dependemos tanto do combustível hoje em dia.

Mel Gibson em Mad Max

Mais recentes temos V de Vingança (2005) e Guerra Mundial Z (2013). No primeiro temos vários elementos presentes do romance de Orwell. O filme se passa no fim dos anos 2020: após uma recessão brutal que levou à decadência dos Estados Unidos e um vírus que assolou a Europa, o mundo é assolado por uma ditadura cruel e excludente. Homossexuais e pobres eram mandados para campos de concentração, por exemplo. Mas os libertários mascarados lutam por um novo amanhã. Lutam por sua Vendetta. No segundo, estrelado por Bradd Pitt, temos a mistura poderosa de vírus e zumbi. Repentinamente (como toda boa história de terror) um vírus atinge a humanidade e começa a transformá-los em zumbis. A história conta a luta de um emissário da ONU em buscar a cura para a doença. A cena dos zumbis se amontoando um sobre o outro para furar o último bloqueio existente no muro da Cisjordânia é impressionante. Não há escapatória contra o vírus.

Natalie Portmana em V de Vingança

Poderia citar mais uma dezena de filmes e livros, mas seria enfadonho. Em tempos de pandemia é melhor assisti-los ou lê-los. Farei apenas um apanhado dos principais aspectos que encontramos numa boa distopia:

  1. Futuro Remoto: as distopias têm data. As histórias têm momento certo para começar. Mil Novecentos e Oitenta e Quatro – 1984, Exterminador do Futuro – 2017, Blade Runner – 2019, Mad Max – 2021, V de Vingança – 2029, etc.. Mas apesar disso, em geral, os fatores que levaram ao momento de ruptura da sociedade antiga para a distópica tem seus alicerces no passado e quanto menos se explicar esse, melhor a trama;
  2. Regimes Totalitários: ou o futuro possui regimes totalitários e seus grandes ditadores ou será necessário instaurar uma ditadura para restabelecer a ordem pré-distopia. Orwell e Huxley colocam uma ditadura no futuro; Guerra Mundial Z na tentativa de conter o vírus;
  3. Anomia: Nas histórias em que não há ditaduras existe um ceticismo e uma descrença total no poder e nas leis;
  4. Soluções Individuais ou Anárquicas: as distopias não perdem o caráter romântico das transformações. Um homem ou mulher sozinhos são capazes de lutar contra o “sistema”. Deckard em Blade Runner, Bradd Pitt em Guerra Mundial Z, Smith em 1984 ou Nicole Portman em V de Vingança. Como não há lei ou ordem, as ideias libertárias (que acabam se confundindo com medidas autoritárias) são possíveis e a única alternativa contra a opressão;
  5. Tecnologia: A tecnologia será o grande inimigo da humanidade no futuro. As teletelas são utilizadas não para a comunicação pelo Big Brother mas para vigiar as pessoas. Os robôs se tornarão cada vez mais humanos, terão inteligência artificial e começarão a nos destruir, numa clara projeção de nossas fragilidades e vícios. Os computadores não precisarão mais dos homens, como em Matrix;
  6. Extermínio: Boa parte da humanidade desaparecerá. A morte de muitos é consequência desse mundo distópico. A vida em si não tem muito valor perante ao mal causado pelo agente responsável pela distopia, seja ele um ditador ou um robô;
  7. Atmosfera Sombria: Não há distopia colorida. Todas elas são cinza, escuras. O sol parece ter sumido. As cidades, casas, ruas são de cor opaca. É triste viver no futuro distópico. Quase não há espaço para o amor, as diversões. Não se vê crianças. Seria como se a humanidade desse seus últimos suspiros.

Neste ano de 2020 vivemos uma prévia do que seria uma distopia. E muito dos elementos da imaginação dos artistas se repetiu. Durante a quarentena percebemos o quanto as pessoas podem ser agressivas, violentas e egoístas. Descobrimos que os “ditadores” existem e tentam negar a realidade o tempo todo. Agem como se a verdade fosse uma grande mentira e tentam nos impor que é na escravidão que teremos a liberdade. Muitos se recusaram a cumprir a lei do distanciamento, da utilização de máscara e da não circulação. Como fala o agente Smith para o Neo de Matrix: “o maior e mais destrutor vírus da terra é o homem”. Em seis meses mais de 1 milhão de pessoas morreram de Covid 19 e para muitos isso é normal. Uma parcela considerável da população não tem empatia pelo outro, pelo sofrimento alheio. Muitos estocaram papel higiênico, álcool gel e alimentos. Numa lógica perversa de pensar só em si num momento de crise mundial e busca de união e companheirismo.
Felizmente assistimos a muitos casos que renegam essa realidade do “homem ser o lobo do homem” como defendeu Hobbes. São centenas de casos de solidariedade espontânea, de colaboração, de companheirismo, de pessoas que deram a mão ao próximo num momento de desespero. Talvez, quem sabe, quando a distopia vier, não seremos tão céticos. A humanidade não pode ser tão ignorante.

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