Sobre o sequestro criativo: uma alegoria pré-combinada

LUIZ PIEROTTI – Nesse texto, proponho uma clara metáfora. Uma figuração previamente acertada porque, em vias de fato (e excesso de tempo), a pena me anda estranha e não me sinto na capacidade de bolar alegorias claras e performáticas.

Falarei sobre amor, afeto e vida, mas em seu lugar, nos pixels que lhes tomarão espaço, construirei graficamente  palavras como arte, criatividade e inspiração.

Dizem que, para o artista, a pior coisa do mundo é a crise criativa. Que um apagão de ideias, um papel vazio ou um instrumento silencioso são verdadeiras torturas, lentas e corrosivas. E de fato são. Porém, percebo hoje que existe mais um grande devorador artístico, um que se monstra como uma bela melodia, que às vezes aparece como um parágrafo camoniano impecável e que por vezes até guia sua mão ao pincel, mas que na verdade, ao fim, se mostra como o que de fato é: um sequestrador artístico.

Nada há nada pior do que o sequestro criativo, pois ele é, também, o rapto de tudo que existe em ti, todavia, com versos e métricas bem acertadas.

Deparei-me, há certo tempo, com um lindo dístico. Devo tê-lo lido algumas dezenas de vezes até me aproximar suficientemente e perceber que era, na verdade, um soneto todo. Quatro, quatro, três, três, ABBA, tudo como a professora me havia ensinado outrora. Um soneto incrível, ora árcade, ora realista, por vezes, à noite, criava tons românticos, e, não nego, que por vezes, após uma leitura mais intensa, flertava com o mal do século. Mas o que fazer? Lá estava ele. E ele sabia meu nome, também me lia, me lia como poeta, como criador, e deixava que, aos poucos, eu pudesse escrevê-lo também.

Esqueci-me do meu último romance sobre a mesa, das odes que fazia à minha própria felicidade, dos haicais que às vezes evocava pela manhã, numa corrida matinal. Esqueci-me de todos, porque agora eu vislumbrava aquela que poderia… Poderia não, que já compreendia como minha opera prima.

E assim o fiz! Passei noites e dias compilando versos, criando sonoridades, lendo e relendo aquele poema que se tornava cada vez maior, e cada vez mais imponente. Mas também cada vez mais firme e, de certa forma, dono de mim mesmo. Não era mais sobre o prazer de escrevê-lo, era só o dever de mantê-lo e, ele, também propunha tal prioridade. Queria ser aprimorado, E quando um verso não era escrito adequadamente, na métrica pré-estabelecida, me indagava. Duvidava da minha capacidade trovadoresca, cuspia versos pobres, rimas de mesma classe morfológica e vírgulas erradas em meu caderno.

O dístico, o soneto. Os primeiros versos, as evocações de Dirceu à Marília tornaram-se escarros de Dos Anjos.

“[…] na boca que te beija!”

E assim, tive minha criatividade sequestrada.

E sabem como é… Artista nenhum consegue deixar a arte pra lá, não até que faça a milésima leitura e comprove, empírica-cansativa-astrológica-astronomicamente, que aquilo não pode ser terminado, ou mesmo reescrito. Ou quando vê sua ideia ser roubado por um outro poeta, que se propõe a terminar aquilo que você certa vez começou. Porque esse tipo de verso. Esse tipo de crônica diária, suga os autores mais apaixonados.

Não há nada de pior do que o sequestro da criatividade. Nem mesmo a crise, nem mesmo o bloqueio criativo. Nos últimos dois casos, a ação encontra-se perdida dentro de ti, baste fluir pelas veias, encontrar a tinta (ou um gole de conhaque) e logo as palavras, imagens e movimentos dizem alô ao mundo.

Quando te sequestram a criatividade. Quando te sequestram a arte. Quando te sequestram todo o suor desse ofício, você o perde, mesmo que por um tempo. Ele não está em você. O que sobre em ti, é a perda, é o caco, é a saudade de escrever aquilo que, certa vez, chutou os papéis de sua mesa pela sua insuficiência. Resta o verso bonito que, em dado momento, adjetivou-te de forma tão feia. Como qualquer sequestro, há a chance de que Estocolmo te presenteie com uma síndrome.

Mas seja forte, amigo. A vida imita a arte e, nesse caso, de alegorias trocadas, a arte imita a vida. E a vida não é um ramo individual, ela é uma raiz forte, que cresce para todos os lados. E quando essa raiz tocar o solo da inspiração novamente, e para isso basta silêncio, tempo e rega, dai então a criatividade flui novamente e a arte limpa o céu que outrora foi coberto pelos rascunhos malfeitos do passado

Evoé!

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