A história do português que criou a Orquestra Sinfônica Petrobras

RUBENS NOGUEIRA – Nosso país é muito musical. A bossa nova completou 60 anos e conquistou pessoas de todos os continentes. Muito pela batida diferente do violão de João Gilberto e mais ainda pela voz de Frank Sinatra. Carmem Miranda deu grande contribuição durante a 2ª Guerra Mundial. Ary Barrozo, Tom Jobim, Gilberto Gil, Caetano Veloso são cultuados do Ártico à Antártica.

O Rio de Janeiro, com o centenário Theatro Municipal, é o palco privilegiado de todo tipo de manifestação cultural. Uma das orquestras mais antigas, a OSB, teve e tem ainda tardes e noites memoráveis. Um dos grandes regentes chamou-se Eleazar de Carvalho. Outro, que não conheci, foi-me revelado por Maria Helena, minha amiga, a quem devo agradecimentos pelas vezes que me convidou a fazer-lhe companhia a espetáculos inesquecíveis no Municipal.

Dou espaço a ela, que é muito culta:

“Rio, 04/08/2018

Rubens,

Conhecimento não ocupa espaço, abre a mente para novos assuntos… E você sempre gostou de ler e escrever. Se houver interesse, aí vai um pouco da história do português Armando Prazeres, que criou a Orquestra Petrobras Sinfônica, considerada atualmente a melhor orquestra do Rio de Janeiro.

Nos anos 70, esse português formou um grupo musical no Rio de Janeiro, conhecido como Orquestra Pró-Música. Com patrocínios, levou adiante esse trabalho que deu origem à Orquestra Petrobras Pró-Música e, mais tarde, viria a chamar-se Orquestra Petrobras Sinfônica, dirigida e regida por Isaac Karabtchevsky.

O episódio do assalto e morte desse português, quando caminhava em Laranjeiras com um dos filhos foi amplamente divulgado pela imprensa. Os dois filhos seguiram o rumo do pai, a chamada música clássica: o mais novo, Filipe, é o spalla (primeiro violino) da Orquestra Petrobras e também rege; o Carlos estava como regente em uma orquestra na Bahia.

Maria Helena”

“A música basta”

Tom Jobim

Prazeres regeu a orquestra que se apresentou para o papa João Paulo II e se tornou conhecido, a partir de então, como o “maestro do Papa”. Mas sua carreira teve muitos momentos importantes. Ele foi pioneiro na criação de corais em empresas

Armando Prazeres: memória que não quer calar

Antonio Campos*

Armando Prazeres nasceu em 8 de agosto de 1934, em Arouca, Portugal.

Ainda criança, veio com a família para o Rio de Janeiro, passando a morar no bairro do Rio Comprido. No seminário São José, perto de onde morava, cursou o estudo intermediário e descobriu o pendor para o piano e a música. A formação para a carreira religiosa representava o desejo da família de que o filho tivesse um futuro melhor, diante dos recursos limitados de que dispunham, mas não coincidia necessariamente com a vocação do jovem. Mesmo sem essa convicção, concluiu a primeira etapa dos estudos no Brasil, e foi para a Europa se aperfeiçoar.

Estudou regência coral com René Brighenti, na Escola Superior de Música de Estocolmo, na Suécia, estagiou na Capela Sistina, no Vaticano, e aprimorou sua técnica em regência orquestral na prestigiada Academia de Santa Cecília, em Roma. Brighenti, estudioso da música coro-orquestral brasileira do período colonial, foi o responsável por apresentar esse repertório ao aluno, que anos depois, por ocasião do sesquicentenário da Independência (1972), regeu em primeira apresentação moderna as composições de D. Pedro I.

Ao retornar ao Brasil, a falta de vocação sacerdotal se havia confirmado e o País ganhou um ótimo regente. Mas no início, não conseguindo estabilidade financeira pela música, formou-se em Letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Lecionou no extinto Colégio São Fernando, em Botafogo, e em diversas escolas dos subúrbios cariocas. Em algumas dessas escolas, também tomou para si a educação musical, incentivando a formação de corais estudantis.

Foi pioneiro em criar, a partir de 1973, grupos vocais em empresas, entre elas os Correios, a extinta Telerj, a Interbrás e a Petrobrás. Nesta última, logo se tornou coordenador de todos os corais das subsidiárias da empresa (mais de 20), viajando por todo o País. Em ocasiões especiais e datas comemorativas, os coros eram acompanhados pela Orquestra Pró-Música (criada por ele), conjunto formado por 45 músicos arregimentados por ele. O patrocínio da Petrobras possibilitava também a gravação ao vivo dessas apresentações, que eram lançadas em LP, 10 ao todo.

A chance de se consagrar como maestro veio em 1980, durante a primeira visita do Papa João Paulo II ao Brasil. Convidado pela direção do Projeto Aquarius, regeu a orquestra que atuou na missa campal, no Aterro do Flamengo. A partir de então tornou-se conhecido como o Maestro do Papa, e recebeu diversos convites para reger no exterior.

Em 1986, durante o tradicional Concerto da Independência, pediu ao presidente da Petrobrás – Ozires Silva – patrocínio definitivo para a OPM (Orquestra Pró-Música), pedido aceito por Ozires. Com a estabilidade que o patrocínio proporcionava, pode lapidar artisticamente o grupo, que passou a ensaiar no auditório da empresa. Em 1989, fundou o Coral Ars Plena, reunindo cantores com os quais já havia trabalhado em diversos grupos de canto coral (principalmente o antigo Coral da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ) e integrantes do coral da Petrobrás. Com o coral, apresentava peças renascentistas e barrocas, a capella ou acompanhadas pelo órgão, de autores como Tomás Luis da Victoria, Palestrina, Orlando di Lassus e Bach. Além dessas, o Coral Ars Plena apresentou-se, em parceria com a OPM, em obras como as Missas Brevis em fá e em lá e o Magnificat, de Bach; o Messias, de Händel; a Missa da Coroação e o Requiem, de Mozart; o Gloria, de Vivaldi, a Missa em Ré Maior, de Franza Xavier Süssmayr, o Requiem, de Antonio Salieri (ambas em primeira récita no Brasil), o Requiem, de Faurè, o Te Deum, de Bruckner e outras obras coro-orquestrais.

Em 1995, a OPM – Orquestra Pró-Musica – foi rebatizada como Orquestra Petrobrás Pró-Música (OPPM). O perfil acessível da orquestra foi acentuado, com a missão de popularizar os clássicos, em contrapartida ao patrocínio recebido. A OPPM passou a se apresentar em praças, igrejas, teatros e favelas de diversos estados, em concertos a preços populares ou com entrada franca. Também se apresentava ao lado de importantes nomes da MPB, pois para o regente, não deveria haver distinção entre o repertório clássico e o popular.

Em janeiro de 1999, aos 65 anos, Armando Prazeres foi sequestrado e morto. Além da tristeza pela perda brutal e violenta, pairou sobre a família e sobre a orquestra um pesado sentimento de incerteza em relação ao futuro. Nesta época, o filho Carlos Eduardo recebeu o apoio da Petrobrás para tocar o projeto do pai, e o maestro mexicano José Guadalupe Flores foi indicado como regente titular. (Os filhos de Armando Prazeres – Carlos e Filipe Prazeres – também se tornaram músicos e regentes).

Mais tarde, a orquestra OPPM foi novamente rebatizada como Orquestra Petrobrás Sinfônica (OPES) e é hoje, com uma formação de mais de 80 instrumentistas, e uma média de 60 apresentações por temporada, uma das mais tradicionais e conceituadas orquestras brasileiras. Com uma mescla de músicos jovens e experientes, tem como regente titular o maestro Isaac Karabtchevsky, o mais respeitado regente brasileiro da atualidade. A orquestra é a única no país gerida pelos próprios músicos, a exemplo da Filarmônica de Viena.

O Coral Ars Plena, transformado em Madrigal a partir de 1995, perdurou por mais dez anos, regido pelo maestro Cláudio Ávila, até se dissolver em 2005. Sua última apresentação com a OPPM foi o Gloria, de Poulenc, em 2001, no Teatro da UERJ.

Conheci Armando Prazeres apenas de vista, em 1974, ainda adolescente no curso ginasial, quando ele regia o coral dos estudantes do Colégio de Aplicação da UERJ. Na época, não cheguei a participar do coral, mas já era ouvinte atento. Mais de duas décadas depois, em 1992, incentivado por meu irmão Sérgio Monteiro e pelo amigo Antônio Rodrigues, juntei-me ao Coral Ars Plena. Nos sete anos de convivência, muito me honrou ter participado, mesmo num pequeno papel, na sua trajetória de muito trabalho e imensa humildade, e por ter sido testemunha da profunda paixão que tinha pela música. Mesmo não tendo sido um dos amigos mais chegados, agradeço ao Antônio Rodrigues pelo convite a escrever este artigo, menos emocionante do que o que ele próprio escreveu em 2012, mas igualmente triste pela perda sem sentido da sua vida, saudoso daqueles bons tempos, e feliz por ver que geram cada vez mais frutos, as sementes que o mastro plantou.

*Texto reproduzido do site www.movimento.com
http://www.movimento.com/2013/08/armando-prazeres-memoria-que-nao-quer-calar/

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