No adeus a Moraes Moreira, o ziriguidum e os sabores da terra de um velho Novo Baiano

MARCO MERGUIZZO – Um multi-instrumentista irrequieto, trieletrizado. Um compositor porreta, de talento puro. Além de um letrista inventivo e pra lá de original, cujos frevos irresistíveis e suingue hipnotizante mesmerizavam multidões, entre as décadas de 70 e 90, auge de sua longeva trajetória musical, caindo literalmente na boca do povo. Cantor de voz anasalada marcante, lépida e contagiante, Antônio Carlos Moraes Pires, ou simplesmente Moraes Moreira (1947-2020), pegou hoje desafortunadamente aquele disco voador, no qual todos nós um dia iremos embarcar.

Primeiro da trupe de cinco dos Novos Baianos a voar rumo à Eternidade, o autor de Acabou Chorare (1972), seu álbum de estreia, e Pombo Correio (1977), talvez seu maior hit entre outros sucessos retumbantes, foi vítima de um infarto fulminante, aos 72 anos, na manhã desta segunda-feira (13/4), em sua casa no Rio de Janeiro.

Baiano nascido no interior, mais precisamente na pequena Ituaçu, situada a 470 km de Salvador, na região do “Portal da Chapada Diamantina”, Moraes Moreira iniciou sua carreira ainda na adolescência, tocando sanfona nas festas de São João na sua cidade natal, enquanto fazia curso de ciências em Caculé. Mudou-se, a seguir para Salvador e lá conheceu Tom Zé, os Beatles e o rock n’ roll.

Mais tarde, ao conhecer Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão (estes dois últimos companheiros de pensão, na capital baiana) fez a sua estreia no 5º Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record. Com o quarteto de músicos e amigos, formou o conjunto Novos Baianos, de 1969 a 1975. Juntamente com Luiz Galvão foi compositor de quase todas as canções do grupo.

O primeiro disco dos Novos Baianos, Ferro na Boneca, foi lançado em 1970, em plena ditadura militar. Foi em 1972, no entanto, que o grupo estoura, com Acabou Chorare. O álbum, que tem no repertório a música de mesmo nome, além de faixas marcantes como Brasil Pandeiro e A Menina Dança, vendeu mais de 100 mil cópias e se tornou um clássico no cancioneiro brasileiro.

Em cores e P&B, MM e os Novos Baianos, hoje todos senhores setentões

O álbum Acabou Chorare, lançado pela banda em 1972, foi considerado pela revista Roling Stone Brasil em primeiro lugar na lista dos 100 melhores álbuns da história da música brasileira divulgado em 2007. Moraes Moreira possui 40 discos gravados, entre Novos Baianos, Trio Elétrico Dodô e Osmar e ainda dois discos em parceria com o guitarrista Pepeu Gomes.

Moraes Moreira é considerado um dos mais versáteis compositores do Brasil, misturando ritmos como frevo, baião, rock, samba, choro e até mesmo música erudita. Em dezembro de 2015, o grupo Novos Baianos anunciaria seu retorno à estrada com os mesmos cinco integrantes veteranos da formação original, mas já com idades na casa dos 60 e 70 anos.

Pai do frevo trieletrizado
Fotos deste post: bancos digitais gratuitos e divulgação do próprio artista

MM permaneceu nos Novos Baianos até 1975, quando saiu em carreira-solo. Nas décadas subsequentes, lançou mais de 20 discos, incluindo músicas como Pombo Correio, um de seus sucessos mais marcantes e tocados até hoje. Ele também foi um dos primeiros puxadores de trio elétrico no Carnaval da Bahia, no Trio Elétrico Dodô e Osmar.

Referencial da música carnavalesca da boa terra, Moreira lançou uma série de grandes sucessos momescos, a qual se convencionou chamar de “frevo trieletrizado”. Alguns dos hits ultraconhecidos dessa fase foi Pombo Correio, Vassourinha Elétrica e Bloco do Prazer, entre outras. Durante os anos 1980, Moraes resolveu afastar-se da folia, devido ao gigantismo e à internacionalização do Carnaval baiano.

Em 1994, gravaria o excepcional CD O Brasil Tem Concerto, influenciado pela música erudita. No ano seguinte, lançou outra grande coletânea que chamou de Moraes Moreira Acústico MTV, mais tarde transformada em CD e DVD. Em 1997, um disco carnavalesco acabou por marcar meio seculo de vida: 50 Carnavais. Dois anos depois, MM fez 500 Sambas em homenagem aos 500 anos de descobrimento do Brasil.

Em 2000, Moraes lançaria o disco Bahião com H, tocando o baião com seu característico sotaque baiano. Já em 2003, completou sua trilogia que tinha como tema o Brasil, e incluía os três álbuns Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira (1979) e O Brasil Tem Concerto (1994) e Meu Nome é Brasil (2003). Em 2005, o cantor baiano lançou o disco De Repente, misturando hip hop com repente nordestino mais o swing característico dos acordes do seu violão.

Em 2008, Moraes lançou o livro A história dos Novos Baianos e outros versos em que conta a história do grupo em literatura de cordel e curiosidades sobre as músicas de sua carreira solo, e sai em turnê pelo Brasil com o show homônimo, tocando os maiores sucessos de sua carreira e recitando trechos do livro, que em 2009 foi transformado em DVD e CD.

Em 2012, ele gravaria o disco A Revolta dos Ritmos, um disco com 12 composições inéditas dele. Paralelo ao novo CD, Moraes Moreira viajou pelo país todo, ao lado do seu filho Davi Moraes, para fazer uma turnê comemorativa dos 40 anos do disco Acabou Chorare. A princípio seria apenas um show, mas em razão do enorme sucesso de público, virou de fato uma turnê com uma série de shows por várias capitais e cidades brasileiras.

Capa do último CD de Moraes Moreira: cordelista de quatro costados

No crepúsculo de sua carreira, já aos 71 de idade, o “velho” MM reexibiu sua conhecida versatilidade musical, ao reestrear e debutar como exímio e talentoso cordelista. Para tanto, reuniu composições instigantes, como Sambadô e Deixa os Pés no Chão (não deixe de ver o vídeo e ouvi-las no final deste post), entre outras canções cativantes, na excepcional coletânea “Ser Tão”, de 2018.

Com uma obra musical preciosa, Moraes Moreira foi uma figura referencial da MPB e da música baiana carnavalesca integrada à nacionalidade. Um legado belo e perene. Desafortunadamente, neste dia 13/4, acabou chorare. E tudo ficou tão triste.

R.I.P. (Rest In Peace), Moraes Moreira.

Caetano, Paulo Leminski e MM (Foto: Arquivo pessoal de Caetano Veloso)

“Moraes Moreira seria importante pra a nossa vida se tivesse sido apenas o rapaz que cantava no barzinho do Campo Grande que frequentávamos nos meses de confinamento em Salvador. (Ele cantava de sua mesa: era um cliente, não um profissional.) Sua voz encantava Dedé e nos ajudou a aguentar a pena sob a ditadura militar. E ele não é só o componente do grupo que lançou disco roqueiro (com “Colégio de Aplicação”: “Saindo dos prédios para as praças, uma nova raça”). Tampouco o músico/cantor/compositor da virada joãogilbertiana desse mesmo Novos Baianos de “Acabou chorare”, de “A menina dança”, do relançamento nível Carmen Miranda de “Brasil Pandeiro” e de todo um repertório e estilo que, junto a Galvão, Baby do Brasil, Paulinho Boca de Cantor, mais Pepeu Gomes, Didi Gomes, Dadi e Baixinho marcou a trajetória da música popular no Brasil. Somando-se a tudo isso, sua inclusão formal do canto nos trios elétricos (levando a levada de ijexá para o violão) fez dele herói da história do país. Sem ele não haveria o axé. Hoje acordei para a notícia de sua morte. Vejo Davi menino tocando com ele no trio. Penso em Davi. Ouço a dicção límpida de Moraes na obra-prima “Chega Nego”, nas outras metralhadoras de sílabas, nas palavras de Antonio Risério de “Sou o carnaval” ou “Pessoal do Alô”, nas de Fausto Nilo em “Bloco do Prazer” ou “Chão da Praça”, nos seus próprios versos de cordel. Lembro, vejo, ouço. A alma não pode acabar de chorar.”

(Reproduzido do Instagram oficial de Caetano Veloso)

Moraes Moreira como Visconde de Sabugosa, no especial infantil
Pirlimpimpim, exibido pela Rede Globo em 1982

“Que as trincheiras das nossas vidas sejam sempre de alegria, e que só exploda o amor. Obrigado Moraes Moreira por tantas músicas sensacionais. Pegue agora sua carona na cauda do cometa, veja a via láctea, essa estrada tão bonita. Brinque nas nebulosas. E nós vamos continuando no nosso lindo balão azul.” (Homenagem do fã carioca Marcelo Luiz Souza Soares, em sua página no FB)

A moqueca de Moraes Moreira

Trecho do livro “A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos” (Companhia das Letras, 2019), do jornalista e escritor mineiro Sérgio Rodrigues, autor do romance premiado “O Drible”. No capítulo reproduzido acima, Rodrigues cita o ‘no-show’ da moqueca – preparação icônica da culinária baiana -, que seria preparada especialmente por Moraes Moreira para o baiano de Juazeiro João Gilberto (1931-2019), durante o encontro do pai da bossa nova com os integrantes dos Novos Baianos.

Ziriguidum gastronômico

Referência do Carnaval de rua da Bahia, um dos mais populares do país, Moraes Moreira brilhou nos inícios dos trios elétricos. Foi um dos primeiros puxadores do trio elétrico de Dodô e Osmar, nos anos 1980. Vale contextualizar: se no Rio de Janeiro as escolas de samba foram ganhando cada vez mais espaço e popularidade, em Salvador aconteceu exatamente o contrário.

Assim, no final do século XIX, surgiria o Afoxé, um grupo de negros representantes das casas de culto de herança africana, que saíam às ruas cantando e recitando sequências de músicas e letras. Os afoxés exibiam-se na Baixa dos Sapateiros, Taboão, Barroquinha e Pelourinho, enquanto os grandes clubes desfilavam em áreas mais nobres.

O mais famoso afoxé é o Filhos de Gandhy, criado em 1949 – ano do IV centenário da cidade – pelos estivadores do Porto de Salvador. Seu nome é uma homenagem ao pacifista indiano Mahatma Gandhy (1869-1948), assassinado um ano antes. A maior inovação do Carnaval baiano, porém, foi o trio elétrico de Dodô e Osmar, que surgiu em 1950 e representa a consagração do Carnaval de rua.

A primeira apresentação foi feita em cima de um Ford 1929, com guitarras elétricas e som amplificado por autofalantes. O desfile aconteceu no Centro da cidade arrastando uma verdadeira multidão. Hoje o circuito, que inclui ruas, ladeiras e avenidas da bela orla de Salvador, é considerado uma das maiores manifestações populares do mundo.

Seja na música, religião ou culinária, a influência dos negros e da cultura africana na capital baiana, como de resto em todo o estado, é enorme. Para enfrentar a maratona momesca, o baiano independentemente de sua classe social costuma beber dessa fonte e entrega-se invariavelmente às iguarias regionais de paladar afro-português. Quem nasce na Bahia, portanto, dá grande valor às suas tradições gastronômicas e é refratário a muitos modismos.

“Há todo um aspecto lúdico, simbólico, por trás da comida. Fazer um caruru em casa, por exemplo, é um ótimo pretexto para reunir os amigos e promover a aproximação das pessoas”, explica a produtora de eventos e agitadora social baiana Licia Fabio. “Ou seja, mais do que convidar para um almoço, é um verdadeiro evento, inclusive no Carnaval”, diz. Com influências das culturas indígena, portuguesa e africana, a cozinha baiana parece ter sido concebida de fato para agradar e deslumbrar os olhos, o olfato e o sabor. É sincrética, colorida e rica mas ao mesmo tempo simples, pois sua base compreende alguns poucos ingredientes.

Os sabores da boa terra

Dos básicos e mais conhecidos, sobressaem-se de modo emblemático o azeite de dendê, o feijão fradinho, o inhame, o milho, o arroz, a farinha de mandioca, o quiabo, a taioba, o bredo, a língua-de-vaca, a mostarda e, claro, a rainha da cozinha baiana, a pimenta do gênero Capsicum, o tempero essencial das tribos Tupinambás e Tupiniquins, que habitavam aquela parte do litoral, deixaram como uma das principais heranças para a culinária local.

De acordo com o historiador e professor Guilherme Radel, estudioso de gastronomia e autor de quatro livros sobre a cozinha baiana, o mais recente deles A Cozinha Africana da Bahia, simbolizam essa vertente gastronômica o acarajé e seu primo-irmão, o abará, que é cozido e embrulhado em folha de bananeira (presentes nos tabuleiros das baianas, ambos são patrimônios culinários chamados popularmente de “hambúrguer de baiano”).

E mais: o caruru de preceito (o termo significa comida de oferenda para os Orixás, os deuses africanos do Candomblé), o vatapá, o chinchin de galinha, a quiabada, a anduzada (ou feijoada de feijão andu), o cozido (cuja matriz culinária é o tradicional cozido português) e a feijoada regionais (que leva feijão fradinho no lugar do preto, além de incluir em suas receitas carnes suína, bovina e linguiças) marcam forte presença à mesa nesse período. 

“Em cidades do Recôncavo baiano, como Santo Amaro da Purificação, por exemplo, lembra ainda Mabel Veloso, autora do livro O Sal é um Dom, é tradição comer o ‘feijão’, expressão local que é sinônimo da nossa feijoada, no domingo de carnaval”, diz a escritora, educadora, compositora e cordelista baiana.

“Já na terça, último dia de festa que avança sobre a quarta-feira de cinzas, o prato de resistência é o andu (vagem bastante comum no Nordeste)”, acrescenta a irmã de Caetano e Maria Bethânia. Uma mesa, enfim, irresistivelmente opulenta, colorida e repleta de referências para agradar foliões e os Orixás mais comilões da Bahia.

PARA VER, OUVIR E CURTIR:

Acabou Chorare (1972)
Ser Tão (Sambadô e Deixa o Pé no Chão) (2018)
Sintonia (1993)
Pombo Correio (1977)

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira. 
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