O hot chicken de Johnny ‘bad guy’ Cash, o Vietnã e a boa mesa de Nashville, a capital da country music

MARCO MERGUIZZO – Indicado pelo jornalista e contista de quatro costados José Carlos Fineis, autor do imprescindível blog Conversa de Armazém, neste Coletivo, assisti dia desses ao documentário Nixon and the Man in Black, em exibição na Netflix, e me encantei com a trajetória contundente, errática e de posições polêmicas, porém, extremamente apaixonante, do cantor bad guy Johnny Cash – o protagonista da película considerado o maior compositor e intérprete country de todos os tempos (confira o trailer do filme no final deste post).

Com uma carreira de altos e baixos que durou quase cinco décadas, J.R. Cash (Kingsland, 26 de fevereiro de 1932 – Nashville, 12 de setembro de 2003) foi para muitos críticos musicais a personificação da country music. Apresentava-se sempre com roupas escuras (daí o apelido “homem de preto”), mas o que distinguia era a voz sepulcral, inconfundível, as canções que retratavam de forma autêntica o lado caipira do american way of life, além do distintivo ritmo boom chicka boom de sua banda de apoio Tennessee Two.

Talentoso, rebelde e dono de si, Johnny Cash criou uma das carreiras mais consagradas da música country e do rock. Ainda melhor: tornou-se uma personalidade tão importante que suas posições políticas passaram a influenciar durante as décadas de 1960 e 70 grande parte da opinião pública norte-americana.

É sobre isso exatamente que trata o documentário ao resgatar como o astro da country music realizou, nos anos 70, um show na Casa Branca a convite do presidente Richard Nixon. Apresentação permeada de polêmicas, Cash interpretou e questionou através da canção What is Truth (O que é a verdade), a participação dos EUA na guerra do Vietnã, para surpresa e desconforto do próprio Nixon, escandalizando, de quebra, a plateia de figurões, empresários e áulicos ali presentes.

O presidente Richard Nixon e Johnny Cash durante o seu histórico show na Casa Branca: tiro que saiu pela culatra (Fotos: Arquivo)

Filho de um fazendeiro pobre, Cash nasceu no estado do Arkansas. Sua família mudou-se pouco depois para uma fazenda em Dyess, no mesmo estado. O pai era alcoólatra e abusava física e emocionalmente de seus filhos. Com cinco anos de idade, o pequeno J.R. começou a trabalhar em um campo de algodão, cantando com sua família enquanto cultivavam. Ele era muito próximo ao irmão mais velho, Jack, e um acidente ocorrido, em 1944, com este o afetaria pelo resto da vida.

Filho predileto do pai, o primogênito dos Cash teve uma morte terrível. Puxado por uma serra de madeira, teve o corpo decepado ao meio. Johnny Cash sempre falou da enorme culpa que sentia pelo incidente porque tinha saído para pescar naquele dia. Em seu leito de morte, o jovem teve visões do céu e de anjos, e quase sessenta anos depois do acontecido, Cash ainda falava esperar encontrar Jack no paraíso.

Suas memórias de infância eram dominadas pela música gospel. Cash começou a tocar violão e a compor ainda jovem. Ele passou a ser chamado de “John” depois de entrar para a Força Aérea Americana (que recusava iniciais como nome). Antes, era conhecido apenas como Johnny ou John R.. Enquanto servia na Alemanha, Cash compôs uma de suas músicas mais famosas, Folsom Prison Blues, que virou uma espécie de hino para os presidiários da América.

UMA ESTRELA MUITO ALÉM DA MÚSICA
De bad guy à queridinho da América: nos anos 1960 e 70, Johnny Cash era mais popular que os Beatles na pátria do Tio Sam

Década de 1960, auge da Guerra Fria, Johnny Cash viraria um dos personagens mais importantes dos Estados Unidos, em um período em que o país estava dividido: metade da população apoiava a guerra do Vietnã, metade pedia o fim do confronto. Cash, que costumava se manter neutro, usou seu programa de TV para, em 1969, passar uma mensagem de apoio aos soldados, e que refletia em um apoio indireto a Nixon. O presidente, então, aproveitou a deixa, a fama do astro e a importância da música country entre os conservadores, seu público-alvo, para convidar Cash para a Casa Branca. 

A apresentação de Cash tomou as manchetes nos Estados Unidos bem antes de acontecer. Nixon pediu para que ele apresentasse duas canções. Em ambas, as letras eram conservadoras. A primeira, Okie from Muskogee, exaltava o padrão de vida caipira em oposição aos hippies que se opunham à Guerra no Vietnã. A letra da segunda, Welfare Cadillac, por sua vez, criticava os cidadãos que ganhavam pensões e bolsas do governo americano à época.

A equipe de Cash acenou que ele cantaria as músicas, o que gerou burburinho e protestos. Mas, rebelde por natureza, o rei da country music tinha outros planos para o seu show. Nixon assumiu o risco e quase teve do que se arrepender. Sem aviso prévio, Cash não apresentou os hits pedidos pelo presidente.

Em vez disso, ele escolheu para a sua apresentação de gala as composições The Ballad of Ira Hayes (que fala sobre a história de um índio americano maltratado após servir o exército), Man in Black e uma canção chamada What is Truth. Esta última foi a que deu mais o que falar, com um misto de declamação e música. Para Richard Nixon, o tiro havia saído pela culatra.

De todo modo, o cantor não foi ofensivo e muito menos colocou o presidente, que renunciaria anos depois por conta do escândalo do caso Watergate, contra a parede. Mas a escolha desta composição mostrou que ele não estava alienado em relação aos embates e polêmicas da guerra do Vietnã – e mais: tinha uma posição clara antiguerra e oposta ao que a Casa Branca pretendia passar.

Após este episódio, Cash ganharia da imprensa norte-americana o apelido de o “Pombo com Garras”, uma referência às cizanias que haviam na dividida pátria do Tio Sam entre os cidadãos favoráveis à guerra do Vietnã, denominados de “Águias”, e, de outro lado, os seus compatriotas que eram contrários ao conflito, chamados de “Pombos da Paz”.

“Um menino de três sentados no chão
olha para cima e diz: ‘Papai, o que é a guerra?’
‘Filho, é quando as pessoas lutam e morrem’
O menino de três diz: ‘Papai, por quê?’
Um jovem de 17 na escola dominical
sendo ensinado a regra de ouro
E pelo tempo que outro ano se passou ao redor.
Pode ser a sua vez de colocar sua vida para baixo
Você pode culpar a voz da juventude por perguntar:
‘O que é a verdade?'”

(What is Truth, Johnny Cash)

Protesto estudantil em Boston contra a guerra Vietnã: os pombos da paz mostram suas garras no embate com as águias da guerra

Ao fim, a história da noite em que Cash chocou a Casa Branca teve implicações e influências reais, com mais um passo rumo ao fim da Guerra do Vietnã.  No fim, Nixon não se sentiu atacado e até tomou para si a mensagem passada, ainda que a guerra tenha demorado mais cinco anos para acabar. O fato é que Cash fez valer sua fama de imprevisível e mais uma vez fez as coisas à sua maneira, mesmo ao pisar no mais sagrado e temido território do mundo: a White House.

Um eterno rebelde, o astro Johnny Cash criou uma das carreiras mais consagradas e não menos polêmicas da country music
A BOA MESA DA CAPITAL DA COUNTRY MUSIC

Por ser uma grande metrópole, há obviamente em Nashville uma enorme e variada oferta gastronômica. Mas como todo estado sulista, a cozinha de raiz da capital do Tennesse apresenta uma forte influência creole cajun, pilares da instigante (e picante) culinária da vizinha Louisiana, cujo principal polo de divulgação é a fascinante New Orleans. Sua base gastronômica, portanto, são as receitas robustas e vigorosas trazidas pelos colonizadores franceses e espanhóis mescladas a ingredientes e temperos dos escravos africanos e imigrantes caribenhos.

O tempero varia mas não faltam aos pratos a páprica, o tomilho e a mostarda, entre outros cheiros e sabores. A mistura ainda leva alho e cebola, e, em menor quantidade, pimenta-de-caiena, calabresa e orégano. Em geral, a pimenta é marcante na maioria das preparações, com sabores e aromas intensos. Prato predileto de Johnny Cash, o frango picante, ou hot chicken, não por acaso é a mais tradicional, popular e famosa das especialidades de Nashville.

Servida em restaurantes como o Hattie B’s e o Prince’s, a ave, após marinar durante horas em molho de pimenta-caiena e demais temperinhos, é frita e vai à mesa escoltada invariavelmente da cole slaw (uma saladinha de repolho), feijões ou milho e pepino azedo.

Hot Chicken: o mais famoso prato de Nashville era uma das predileções à mesa do eterno rei da country music americana

Outra predileção de Cash, cuja infância foi passada numa fazenda, é o meat and three, um trio de sabor trivial bastante popular na capital do country, integrado por uma proteína animal (bovina, suína ou de ovino) grelhada, acompanhada em geral de uma pasta, creme de milho e couve refogada, tudo feito de modo bem simples e caseiro.

Até no café da manhã o bom e velho franguinho costuma ser figurinha carimbada por lá ao ser servido com waffles. Embora a combinação de sabores possa parecer um tanto estranha para o brasileiro, que em geral costuma torcer o nariz para esse tipo de combinação no prato, o chicken and waffles é ultrarrequisitado e servido em hotéis, restaurantes e bakeries (padarias) da capital do Tennesse.

Popular não só em Nashville mas em todo o Sul dos Estados Unidos. a receita clássica do chicken and waffles leva pedaços de peito de frango empanado e frito, waffles e xarope de mapple syrup (o bordo extraído de uma árvore típica do hemisfério norte, a Acer saccharum).

O exótico Chicken and mapples: esquisitice culinária é uma das paixões gastronômicas do sulista norte-americano

Como última e grande dica fora da mesa mas igualmente irresistível, não deixe de visitar o museu dedicado à Johnny Cash (clique aqui e confira agora). Afinal, não é todo dia que se pode conhecer in loco o legado precioso de uma das maiores personalidades e lendas – senão a maior – da country music e da vida americana dos anos 1960 e 70.

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional
especializado em gastronomia, vinhos, viagens e outras
coisas boas da vida.
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toda segunda-feira.
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PARA VER, OUVIR E DEGUSTAR:
TRICKY DICK AND THE MAN IN BLACK (TRAILER)
BLOWIN’ IN THE WIND (JOHNNY CASH)
WHAT IS TRUE
I WALK THE LINE

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11 comentários em “O hot chicken de Johnny ‘bad guy’ Cash, o Vietnã e a boa mesa de Nashville, a capital da country music

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  1. Excelente. Sem tirar nada. Puta vontade de comer esse frango. Vivendo e aprendendo contigo.

  2. Ora bolas, indo pra New Orleans ou Nashville. Hahahaha… Vamos? Em SP havia um restaurante de cozinha cajun/creole nos Jardins mas fechou. Uma alternativa é o indiano Tandoor (www.tandoor.com.br), que tem no menu um “primo” do hot chicken: o murg vindaloo, um prato típico de Goa, “ardente” e com sotaque portuga que leva sementes de cominho, pimenta vermelha, cravo, canela, tamarindo, gengibre, alho e vinagre. Esse restaurante é antigo e bem conhecido. A comida é autêntica, bem feita e, melhor, não é cara. Grande abraço.

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